Talvez, seja uma dívida que trouxe de uma vida passada. (Parte Dois)
Não tinha medo. Murmurei suavemente, tocando a flauta de jade em silêncio; realmente não havia medo algum.
— Oh, Su Yu sempre foi tão medrosa, nunca mobilizou tropas por você. O Norte está um caos, mas, aos poucos, vai se acalmando — disse Mu Qingge, saboreando o licor de ameixa, erguendo os lábios num sorriso satisfeito. — Veja, ninguém se importa com a sua vida ou morte. Xili se recusa a admitir qualquer coisa, tudo permanece um mistério. Nenhum sobrevivente entre os soldados; impossível investigar o ocorrido. Aqueles por quem você tanto se preocupa, nenhum deles realmente se importa com você.
A voz, envolta em um sussurro sombrio, fazia estremecer até o âmago.
Ele queria que ela enxergasse, que reconhecesse a verdade. Ela não era uma deusa, e sua preocupação jamais seria páreo para a crueldade da guerra.
Claro que ele não lhe revelaria que uma das razões para Dongqing não ter movido tropas era sua própria estratégia de pressão militar. Nem que, desde que ela chegara ao Sul, ele mantinha correspondência secreta com Shangguan Roushui.
Tudo estava sob seu controle.
— É mesmo? Ninguém se importa. E daí? — O desejo de rir era quase irresistível. Era até irônico, não era?
Tudo aquilo que Mu Ruoxue tanto prezava, tudo o que ocupava seus pensamentos, não passava de fantasia criada por ela mesma. No fim das contas, todos continuavam vivendo muito bem.
As lágrimas, uma a uma, caíam ao chão, desabrochando em manchas turvas.
Lágrimas eram apenas lágrimas; além de expor sua própria fraqueza, não serviam para mais nada.
— Xier, preciso de você para conquistar o mundo — murmurou Mu Qingge, envolvendo Mu Ruoxue em seus braços, acariciando seus cabelos com ternura.
Quando conquistasse o mundo, prometia-lhe um novo começo. Nunca mais deixaria que ela vivesse com tanto sofrimento.
— Conquistar o mundo é assim tão importante? — Sem nenhuma resistência, Mu Ruoxue recostou-se no peito de Mu Qingge, ouvindo o pulsar vigoroso de seu coração.
Afinal, havia mesmo um coração ali? Seria de verdade?
— É importante. Só assim haverá uma era de paz duradoura — respondeu ele em sussurro, perdido no calor do abraço.
— Ora, Vossa Alteza me superestima. Sou apenas uma mulher comum; não posso ajudá-lo em algo tão grandioso!
O objetivo de Mu Qingge era apenas o poder? Conquistar o mundo! E, para isso, já não media esforços.
— Confio no meu julgamento. — Ele sabia que ela possuía inteligência e astúcia suficientes. — O segundo pedido é que me ajude a conquistar o mundo.
Uma mulher capaz de compreender o governo, de criar um decreto para gerir as finanças do reino, jamais seria comum.
Ela tinha todos os méritos necessários para estar ao lado dele.
— Está bem, eu aceito — respondeu Mu Ruoxue, erguendo o rosto e, ao perceber o brilho suave nos olhos de Mu Qingge, afastou-se dele com firmeza. O semblante delicado tornou-se frio e implacável. — Por que Vossa Alteza precisa ser tão solícito apenas para conquistar o mundo? Mesmo sem isso, minha palavra seria cumprida.
— Você acha que é só por isso que dedico tanto a você? — Mu Qingge, que até então mantinha a calma mesmo diante de todos os mal-entendidos, sentiu o coração gelar ao ouvir Mu Ruoxue, tão impiedosa, atribuir um motivo nobre e vazio ao seu empenho. — Devo ter contraído uma dívida com você em outra vida, para nesta estar tão enredado em seus caminhos.
— O quê, Vossa Alteza só percebeu o arrependimento agora? Xuexi não passa de uma vida vil, não merece que ninguém se sacrifique por mim... — Sua voz foi se tornando cada vez mais sutil, até sumir completamente no beijo possessivo e afetuoso de Mu Qingge.
Ele a segurava com todas as forças, como se quisesse fundi-la aos próprios ossos. Sua Xiexi, sempre tão radiante quanto um girassol, não merecia tristeza nem lágrimas.
Acariciando-lhe os cabelos, Mu Qingge declarou pausadamente, com absoluta firmeza:
— Darei tudo de mim e jamais a decepcionarei.