Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo 47: Encontro de Reis

Portador da Morte Normas 3686 palavras 2026-02-09 16:57:06

Han Jianfei seguiu o som da voz e avistou Zhai Liu.

Ele não se surpreendeu; Zhai Liu era o principal gestor da empresa na Fortaleza Augusto, por isso era natural que viesse recebê-lo pessoalmente.

Ao ver Han Jianfei entrar no elevador, Zhai Liu levantou-se e cumprimentou-o respeitosamente.

Han Jianfei acenou com a cabeça e sentou-se na cadeira ao lado dele, convidando-o a sentar-se com um gesto casual.

Motoko Minamoto também se aproximou e sentou-se ao lado de Han Jianfei.

Os funcionários da Companhia Baishan, ocupados com suas tarefas, não acharam nada estranho.

— Este é Zhai Liu, apelidado de Velho Seis, meu auxiliar mais eficiente e camarada mais próximo de outros tempos — disse Han Jianfei à jovem ao seu lado.

Durante a longa viagem de Haishan a Xinluosong, e de Xinluosong até a Fortaleza Augusto, ela já ouvira Han Jianfei contar sobre as desavenças entre eles.

Ao ouvir o nome de Zhai Liu, ela se pôs de pé instintivamente, a mão direita no cabo da espada, pronta para sacar a qualquer momento.

Ouvindo o barulho, alguns funcionários olharam intrigados.

Han Jianfei segurou o cabo da espada de Motoko, sinalizando para ela se sentar.

Em seguida, sorriu para Zhai Liu:

— Esta é Motoko Minamoto. Nestes tempos, devo muito aos cuidados dela.

Zhai Liu assentiu:

— Agradeço à senhorita Motoko.

Ela olhou curiosa para os dois homens à sua frente, pensando consigo mesma: Não eram inimigos mortais?

Como se tivesse percebido sua dúvida, Han Jianfei sorriu:

— Na Companhia Baishan, não importa o que aconteça nos bastidores; em público, seguimos as regras.

Zhai Liu não respondeu.

O elevador tremeu levemente, concluiu a verificação de segurança e começou a descer.

A órbita geoestacionária fica a quase quarenta mil quilômetros do solo, conectada à base terrestre do porto estelar e ao terminal orbital por dezenas de fibras supernanométricas de cerca de cinco centímetros de diâmetro.

Da órbita até o terminal terrestre, a viagem leva cerca de seis ou sete horas. O amplo elevador começa com grande aceleração em queda livre, só reduzindo a velocidade ao entrar na atmosfera, até pousar suavemente.

Han Jianfei permaneceu de olhos fechados, em repouso, com Zhai Liu ao lado, calado.

Passados mais de dez minutos, Han Jianfei abriu os olhos:

— Velho Seis, como está a empresa ultimamente?

Zhai Liu balançou a cabeça:

— O senhor sabe, nossa receita depende quase toda de combates, mas ultimamente pouco temos lutado. Restam apenas trabalhos de segurança interna, escoltas de rotas, treinamento de recrutas e comandantes de base para a Aliança. Não é muito lucrativo.

Han Jianfei assentiu:

— Trabalho demais também não é bom.

Zhai Liu prosseguiu:

— Mas recentemente pegamos alguns serviços antiterrorismo, com algum sucesso.

Han Jianfei abriu os olhos para fitá-lo.

Zhai Liu continuou:

— No ano passado, houve um grave ataque terrorista na Praça do Monumento à Paz, na zona administrativa central. De lá para cá, caçamos os terroristas, e só no mês passado é que tivemos algum êxito.

Han Jianfei fechou os olhos novamente, murmurando um leve “hm”.

— Mas não foi exatamente um sucesso — disse Zhai Liu —. Destruímos um ninho subterrâneo dos terroristas, mas a mulher chamada Mamba Negra escapou.

Falou com certa indiferença; Han Jianfei permaneceu impassível, mas até Motoko, inexperiente, percebeu a tensão nas entrelinhas.

