Os Sentimentos Desabam no Quintal de Alguém (Parte Um)
— Mesmo caminhando contra o vento, ainda assim levantarei a barra do vestido.
Naquela noite, assim que o jardim dos fundos foi adornado, revelou-se um cenário único. Lanternas penduradas, decorações coloridas, pássaros cantando e dançarinas rodopiando: um verdadeiro festival de alegria.
Na tarde anterior, ao retornar aos aposentos, Muraxué começou a se arrumar com esmero. Prendeu os cabelos num coque baixo, semelhante a nuvens pendentes, e colocou uma coroa de fênix dourada, delicada e engenhosa, enfeitada com um grampo de jade roxo inclinado entre os fios.
Vestia uma túnica de manga longa de musselina branca como jade, com bordas ornadas de fios dourados. Na cintura, uma saia branca e rosada, salpicada de flores, cujas pontas eram bordadas com rosas vermelhas e douradas.
Sob os olhares impressionados de todos, Muraxué sentou-se ao lado de Nalan Suyu. O leve sorriso em seus lábios traía um toque de orgulho.
Inicialmente, Muraxué pretendia vestir-se de forma simples, para envergonhar aquele patife do Nalan. Mas, ao reconsiderar, percebeu que isso só a faria parecer ridícula; seria melhor se arrumar um pouco e surpreender a todos, ainda que fosse só de vez em quando.
— Majestade de Jade, dizem que sua consorte da neve possui extraordinário talento. Que tal ela recitar um poema para animar a festa? — Mukingé sorveu um gole de vinho, olhando para Muraxué com desprezo. O espetáculo estava apenas começando.
De imediato, os convidados concordaram animadamente.
Céus! Poesia, canções, literatura — Muraxué não dominava nenhuma dessas artes. No cotidiano, era apenas passatempo para ela. Agora, diante de todos, sentia-se ainda mais incapaz.
— Majestade, sou tola e não domino a arte da poesia. Temo envergonhar Vossa Alteza — Muraxué se inclinou discretamente em direção a Nalan, baixando a voz em advertência.
— Rainha, hoje os presentes estão todos de bom humor. Não recuse — Nalan Suyu simplesmente ignorou suas palavras, com ar indiferente, e então ergueu os olhos para Yueburu, sugerindo “saudade” como tema. — O que acham?
— Excelente, excelente — responderam animados, prontos para ver o desenrolar do espetáculo. Centenas de olhos voltaram-se para Muraxué, aguardando o momento.
Disfarçando, ela ergueu a taça, ocultando o rosto como se estivesse apenas bebendo. Ai, isso vai acabar mal.
— Senhora da Neve, não vai nos dar o prazer? — Mukingé provocou friamente. Ora, não diziam que a princesa Xueyao de Beiqing era uma beleza deslumbrante, de talento inigualável? Agora parecia apenas um vaso decorativo, sem utilidade.
— Bem, já que é assim, não posso recusar tamanha gentileza. Permitirei-me mostrar minha humilde poesia — Muraxué sabia que aquela alma penada só queria provocá-la, mas não tinha mais como recuar.
— No sul crescem os feijões vermelhos, na primavera brotam em quantos ramos? Que tu colhas muitos deles, pois são símbolo da saudade — recitou ela, com emoção e dignidade, como uma verdadeira literata. Por dentro, rezava silenciosamente para que o mestre Wang Wei a perdoasse! Só por desespero tomara emprestados os versos dele. Afinal, a flecha já estava no arco, não havia como voltar atrás.
— Majestade de Jade, parece que a Senhora da Neve sente grande nostalgia do nosso Reino do Sul — gracejou um dos homens ao lado de Mukingé.
— Não-Yu, não seja insolente. Belo poema, a Senhora da Neve de fato tem talento — Mukingé bateu levemente com o leque na cabeça de Nãoyu, mas em seu rosto não havia real reprovação. Pensava que a faria passar vergonha, mas, veja só, ela escapou por pouco!
— Sim, Majestade — Nãoyu, mal contendo o riso, curvou-se várias vezes em desculpa, mas seus olhos brilhavam de zombaria.
— Você! — Nalan Suyu, confuso com tantos comentários, ficou sem saber o que responder, limitando-se a encarar Muraxué.
— Majestade, foi Vossa Alteza quem pediu o poema — retrucou ela. Se dissesse que não, ele insistiria; se dissesse sim, ele se irritava. Tsc, ela era mesmo inocente.
— Hehe, Majestade Mu, exageras. Vamos, bebamos — Nalan Suyu riu sem graça e então sussurrou: — É melhor que não diga mais nada.
Se ela dissesse mais alguma coisa absurda, talvez ele mesmo a estrangulasse!
— Heh, farei como deseja — Muraxué cobriu o rosto com a manga e sorriu suavemente. Acaso a culpa era dela?
No entanto, precisava agradecê-lo por lhe dar um excelente pretexto para sair. Desde o início, não tinha interesse algum naquela farsa!
— Majestade, sinto-me subitamente indisposta, retornarei ao Palácio Fengluan — antes que Nalan Suyu percebesse, Muraxué já se levantara com elegância e se despediu.
Em seguida, virou-se para as aias:
— Sirvam a todos com zelo, não envergonhem a etiqueta de nosso Dongqing.
Finalmente livre dos bajuladores, Muraxué sorriu satisfeita, já arquitetando seu pequeno plano — explorar o terreno.
Ignorou completamente o olhar pensativo do Majestade de Jade e o olhar sarcástico do Majestade Mu às suas costas.