Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo Três: Amor, Morte e Robôs

Portador da Morte Normas 5406 palavras 2026-02-09 16:50:39

Como planeta principal e capital da Aliança, a Fortaleza de Augusto era uma megacidade que cobria todo o planeta, abrigando mais de dez bilhões de habitantes.

A Aliança construiu sete portos estelares ao longo do equador da Fortaleza de Augusto, cada um equipado com um gigantesco elevador espacial capaz de erguer plataformas imensas da superfície até estações na órbita síncrona.

Segundo o plano de Han Jianfei, ele deliberadamente deixaria que o homem de óculos tumultuasse a situação, enquanto aguardaria tranquilamente em seu reino subterrâneo por algum tempo antes de partir de um dos portos estelares.

O chamado Quarto Porto Estelar não passava de um alvo fictício para enganar seus inimigos.

Enquanto Zhao Xiaonan dormia, Han Jianfei já havia realizado um exame minucioso em seu corpo, garantindo que nada tivesse sido implantado nela.

Parece que os inimigos não escolheram essa abordagem tão óbvia; o corpo da garota estava limpo.

Zhao Xiaonan abriu os olhos e viu Han Jianfei arrumando a mochila.

“Vamos sair já?” perguntou ela.

Han Jianfei assentiu e lhe atirou uma submetralhadora compacta.

“Sabe usar?”

Zhao Xiaonan assentiu, retirou o carregador e conferiu: estava carregado com projéteis cinéticos.

“Se houver combate, não queira morrer; venha comigo. Se conseguir sair viva deste planeta, darei uma resposta sobre o caso de Vila Huangyang.”

Dito isso, ele saiu pela porta.

Meia hora depois, com um estrondo, o topo do duto onde ficava o refúgio desabou subitamente. Uma equipe de soldados especiais armados saltou para o corredor e arrombou a porta do abrigo.

Com alguns estalos, fogos festivos estouraram sucessivamente no interior e no corredor, espalhando fitas coloridas sobre os soldados, como uma zombaria cruel.

No monitor holográfico do abrigo, apareciam letras grandes: “Este é o primeiro aviso.”

O capitão dos soldados, de cara fechada, ergueu o comunicador em seu pulso: “O alvo escapou. Solicito autorização para prosseguir a perseguição.”

“Voltem, não passem vergonha,” respondeu uma voz firme no comunicador. “Aquele labirinto de dutos é complexo demais, vocês não têm chance.”

No momento em que os fogos explodiram no abrigo, Han Jianfei olhou para o relógio enquanto estava sobre a moto.

Ao longo dos anos, ele memorizara a rede de dutos subterrâneos do planeta, de modo que, mesmo que tudo ao redor parecesse igual, ele sempre soube onde estava.

Ao passar pelo distrito Norte de Hols, Han Jianfei parou e buscou um túnel ascendente.

“Este leva ao metrô número 49 do Norte de Hols,” disse ele a Zhao Xiaonan, que vinha logo atrás. “Sairemos por aqui.”

“Não vamos ao Quarto Porto Estelar?” Zhao Xiaonan perguntou, confusa.

“Aquilo era só para enganar os idiotas,” Han Jianfei sorriu.

Zhao Xiaonan percebeu que ela própria era uma das tais idiotas.

Han Jianfei escondeu a moto, virou-se e disse: “Acho que você precisa de um disfarce.”

Zhao Xiaonan ficou surpresa.

Como num passe de mágica, Han Jianfei tirou um colar punk de couro preto, prendeu no pescoço dela e, com o polegar, passou um pouco de fuligem da parede do duto nas pálpebras da garota, conferindo-lhe o visual de uma punk de maquiagem esfumaçada.

Ao terminar, recuou um passo, satisfeito.

“Agora está parecida,” comentou, lembrando do filme sobre o assassino e a garotinha.

“Parecida com o quê?”

“Nada.”

No litoral sul do Norte de Hols, havia um apartamento com vista para o mar.

Como de costume, após o almoço, Mavis Seldon serviu-se de um chá vermelho, sem açúcar, e sentou-se à janela para ler um romance clássico, um verdadeiro livro de papel.

