Aqueles passados adormecidos. (Terceira parte)
— Não falemos mais sobre ela. Está tudo bem contigo? — A voz de Nalan Shuyu soava rouca, abafada pela emoção.
Essas lembranças antigas sempre sabiam como tocar o lugar mais vulnerável do coração.
— Estou bem. — Um leve sorriso surgiu nos lábios de Mu Qingge, que sabia exatamente a quem Nalan Shuyu se referia.
— Não tens curiosidade em saber como descobri que ela ainda está viva?
Mu Qingge sorriu com tranquilidade e respondeu:
— Não tenho curiosidade.
O que haveria para se admirar? Nunca pensara em esconder-lhe nada.
— Tu és sempre assim... No fim, só ela possui mérito suficiente para estar ao teu lado.
Nalan Shuyu já suspeitara desde o começo, quando soube que Mu Qingge marchava com exército às portas do reino.
— Finalmente, foste mais perspicaz do que eu desta vez — brincou Mu Qingge, com interesse.
— Dizes que sou perspicaz, mas logo volto a ser tolo... — perguntou Nalan Shuyu, meio perdido, sem saber a quem buscava certeza. — Tu a amas de verdade?
Mu Qingge sorriu, caloroso:
— Ainda agora te elogiei pela tua perspicácia, e já te embaralhaste outra vez.
Shuyu perguntou, mas ele não diria. Se fosse ela a perguntar, talvez considerasse contar-lhe.
Nalan Shuyu mergulhou em reflexão. Por um instante, como se tomasse uma grande decisão, retirou de dentro do peito um amuleto de jade esverdeado e, solenemente, disse:
— Toma isto.
Mu Qingge fitou o objeto em sua mão, demorando a reagir:
— O talismã do Dragão Celeste?
Ao entregar o talismã militar, Nalan Shuyu...
— Serás um soberano esclarecido.
Nalan Shuyu sabia que seu gesto era arriscado, mas não sentia remorso algum.
— Shuyu, sabes bem o que este talismã representa.
Mu Qingge devolveu o objeto à mão de Nalan Shuyu, apertando-lhe firmemente a palma.
— Qingge, escuta-me. Sei o que estou a fazer. Todos estes anos, deixei-me manipular, fazendo coisas contra minha vontade, e nunca fui feliz. Não nasci para ser imperador, nem desejo sê-lo. — Nalan Shuyu apertou a mão de Mu Qingge em resposta. — Ainda te recordas do sonho de que te falei?
Anos se passaram, e já bastava. Era chegada a hora de fazer algo por Qingge.
Qingge hesitou.
O sonho de Nalan Shuyu era ser um homem livre, levar a família para longe do caos do mundo, viver isolado nas montanhas. Nos momentos de ócio, cultivar flores e salgueiros, declamar poesias, tocar melodias. Nos momentos de trabalho, semear e arar, vivendo em harmonia e alegria.
— Aceita. Não estou a abandonar-te, apenas preciso que me protejas, compreendes? — Nalan Shuyu assentiu levemente para Mu Qingge, firme e resoluto.
Qingge precisava daquele talismã para proteger aqueles a quem devia proteção.
— Shuyu, obrigado... — Mu Qingge não sabia que mais dizer. Jamais pensara que Shuyu faria tal coisa por ele.
— Não preciso do teu agradecimento. Basta que me consideres um amigo leal. — Nalan Shuyu deu um tapinha no ombro de Mu Qingge, estendendo o braço e murmurando suavemente: — Qingge, nunca quis competir contigo por nada.
O sussurro suave dissipou todas as mágoas do passado.
Dois homens abraçaram-se brevemente, partilhando um calor efêmero e eterno.
Bons amigos, bons companheiros, lado a lado, na vida e na morte.