A lendária Princesa Yao. (Parte Um)
O sol da tarde derramava-se suavemente pelo chão, enquanto a brisa leve balançava os galhos das árvores. Flores de pessegueiro e pereira, em tons delicados de rosa e branco, exalavam um aroma sutil ao sabor do vento.
À porta do Palácio da Neve Eterna, uma jovem vestida de roxo espiava, demonstrando uma atitude claramente furtiva e desconfiada.
— Ei, o que está fazendo aí parada? — Uma voz infantil, carregada de certa inocência, assustou Murroa Xue, que hesitava na entrada do palácio.
— Ah, eu... o que estou fazendo mesmo? — De fato, ela já estava ali há quase meia hora segurando uma tigela de mingau de ninho de pássaro com mel, mas ainda ponderava se deveria ou não entrar.
— Ei, volte à vida! Está me ouvindo? — A voz pueril insistiu, chamando sua atenção novamente.
— Ei, pare de ficar gritando “ei”! Que falta de educação! — Murroa Xue baixou os olhos e finalmente percebeu a pequena criada diante de si, que mal lhe alcançava o peito.
O rostinho da menina era macio e alvo, com olhos alongados em formato de fênix, vestida com um traje azul-claro de criada e os cabelos presos em dois coques adoráveis. Meu Deus, até covinhas discretas ela tinha — uma verdadeira beleza em formação. Mas... por que esse rosto parecia tão familiar?
— Olhou o suficiente? Estou falando com você! O que está fazendo plantada aí? — A pequena criada colocou as mãos na cintura, parecendo uma chaleira raivosa.
— O que... o que estou fazendo? — Murroa Xue mergulhou novamente em seus pensamentos. — A culpa é toda daquele maldito Mu Qingge, que me obrigou a ser sua criada. Não bastasse ter de servi-lo com chá e água, ainda preciso... — Quanto mais pensava, mais injustiçada se sentia. Murmurava para si mesma, indignada, quando percebeu que a criada mirava nela com grandes olhos atentos, balançando a cabeça em concordância.
— Você... você consegue ler pensamentos?
O jeito como a garota parecia compreender tudo dava a impressão de que sabia exatamente o que se passava em sua mente.
— Ora, você fala tão alto que é impossível não ouvir — respondeu a criada, balançando a cabeça com resignação e lhe lançando um olhar repleto de sarcasmo.
— Ha... ha... ha... — Que vergonha! O rosto de Murroa Xue começou a corar. Afinal, este era um dos palácios do reino de Nanchen; melhor não chamar tanta atenção. Como conseguira falar tudo aquilo em voz alta?
— Começou a rir à toa de novo? Isso é um caso perdido! — A pequena criada levou a mão à testa, como se implorasse aos céus por compaixão por seu espírito delicado.
— Ei, quem é você? — Murroa Xue percebeu que sequer sabia o nome daquela menina.
— Pare com esse “ei, ei”, tenho nome! Chamo-me Jun’er. E você? — Jun’er fez um beiço, claramente achando a mulher diante de si um tanto tola.
— Eu sou Xuexi — respondeu, omitindo sobrenome e origem, reduzindo-se a um simples nome.
— Xuexi... Xuexi... Que nome bonito. Hehe, vou entregar isso ao meu irmão por você, está bem? Sei que você está com medo, então deixo comigo. Não precisa me agradecer, basta prometer um favor no futuro. Lembre-se: agora me deve uma. — Jun’er abriu um sorriso, já pegando a bandeja das mãos de Murroa Xue antes que esta pudesse reagir.
Seus grandes olhos curiosos examinavam Murroa Xue com atenção.
Então, esta era a famosa Xueyao? A mulher que o irmão tanto se esforçara para manter ao seu lado?
Não parecia muito com os rumores... Tão delicada e frágil, tão diferente do que diziam. Quase deixara escapar algo, era melhor ser mais cautelosa da próxima vez.
Quanto a Murroa Xue, estava completamente atônita e confusa diante do ocorrido.
Seriam todos no reino de Nanchen assim? Por que todos eram tão hábeis em negociar condições?
De fato, o povo reflete o seu soberano.
Ergueu o rosto para o céu límpido e sem nuvens, e sentiu seu espírito abrandar-se pouco a pouco.
Tirou a flauta de jade da manga e começou a tocar a melodia do “Laço dos Amantes”.
Enquanto as notas suaves se espalhavam, recordou tudo o que vivera desde que atravessara o tempo até ali, e seus olhos se encheram de lágrimas.