A luz do sol atravessava seus cabelos dourados, projetando sombras que se misturavam com os padrões da cortina, como uma tela abstrata.

Por algum motivo, lia distraída; muito tempo se passara sem virar a página.

Seu gato miou preguiçosamente, saltou do armário e deitou-se nas páginas aquecidas pelo sol sobre o colo da dona.

Mavis não o afugentou, apenas acariciou, distraída, o pelo macio do animal.

Embora não gostasse de internet nem de notícias, o acontecimento do dia anterior era tão grande que toda a Fortaleza de Augusto comentava.

A imagem divulgada nas notícias era turva, mas ela reconheceu de imediato o homem.

E aquela jovem bela da resistência? Seria ela a mulher dele agora?

Insatisfeito com os carinhos, o gato miou e mudou de posição.

Ele fora camarada de seu irmão, e foi quem a trouxera para ali após a morte do irmão, dando-lhe uma nova identidade e vida.

Apesar de raramente se verem, Mavis jamais se opôs a ser a mulher dele; bastava que ele quisesse, mesmo que fosse apenas mais uma.

Mas ele nunca pediu, apenas aparecia de vez em quando para vê-la.

O irmão deixara uma grande quantia de dinheiro, e agora ela vivia dos juros, envolvida em caridade pela comunidade. Sabia que tanto o irmão quanto aquele homem lidavam com assuntos obscuros, e só queria, discretamente, redimir os dois.

A porta se abriu de repente, Mavis suspirou.

Fechou o livro e viu o homem, acompanhado de uma jovem de maquiagem carregada.

As notícias diziam que ela se chamava “Mamba Negra”, uma cobra venenosa e bela.

“Não está feliz em me ver?” Han Jianfei sorriu. “Por que suspirou?”

“Sempre foi bem-vindo,” respondeu Mavis, pondo o gato no chão, “mas hoje, não.”

Han Jianfei franziu o cenho.

“Esta é a senhorita Mamba Negra?” Mavis sorriu. “É muito bonita.”

Zhao Xiaonan, diante daquela mulher tão bela que a elogiava, sentiu-se inferior.

Homens como ele, pensou, mesmo que sejam vilões, só deveriam estar ao lado de mulheres elegantes assim.

“Aquele codinome bobo foi dado pelos homens de Chen Mingyuan,” disse Han Jianfei, olhando de uma mulher à outra. “Ela é só uma garota ingênua, trazida aqui para me armar uma cilada.”

“O que veio fazer?” Mavis desviou o assunto. “Devia estar escondido.”

“Vim buscar o ‘Ferro Gélido’,” Han Jianfei abaixou a cabeça. “Desculpe, posso acabar te envolvendo.”

“Não importa,” ela sorriu. “Estou aqui por causa disso, não estou?”

Han Jianfei abaixou a cabeça: “Desculpe, Mavis.”

Ela se levantou, abriu o livro clássico, cujo interior fora escavado formando um nicho retangular, onde repousava uma caixa de anel.

Mavis abriu a caixa e tirou um anel masculino.

“Posso... colocar para você?” perguntou, fitando-o com serenidade.

Zhao Xiaonan observava silenciosamente aquela mulher maravilhosa, sem sentir inveja ou ciúme.

“Vou embora,” disse Han Jianfei. “Talvez demore muito para voltar, ou talvez eu não volte. Cuide-se.”

Ele estendeu a mão, e Mavis sorriu ao colocar o anel em seu dedo médio da mão esquerda.

Han Jianfei moveu a mão; o gel medicinal já havia restituído boa parte da funcionalidade do braço.

“Ficou lindo,” elogiou sinceramente a mulher de cabelos dourados.

“Já está na hora,” Han Jianfei suspirou. “Eles devem estar chegando.”

“O que tem de vir, virá; o que tem de ir, que vá logo,” respondeu Mavis.

“Se eu for, o que será de você?”

“Por que não me leva junto?” Mavis o encarou com um sorriso enigmático.

Han Jianfei engoliu em seco.