— Não a capturaram? — perguntou Han Jianfei, demonstrando surpresa.

Zhai Liu, atento a cada gesto dele, arqueou as sobrancelhas, mas respondeu:

— Não, ela fugiu. Nossos homens a seguiram, mas Mamba Negra saltou para uma gruta e não se sabe se está viva ou morta.

Han Jianfei soltou outro leve “hm”.

— Ainda estamos procurando — continuou Zhai Liu —. Já aconteceu antes: durante a captura de outro terrorista, pensávamos que ele estava morto, mas recebemos notícias recentes de que ainda está vivo.

— Entendo. — Han Jianfei parecia distraído, evitando comentar.

— Naquela luta, perdemos seis irmãos — prosseguiu o jovem adjunto —. Quatro ficaram feridos.

— Cuidem bem deles — suspirou Han Jianfei, calando-se em seguida.

Zhai Liu fitou-o silenciosamente, como se tentasse enxergá-lo por dentro, até os ossos.

Han Jianfei sabia bem qual era a questão que mais inquietava Zhai Liu: como ele sobreviveu ao aterrador bombardeio da artilharia principal? Se Han Jianfei fosse mesmo imortal, como poderiam assumir o controle total da Baishan?

Assim como agora: bastava ele sair da Fortaleza Augusto e aparecer em público, enviar um único comunicado, que toda a Baishan ainda obedeceria à sua vontade.

Ambos, contudo, mantinham uma tácita cumplicidade. Em público, ninguém rompia o véu de civilidade.

Mesmo que sob essa superfície se escondessem feridas purulentas, ninguém queria ser o primeiro a rasgá-la.

O elevador descia veloz no silêncio, mas o sistema de simulação gravitacional funcionava perfeitamente, de modo que os ocupantes não sentiam mudanças na aceleração.

— Irmão Fei, qual o motivo da sua vinda? — Uma hora depois, Zhai Liu quebrou o silêncio.

— Já ouviu falar do que ocorreu em Xinluosong?

— Sim — respondeu Zhai Liu, com um aceno.

— Felizmente, as linhas de comunicação com a Aliança ainda não foram cortadas. Vim tratar disso. Seja guerra, seja paz, a Baishan não tem como se manter à margem.

Zhai Liu sabia bem: depois de um cisma tão grave, os oficiais da Aliança, do primeiro-ministro Hanwei ao chefe do Estado-Maior da frota, analisariam todos os ângulos. Mas, seja qual for o ponto de partida, as opiniões do fundador da Baishan e de sua equipe de análise sempre pesariam nas decisões.

Ainda assim, achava irônico. Todos sabiam, do primeiro ao último escalão, que Han Jianfei fora o causador do incidente em Xinluosong e, mesmo assim, convidavam-no formalmente para decidir sobre o próprio destino.

Tal era a política da Aliança: um jogo de lama e interesses, que só termina quando todas as cartas estão na mesa.

Zhai Liu não era um bom jogador nesse tabuleiro. Han Jianfei, sim, sempre decidira, e ele apenas executava.

Mas, depois de se aliar a Chen Mingyuan, Zhai Liu percebeu que, apesar de o refinado chefe da frota ser mais decisivo e impiedoso, e mais apto à liderança, não era alguém a quem se pudesse confiar cem por cento.

— Quer lutar ou negociar? — Zhai Liu perguntou, finalmente expondo sua maior dúvida.

— Essa é também a questão que mais interessa aos grandes da Aliança, não? — Han Jianfei devolveu.

— E à qual todos os guerreiros da Baishan anseiam por resposta. — O jovem adjunto, já sabendo o que ouviria, não conteve a emoção.

De qualquer forma, a resposta de Han Jianfei decidiria o futuro da Baishan.

— Ainda não decidi — respondeu, afinal —. Não tenho muitas opções; preciso ver o que pensa o almirante Chen.

A conversa perdeu o sentido e ambos, em sintonia, calaram-se.

O elevador sacudiu de repente, começando a tremer levemente.

