Aquela Canção de Despedida. (Parte Um)

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 1527 palavras 2026-02-07 18:35:59

― Se ao menos tivesse existido alguém que me aquecesse o coração, talvez eu acreditasse que neste mundo existe mesmo um sentimento verdadeiro.

Ao recordar os dias vividos em Dongqing, cada momento ao lado de Che’er, o coração de Mu Ruoxue vacilava uma vez mais. Instantes de alegria se misturavam a gotas de amargura, pesando sobre ela a ponto de quase lhe faltar o ar.

Com lentidão, retirou da manga a flauta de jade verde.

Em primeiro lugar, não queria ferir Che’er. Se Mu Ruoxue realmente tivesse de morrer por causa daquilo, seria apenas obra de seu próprio destino, sem que outros pudessem ser culpados.

Em segundo lugar, diante de Mu Qingge, jamais permitiria que sua dignidade se curvasse.

— Senhora, obrigada por todo o carinho que sempre me dedicou. Che’er guardará na memória cada expressão, cada palavra sua. — O olhar de Che’er permanecia fixo em Mu Ruoxue, como se quisesse gravá-la nos ossos.

Aquele olhar, tão melancólico quanto águas outonais, agitava-se incessante dentro do peito de Mu Ruoxue.

— Che’er... — A garganta de Mu Ruoxue secou, incapaz de pronunciar sequer mais uma frase coerente.

Por que Che’er dizia tais coisas? Seria porque não tinha coragem de agir contra ela?

Mas por que, então, seu próprio coração se apertava num pressentimento inquieto?

O olhar de Che’er era de desespero e, ao mesmo tempo, de apego.

Seria possível...?

— Senhora, me perdoe. Che’er irá na frente.

Antes que a frase terminasse, a espada nas mãos de Che’er já se voltava contra o próprio pescoço.

Che’er compreendia o sofrimento de Mu Ruoxue. Desde o instante em que ela retirou a flauta de jade, sabia que sua senhora preferia morrer a feri-la.

No entanto, devia à sua senhora gratidão por tudo. Não podia ser ingrata.

Assim, seria melhor partir antes.

Era sua forma de retribuir tudo que devia à senhora e, ao mesmo tempo, fazer por ela um último favor.

— Che’er, não!

Num gesto instintivo, Mu Ruoxue lançou a flauta de jade, que caiu ao chão com um estrondo seco, junto com a espada.

Naquele instante, sentiu o sangue quase congelar.

Certas coisas não se resolvem simplesmente com o desaparecimento de alguém.

Com as mãos pressionando o peito dolorido, os dedos ficando pálidos, Mu Ruoxue reuniu as últimas forças para não desmoronar.

— Moça... moça...

Che’er ficou atônita por um momento, depois se deixou cair no chão, desabando em prantos.

— Mu Qingge, solte Che’er.

Lançando um olhar furioso a Mu Qingge, Ruoxue ergueu o queixo com orgulho.

Esse homem não teria mesmo coração?

Como podia ainda sorrir, sereno e calmo?

— E quem é você para negociar comigo? — Mu Qingge zombou.

Já era prisioneira, e mesmo assim ainda não se rendia? Interessante.

— Deixe Che’er ir. Eu ficarei.

Desde o primeiro encontro, Mu Ruoxue sentira um perigo vindo desse homem. Embora parecesse superficial, no fundo, havia nele uma calma e autoconfiança inabaláveis.

— Agora você já está em Nanchen, este é meu território. Acha mesmo que poderá escapar? — Mu Qingge abanava o leque com elegância. Nunca apostava em algo que não pudesse controlar.

— Pois bem. Não me importo de arruinar os cofres do Reino de Nanchen — retrucou Mu Ruoxue, antes de mudar de tom: — Mas um corpo vazio, sem espírito, não é o que o Senhor de Nanchen deseja, não é mesmo? — insinuando que, se ela própria não quisesse cooperar, ninguém poderia forçá-la.

Apostava que, para Mu Qingge, ela ainda tinha algum valor.

— Interessante. Então, para onde a senhora quer mandar Che’er? — Finalmente algo despertara seu interesse.

Ah, este vasto palácio já não parecia tão solitário quanto antes.

— Para a fronteira de Nanchen, junto ao General da Lua Crescente — respondeu Mu Ruoxue, franzindo levemente a testa, incomodada com o sorriso astuto dele, como se estivesse sendo manipulada.

— Ora, ora, a Rainha da Neve é mesmo implacável! Não consegue matá-la, então manda outros fazerem o serviço. A fronteira é um lugar perigoso, de onde poucos voltam vivos.

Mu Qingge nem se dava ao trabalho de disfarçar o tom alarmista.

Mas, de fato, não podia culpá-lo; era apenas curiosidade.

— Morrer ao lado de quem se ama é muito melhor que viver sozinho — murmurou Mu Ruoxue, com o olhar entristecido.

Acreditava no sentimento sincero do General da Lua Crescente por Che’er e tinha certeza de que ele daria a vida para protegê-la.

Comparado ao cativeiro num palácio profundo, voar livremente era, sem dúvida, uma bênção.

Mu Qingge ponderou por um instante, antes de responder com calma:

— Muito bem, posso concordar, mas você deverá aceitar três condições minhas em troca.