“Deixe para lá,” Mavis fez um gesto. “Algumas mulheres são assim: mesmo sabendo que não são amadas, não resistem a fazer algo pelo homem que amam.”

No céu, trilhas retas começavam a surgir: eram rastros de cápsulas lançadas em queda livre da órbita baixa.

Esse era agora o método mais veloz de envio de tropas da frota da Aliança, capaz de lançar um pelotão de fuzileiros navais em qualquer ponto do planeta em poucos minutos.

Originalmente, essa era a tática de ataque relâmpago preferida pela Companhia Baishan, mas agora era usada contra o próprio criador.

Em menos de três minutos, eles estariam reunidos nas proximidades.

Não havia mais tempo para explicações. Han Jianfei assentiu: “Cuide-se.”

Ele e Zhao Xiaonan deixaram a praia, dirigindo-se à floresta ao norte.

Uma cápsula flamejante pousou à beira da floresta; de dentro, um robô de combate quadrúpede rolou para fora e logo mirou nos dois fugitivos.

Os inimigos sabiam que Han Jianfei carregava um gerador de escudo cinético portátil, por isso os robôs estavam armados apenas com armas de laser e de plasma.

O robô já localizara os dois, confirmando-os como alvos prioritários, e eles ainda não o tinham notado.

De repente, uma esfera azulada disparou do telhado da casa à beira-mar, acertando o robô em cheio. O plasma explodiu ao contato, e o calor e a eletricidade derreteram o robô em sucata.

Ao ouvir os tiros e a explosão, Han Jianfei olhou para trás e viu Mavis no telhado, empunhando um rifle pesado.

Desde que soube das atividades daquele homem, Mavis sabia que cedo ou tarde enfrentaria seu destino.

Talvez ele nunca soubesse quanto tempo ela já se preparava para aquele dia.

Eu te amo, você não me ama, isso não importa.

Eu te amo; que diferença faz para você?

Mais cápsulas carregando robôs caíam como granizo sobre a praia. Mavis mudava de posição sem parar, destruindo sempre o robô mais próximo de Han Jianfei a cada disparo.

Se algum escapava, Han Jianfei e Zhao Xiaonan tratavam rapidamente.

Com apenas armas de laser, os robôs não tinham como neutralizar a atiradora dentro da casa; só conseguiam suprimir seu ritmo de disparo, tentando se aproximar e pedindo reforço.

Todos, robôs e seus comandantes à distância, sabiam que, sem eliminar aquele foco de resistência, mais uma vez veriam o alvo escapar diante de seus olhos.

Han Jianfei e Zhao Xiaonan atravessaram a floresta e chegaram à periferia da cidade, encontrando a entrada da rede subterrânea. Uma vez dentro, os robôs quadrúpedes jamais os alcançariam.

Nesse momento, uma armadura exoesquelética, sem cápsula lançadora, despencou dos céus e aterrissou a poucos metros à frente dos dois.

Han Jianfei deteve-se e encarou a armadura; de dentro, o outro o observava em silêncio.

Ele reconheceu a armadura — pertencia a um velho conhecido.

“Oz,” Han Jianfei rompeu o silêncio, “quanto tempo.”

Oz Monroe, capitão do Décimo Nono Esquadrão da Baishan.

O chamado “Esquadrão dos Demônios Paraquedistas” era a única tropa de ataque aerotransportada da companhia, e também a que apresentava a maior taxa de mortalidade. Ao ver as cápsulas caindo, Han Jianfei entendeu o uso daquela tática.

“Irmão Fei.” A voz de Oz soou metálica de dentro da armadura.

“Por que você?” Han Jianfei demonstrou surpresa e confusão.

“…As ordens que recebi eram essas,” respondeu Oz. “Executar sem questionar: essa é a regra de ferro que o senhor mesmo criou.”

“É verdade,” Han Jianfei assentiu. “Você está indo bem — qual é a missão?”

“Controlar ou prender o senhor. Se recusar, autorização para eliminar no local.” A voz de Oz era inexpressiva.

“Então cumpra a missão.” Han Jianfei largou a arma e sacou uma adaga vibratória.