— Estamos entrando na atmosfera, é normal — tranquilizou Han Jianfei, ao notar a inquietação de Motoko. — Não se preocupe, tome dois comprimidos.

Ela balançou a cabeça e cobriu a boca com a mão.

Mas o enjoo e o vômito esperados não vieram. Quando as tremores cessaram, o elevador voltou a ficar estável.

Após mais algumas quedas suaves, a cabine desceu lentamente até o terminal terrestre do Segundo Porto Estelar.

O Segundo Porto Estelar ficava sobre o equador da Fortaleza Augusto, circundado por uma estepe árida.

Ao saírem juntos do elevador, já encontraram um avião militar à espera na área de transferências.

Segundo o plano, a aeronave levaria Han Jianfei, Zhai Liu e quatro analistas da Baishan diretamente ao edifício do Ministério da Defesa da Aliança, na zona administrativa central.

Assim que Han Jianfei entrou no avião, reconheceu de imediato duas figuras familiares e ao mesmo tempo distantes.

Uma estava sentada, a outra de pé, ambas de costas para a entrada.

O que estava de pé era um oficial de patente intermediária: William Gladstone, com quem já duelara na plataforma da prisão Moshé.

O sentado ocupava o sofá do salão de reuniões, de costas para a porta, o cabelo negro impecável e o uniforme meticulosamente alinhado.

Não eram íntimos, mas Han Jianfei já o encontrara algumas vezes e guardava uma forte impressão.

Sorrindo, Han Jianfei sentou-se diante dele.

Para Han Jianfei, sempre existiam pessoas no mundo que, mesmo não sendo más, lhe despertavam uma antipatia visceral.

Naturalmente, a antipatia era recíproca, como se os campos de energia simplesmente não combinassem.

Após a entrada dos três no salão, o comissário de bordo saiu e fechou a porta.

— Não esperava que o próprio almirante Chen viesse buscar-me. Uma honra — disse Han Jianfei, inclinando-se levemente.

O homem sentado na cabine era Chen Mingyuan, chefe do Estado-Maior da Frota da Aliança, membro do Conselho Militar e responsável pelo atentado na Praça do Monumento à Paz.

Não era de se estranhar que o sempre indomável coronel Gladstone se comportasse ali como um aluno exemplar.

Han Jianfei surpreendeu-se; imaginava que Chen Mingyuan só apareceria no último ato, como um verdadeiro chefe final, para complicar tudo. Nunca pensara que ele surgiria ali, tão diretamente.

Como se diz, reis não se encontram.

O oficial superior, de aparência um tanto frágil, levantou o olhar para Han Jianfei, depois lançou um breve olhar à jovem ao lado dele, e então falou:

— Aqui, ninguém ouvirá o que dissermos. Não precisa de tantas formalidades.

Han Jianfei olhou para Motoko e apresentou:

— Este é Chen Mingyuan, e ao lado dele, o as da aviação da Aliança, coronel Gladstone.

A jovem de Haishan, já acostumada a dialogar com inimigos cara a cara, apenas murmurou um “hm”.

— Veio da Zona de Proteção ao Desenvolvimento Civilizado? — indagou Chen Mingyuan casualmente.

— Sim.

Chen Mingyuan assentiu e foi direto ao ponto:

— Senhor Han, tenho três perguntas para lhe fazer.

— Não esconderei nada — disse Han Jianfei, gesticulando para que ele prosseguisse. — Também tenho três perguntas para você. Que tal alternarmos?

— Primeiro: você estaria disposto a cooperar comigo para remodelar esta Aliança?

Nenhum dos dois era o mais poderoso da Aliança, mas debatiam questões capazes de decidir o destino do regime.

Han Jianfei balançou a cabeça:

— Temos objetivos parecidos, mas o seu caminho não é viável. Se fosse, civilizações anteriores não teriam perecido.

— Entendo.

— Agora é minha vez — Han Jianfei esfregou as mãos, quase como uma criança: — Você tem algum distúrbio mental?