Quantas preocupações profundas se escondem no coração. (Parte II)
No interior do Palácio das Fênix e dos Pavões, o suave aroma do incenso pairava no ar, tecendo um ambiente de serenidade e tranquilidade.
Sobre o leito, Mu Ruoxue abriu lentamente os olhos, deparando-se com a expressão de Che’er, semelhante a uma flor de pera coberta de orvalho, com lágrimas ainda pendendo no rosto.
— Senhora, finalmente despertou? Que alívio! — exclamou Che’er, visivelmente emocionada.
Mu Ruoxue ergueu as pálpebras pesadas e murmurou, num tom rouco e fraco: — Che’er...?
Sua voz antes suave estava agora áspera, os lábios rachados tingidos de sangue, e o rosto, já pálido por natureza, parecia ainda mais desbotado.
— Senhora, venha, tome este remédio. O médico disse que seu corpo está muito debilitado. Foram muitos sustos, muito sofrimento, será necessário um tempo para recuperar-se — disse Che’er, soprando cuidadosamente a tigela de remédio e alimentando Mu Ruoxue colher por colher.
Che’er observava-a atentamente; a senhora já não era robusta, mas agora estava ainda mais magra. O coração apertava-se com culpa e compaixão cada vez que pensava nisso.
Mu Ruoxue franziu as sobrancelhas, colaborando com dificuldade. O sabor do remédio era o mesmo de sempre, adocicado e enjoativo. Podia passar a vida sem prová-lo novamente e não sentiria falta.
— Che’er, por que estou em meus aposentos? — perguntou, olhando ao redor e reconhecendo objetos e móveis familiares. A confusão tomou conta de sua mente. Não deveria estar na masmorra? Como teria retornado?
— A senhora desmaiou na masmorra e ficou inconsciente por dois dias. Foi o rei quem ordenou que a trouxessem de volta. — Che’er, tomada pela tristeza, limpou delicadamente os vestígios de remédio dos lábios de Mu Ruoxue com um lenço, prosseguindo: — Foi Huan’er quem a prejudicou, em busca de vingança pela irmã.
— Huan’er? Quem é essa? — Mu Ruoxue franziu o cenho, intrigada. Quando teria feito inimigos? Nem ela própria sabia.
— Huan’er é irmã de Pei’er, aquela criada que a senhora assustou no jardim na última vez — explicou Che’er, paciente, elucidando a cadeia de relações.
— Mas eu só queria assustar a irmã dela, nada além disso. Por que tanto ódio? — perguntou Mu Ruoxue, perplexa. Naquele dia só pretendia dar um susto na jovem, nunca desejou sua morte. Por que as coisas tomaram tal rumo?
— Após o ocorrido no jardim, Pei’er passou a ser alvo de todo tipo de humilhação. Não suportando, acabou tirando a própria vida — disse Che’er, fazendo uma breve pausa antes de continuar, resignada: — O harém é assim mesmo, cheio de intrigas e indiferença.
— E onde está Huan’er agora? — O coração de Mu Ruoxue tremia, e ela apertou instintivamente o cobertor de seda.
“Eu não matei Boren, mas Boren morreu por minha causa.”
Suspiro. Que laço de desventura.
Ela queria salvar Huan’er, se ainda fosse possível.
Algumas coisas não se resolvem simplesmente com o desaparecimento de uma pessoa.
— Morreu. No terceiro dia de sua prisão, Huan’er foi enviada para servir a Senhora Qingyi no Palácio Genglu, mas logo depois foi acusada de roubar o bracelete favorito da Senhora Qingyi e, por ordem da Imperatriz Viúva, foi severamente castigada até a morte — disse Che’er, apertando a mão de Mu Ruoxue, ciente de seus pensamentos. Mas há coisas que, por mais que se queira, não se pode mudar.
— É mesmo? — Mu Ruoxue levou a mão à testa, sentindo que havia algo estranho naquela história, embora não soubesse dizer o quê. — Che’er, estou com fome. Traga-me algo para comer. — Os mistérios, com o tempo, se esclarecem.
Após a refeição, Mu Ruoxue recostou-se preguiçosamente no leito, lendo um livro. Do lado de fora do salão, ouviu-se ao longe a voz do criado anunciando:
— Sua Majestade, o Rei, está chegando.