“Sim, irmão Fei,” disse Oz. “Se o senhor morrer, sacrifico a minha vida em sua homenagem.”

Mas missão é missão.

Han Jianfei apontou para Zhao Xiaonan: “Não precisa, leve-a de volta para Lago Yu.”

“Certo,” respondeu Oz.

O uso de “certo” e não “sim” revelava um compromisso pessoal, não uma ordem.

Han Jianfei não tinha total confiança em derrotar, desarmado, o próprio capitão do esquadrão que ele mesmo treinara.

Oz não o traiu; só cumpria a regra de ferro da companhia.

Era a melhor notícia em dias.

Com as explosões e tiroteios ao fundo, aquele espaço pareceu subitamente apartado do resto do mundo. Dois antigos camaradas, agora prestes a lutar até a morte.

Empunhando a lâmina curta em posição invertida, Han Jianfei avançou contra a armadura de Oz.

Oz recuou um passo, desviando da lâmina que visava o tornozelo da armadura.

Àquela distância, armas de fogo eram desnecessárias: do braço da armadura de Oz saltaram duas lâminas enormes, cujas lâminas expeliam plasma em alta temperatura, tingindo-as de azul brilhante.

A arma de Han Jianfei pouco podia contra aquela couraça; só restava o combate corpo a corpo, especialidade de Oz e de sua armadura.

No primeiro contato, trocaram golpes. Mas Han Jianfei sofreu ferimentos muito mais graves do que infligiu à armadura.

Chamadas de lâminas de punho, eram projetadas para o tamanho da armadura: um metro de plasma podia matar com o menor contato.

Após o terceiro choque, Han Jianfei foi forçado a esquivar-se, desviando das lâminas de Oz.

Oz era um veterano astuto, sabia que bastava se defender: Han Jianfei se cansaria com o tempo.

As explosões se aproximavam, e os tiros de Mavis rareavam; ela logo não resistiria mais.

Se a situação continuasse, em menos de dois minutos, ou Han Jianfei cairia de exaustão, ou os robôs romperiam a linha de defesa de Mavis e Zhao Xiaonan, e o fim estaria selado.

Han Jianfei não aceitava esse desfecho.

Assim, quando Oz desferiu um golpe devastador, Han Jianfei, em vez de desviar, ergueu o punho esquerdo para receber a lâmina.

Oz se surpreendeu, mas não interrompeu o ataque.

No punho esquerdo estava o anel, o “Ferro Gélido”.

A lâmina azulada parou contra o anel.

Na verdade, não exatamente parou: era uma sensação que nenhum observador poderia explicar. Para Oz, sua lâmina continuava descendo; para os outros, estava suspensa a centímetros do anel.

Só Han Jianfei sabia: aquele anel continha um espaço dobrado de dezenas de quilômetros de diâmetro.

Era uma tecnologia muito além da civilização humana atual, um legado dos antigos, como os portais espalhados pelo setor estelar.

Com a mão direita, Han Jianfei lançou sua adaga vibratória, presa a um fio metálico nanométrico, enrolando-a no braço esquerdo da armadura de Oz.

O fio se tensionou e a couraça, que parecia invulnerável, foi cortada como tofu.

Oz quis recolher a lâmina direita, mas era tarde demais.

A adaga de Han Jianfei partiu de novo, enrolando o fio nas pernas da armadura.

“Você perdeu,” declarou Han Jianfei.

“Sim,” Oz recolheu as lâminas. “Falha na missão. Executando protocolo de confidencialidade.”

Sem hesitar, cravou a lâmina azul diretamente no peito da cabine.

Antes que Han Jianfei pudesse impedir, a lâmina atravessou Oz Monroe, matando-o na própria cabine.

Ao mesmo tempo, um míssil atingiu a casa à beira-mar, reduzindo-a a escombros numa explosão violenta.

A onda de choque passou rente aos dois.

Han Jianfei olhou para trás, vendo o fogo e a fumaça intensa sobre a praia distante.

“Vamos,” disse ele a Zhao Xiaonan, após breve silêncio.