Volume Dois: A Sombra da Morte Capítulo 38: Confirmação da Invasão
Fortaleza Augusto, Grande Ilha Oriental, Base de Alerta Estratégico de Segurança Nacional da Federação.
No organograma militar da Federação, esta base tinha grande prestígio, subordinada diretamente ao Ministério da Defesa, sendo uma das poucas unidades de segundo escalão da frota da Federação. O comandante da base detinha o posto de vice-almirante, gozando do mesmo tratamento que o comandante da frota planetária de supressão.
Porém, por trás de toda essa pompa, escondia-se uma realidade embaraçosa.
Trata-se apenas de uma pequena ilha de quatro quilômetros quadrados, isolada no mar a leste do continente ocidental, a mais de cem quilômetros da costa, normalmente guarnecida por apenas uma única companhia.
Claro que o comandante da base jamais ficaria preso nesse lugar árido. Por isso, na cidade da costa leste, havia um pequeno prédio administrativo, oficialmente pertencente à base.
No entanto, os verdadeiros equipamentos de monitoramento imediato, que desempenhavam o papel de “alerta estratégico de segurança nacional”, estavam todos instalados na Grande Ilha Oriental, que encolhia para metade do seu tamanho durante a maré alta.
Com a assinatura do tratado de paz formal entre a Federação e a Ordem, esta base, que outrora desempenhou papel crucial no monitoramento dos movimentos da Ordem, transformou-se num órgão público esquecido, frequentado apenas por generais que buscavam uma última promoção antes da aposentadoria, aceitando passar três anos ali em troca de algumas estrelas douradas no ombro.
Mas esses generais confortáveis não sabiam o quão difícil era a vida para os fuzileiros que realmente serviam na Grande Ilha Oriental, nem o quão pouco confiáveis eram aqueles equipamentos de alerta estratégico que quase nunca paravam de soar.
O sargento Neill era um soldado comum destacado na pequena ilha. Após sair do campo de treinamento, sentiu orgulho ao saber que seria designado para a Base de Alerta Estratégico de Segurança Nacional, até subir na ilha e, sob o olhar zombeteiro dos veteranos desleixados, ver o avião que o trouxera se afastar, sentindo-se arrependido.
A rotina daqueles veteranos consistia em comer o que havia, dormir pouco, e quando não comiam nem dormiam, se reuniam para jogar videogame, enquanto ele permanecia vigilante diante dos equipamentos de monitoramento, cumprindo seu dever com rigor.
Logo percebeu que os dispositivos de monitoramento de longo alcance, espalhados pela extensa fronteira da Federação, quase nunca deixavam de emitir alertas. Se algum dia um sinal “altamente perigoso” cessasse por um minuto, isso sim seria um verdadeiro milagre.
No primeiro mês na ilha, Neill conseguia revisar manualmente cada alerta, mas logo percebeu que a maioria das informações eram absurdas. A partir do segundo mês, acostumou-se a cochilar em meio às luzes vermelhas piscantes e os zumbidos irritantes dos alarmes.
Afinal, se um animal selvagem atravessasse a cerca eletrônica, ou se um prisioneiro da colônia penal tentasse uma fuga, e isso resultasse numa morte aérea, enviar uma embarcação para investigar seria um custo exagerado, gerando apenas reclamações entre os soldados da linha de frente.
Todos usavam uniformes da frota e recebiam salários, por que dificultar uns aos outros?
Dois anos depois, com os veteranos aposentados ou transferidos por influência, Neill tornara-se o militar de maior patente na ilha, assumindo a postura dos antigos veteranos que ele mesmo vira anos atrás.
Mas, naquele dia, os alarmes começaram a soar com uma frequência incomum.
O sargento Neill, entretanto, não tinha tempo para se preocupar. Estava deitado na praia ensolarada, pensando em como reclamar para seus superiores na próxima avaliação, para conseguir algum subsídio extra, ou arrancar mais ajuda financeira do Ministério da Defesa após a aposentadoria.
De fato, a Grande Ilha Oriental era considerada uma unidade de linha de frente, recebendo o mesmo tratamento dos combatentes, o que era sua única vantagem.
Na avaliação do mês anterior, ele deixara boa impressão e... alguns benefícios junto ao estado-maior. A ordem de transferência estava quase pronta, e seu tempo na ilha estava próximo do fim.
Ao pensar nisso, um sorriso sutil surgiu em seus lábios, e seu ânimo melhorou.
Mas sua boa disposição foi logo interrompida por uma figura apressada.
Era um cabo chamado Alex, que, como ele no início, era o único do pelotão a monitorar atentamente cada alerta da fronteira.
Justamente por lembrar a si mesmo, Neill permitia que ele ficasse diariamente no centro de monitoramento, lendo os dados linha por linha.
— Sargento, dê uma olhada nesta informação — disse Alex, correndo até ele com uma folha eletrônica na mão.
— Já te disse, cabo Alex — respondeu Neill impaciente, acenando com a mão —, insira os dados no analisador. Se não indicar invasão em larga escala da Ordem, pode ignorar o resto.
— Sargento — insistiu o jovem —, acho que o resultado do analisador está errado.
— Se acha que sua cabeça é melhor que a da superinteligência artificial, sugiro que deixe de lado esse trabalho entediante e estude um pouco. Posso te ajudar a se inscrever no exame da Academia de Tecnologia Militar da Frota — respondeu Neill calmamente, pegando a folha eletrônica.
O relatório do analisador indicava: "Na planeta ACPM47 houve uma fuga em massa. Prisoneiros exilados tentaram deixar a superfície, detectados 179 vezes pela rede de monitoramento, com 36 ataques letais desencadeados."
— Isso é só uma fuga, não? Detectada 179 vezes, atacada 36. Nesse tipo de lugar, acho que não sobrou nada daqueles caras — comentou Neill.
— Mas veja o alerta de hoje, um dia depois — Alex clicou na folha eletrônica, exibindo outro relatório:
— "Alerta máximo! Plataformas de defesa orbital do planeta ACPM47 perderam contato irregularmente."
Esses alertas e análises, misturados a uma enxurrada de informações inúteis, eram enviados para a base na Grande Ilha Oriental. Sem alguém como Alex para examiná-los minuciosamente, os problemas poderiam ser esquecidos no vasto mar de dados diários.
— Fuga bem-sucedida? Esses caras conseguiram romper a rede de defesa orbital? — Neill não demonstrava grande preocupação enquanto discava o telefone para o contato de segurança da guarnição de Osmar.
— O que houve? — um oficial de estado-maior apareceu no visor holográfico, parecendo ainda meio sonolento, era madrugada no local — Não me diga que outro meteoro danificou os sensores ou que contrabandistas cruzaram a fronteira.
— Temos um problema — Neill relaxou ao ver um conhecido — Peça para que enviem navios de reconhecimento perto do planeta ACPM47. Suspeito de uma fuga em massa.
O oficial olhou para a xícara vazia sobre a mesa e a jogou de lado:
— Planeta 47? Certo, entendi. Amanhã cedo envio duas naves de reconhecimento. Mais alguma coisa?
Pendurando o telefone, Neill lançou um olhar hesitante para Alex.
— Isso não pode ficar assim — murmurou para si mesmo e para Alex —, preciso informar o comandante.