Aqueles passados adormecidos. (Terceira parte)

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 1093 palavras 2026-02-07 18:37:22

— Não falemos mais sobre ela. Está tudo bem contigo? — A voz de Nalan Shuyu soava rouca, abafada pela emoção.

Essas lembranças antigas sempre sabiam como tocar o lugar mais vulnerável do coração.

— Estou bem. — Um leve sorriso surgiu nos lábios de Mu Qingge, que sabia exatamente a quem Nalan Shuyu se referia.

— Não tens curiosidade em saber como descobri que ela ainda está viva?

Mu Qingge sorriu com tranquilidade e respondeu:

— Não tenho curiosidade.

O que haveria para se admirar? Nunca pensara em esconder-lhe nada.

— Tu és sempre assim... No fim, só ela possui mérito suficiente para estar ao teu lado.

Nalan Shuyu já suspeitara desde o começo, quando soube que Mu Qingge marchava com exército às portas do reino.

— Finalmente, foste mais perspicaz do que eu desta vez — brincou Mu Qingge, com interesse.

— Dizes que sou perspicaz, mas logo volto a ser tolo... — perguntou Nalan Shuyu, meio perdido, sem saber a quem buscava certeza. — Tu a amas de verdade?

Mu Qingge sorriu, caloroso:

— Ainda agora te elogiei pela tua perspicácia, e já te embaralhaste outra vez.

Shuyu perguntou, mas ele não diria. Se fosse ela a perguntar, talvez considerasse contar-lhe.

Nalan Shuyu mergulhou em reflexão. Por um instante, como se tomasse uma grande decisão, retirou de dentro do peito um amuleto de jade esverdeado e, solenemente, disse:

— Toma isto.

Mu Qingge fitou o objeto em sua mão, demorando a reagir:

— O talismã do Dragão Celeste?

Ao entregar o talismã militar, Nalan Shuyu...

— Serás um soberano esclarecido.

Nalan Shuyu sabia que seu gesto era arriscado, mas não sentia remorso algum.

— Shuyu, sabes bem o que este talismã representa.

Mu Qingge devolveu o objeto à mão de Nalan Shuyu, apertando-lhe firmemente a palma.

— Qingge, escuta-me. Sei o que estou a fazer. Todos estes anos, deixei-me manipular, fazendo coisas contra minha vontade, e nunca fui feliz. Não nasci para ser imperador, nem desejo sê-lo. — Nalan Shuyu apertou a mão de Mu Qingge em resposta. — Ainda te recordas do sonho de que te falei?

Anos se passaram, e já bastava. Era chegada a hora de fazer algo por Qingge.

Qingge hesitou.

O sonho de Nalan Shuyu era ser um homem livre, levar a família para longe do caos do mundo, viver isolado nas montanhas. Nos momentos de ócio, cultivar flores e salgueiros, declamar poesias, tocar melodias. Nos momentos de trabalho, semear e arar, vivendo em harmonia e alegria.

— Aceita. Não estou a abandonar-te, apenas preciso que me protejas, compreendes? — Nalan Shuyu assentiu levemente para Mu Qingge, firme e resoluto.

Qingge precisava daquele talismã para proteger aqueles a quem devia proteção.

— Shuyu, obrigado... — Mu Qingge não sabia que mais dizer. Jamais pensara que Shuyu faria tal coisa por ele.

— Não preciso do teu agradecimento. Basta que me consideres um amigo leal. — Nalan Shuyu deu um tapinha no ombro de Mu Qingge, estendendo o braço e murmurando suavemente: — Qingge, nunca quis competir contigo por nada.

O sussurro suave dissipou todas as mágoas do passado.

Dois homens abraçaram-se brevemente, partilhando um calor efêmero e eterno.

Bons amigos, bons companheiros, lado a lado, na vida e na morte.