Volume I: Destruição e Renascimento Prólogo A Chuva da Morte

Portador da Morte Normas 3154 palavras 2026-02-09 16:50:24

— Se você quer fazer isso, — soou uma voz grave no comunicador —, precisa me dar um motivo.

Han Jianfei fitava o vilarejo no vale, construído a partir dos destroços de uma nave de colonização, com o cigarro pendendo dos lábios, imerso em pensamentos.

— Não é uma epidemia, nem uma ação dos Rebeldes Livres — afirmou. — Sei que talvez não acredite em mim, mas de fato vi aquele futuro aterrador.

— São mais de cinco mil vidas — replicou a voz —, tem noção do que isso significa?

— Estou disposto a assumir essa responsabilidade histórica — disse Han Jianfei, largando o cigarro.

De repente, tudo escureceu diante de seus olhos, e ele voltou a ser atormentado pelaquelas visões que o perseguiam dia e noite desde que recebera o anel — já era impossível contar quantas vezes isso acontecera.

Levantou o rosto e viu nuvens negras cobrindo o céu.

Estava numa vasta planície; a terra sob seus pés tremia como uma fera apavorada.

O tremor se aproximava, tornando-se contínuo, como milhares de pessoas batendo tambores pesados ao mesmo tempo, ou como trovões abafados rolando sob a terra.

Era o som de milhões de passos, misturados.

Virou-se abruptamente e viu uma multidão sem fim avançando como o mar, e ele, ali, parecia um rochedo solitário em meio à maré humana.

Não, não era uma multidão; eram legiões de mortos-vivos, homens, mulheres, crianças e velhos, todos dotados de força e velocidade sobre-humanas, empunhando armas diversas, os rostos cinzentos e impassíveis, apenas correndo, atirando, avançando.

Não havia outro som além do retumbar dos passos; eles o contornavam, atravessavam-no, pisoteavam-no, lançando-se loucamente rumo à distante cidade.

Do limite urbano soaram canhões; explosões caíam sobre aquela massa, florescendo em mortíferas e brilhantes explosões, despedaçando membros e corpos.

Uma mão decepada caiu diante dele.

Aquela mão, arrancada pelo bombardeio, cintilava com o brilho cinzento e negro típico do silício puro, dura como mármore.

Após o bombardeio, vieram os tiros; caças cruzavam o céu sobre a multidão, tanques abriam fogo nas margens da cidade, incontáveis balas cortavam o ar, atingindo peles cinzentas e endurecidas, ricocheteando como se batessem em mármore, lançando estilhaços e ecos secos.

Aquilo não era uma multidão, era uma legião de estátuas vivas, tão realistas quanto aterrorizantes.

Atrás do exército de estátuas, mais máquinas de guerra de aço avançavam, atacando a cidade incansavelmente, protegidas pelo sacrifício das estátuas, tanto pelo solo quanto pelo ar...

Era um exército, uma tropa que não temia a morte, que jamais cessava o ataque.

Han Jianfei permanecia imóvel, incapaz de reagir.

Tanques e armaduras mecanizadas esmagavam a terra onde ele estava, deixando atrás de si apenas marcas largas de esteira e restos de lagartos esmagados.

Diante da esmagadora superioridade numérica e dos ataques suicidas, a cidade não resistiu ao assalto insano.

Ele apenas assistiu, impotente, à enxurrada de estátuas de mármore e máquinas de guerra rompendo as defesas, invadindo a cidade, dilacerando cada sobrevivente pelo caminho, com armas automáticas, facas, mãos e dentes.

Até que tudo se acalmou.

Nuvens baixaram, e a chuva começou de repente a cair do céu.

Ping.

Uma gota de chuva caiu no rosto de Han Jianfei.

Ping, ping...

Logo, um dilúvio desabou.

— Você aguenta arcar com isso? — a voz no comunicador o arrancou da visão.

— Eu aguento... — murmurou Han Jianfei. — Vi aquele apocalipse: vivos e mortos se tornando inimigos, sem fim...

Achara que seria uma missão fácil, mas naquele vilarejo erguido sobre a carcaça da nave, quando os monstros silicificados surgiram, perdeu quase todos os companheiros mais próximos; só ele e Zhai Liu sobreviveram.

— Jianfei! — ao seu lado, Zhai Liu bateu de leve em seu rosto. — Acorda!

Num instante, foi como se tivesse passado dezenas de horas naquela visão.

O olhar de Han Jianfei voltou a se iluminar; ele falou ao comunicador com firmeza renovada:

— Estou disposto a assumir a responsabilidade histórica. Acredite em mim, é preciso fazer isso.

Outra voz soou pelo comunicador:

— Aqui é Chen Mingyuan, comandante da frota. Concordo com a sugestão da equipe de infiltração terrestre. A frota está pronta para agir.

Houve um longo silêncio, até que a voz inicial respondeu:

— Está bem.

Minutos depois, relâmpagos começaram a riscar o céu — era o feixe eletrônico ionizando a atmosfera ao redor.

No ar carregado, o vapor de água formou nuvens negras que se aglomeravam rapidamente, idênticas às das visões.

Han Jianfei e Zhai Liu começaram a se afastar. Ninguém queria permanecer próximo daquele lugar chamado Vila Huangyang diante do que estava por vir.

Um clarão extremo, com uma longa cauda luminosa, desceu do céu e atingiu o centro da vila, o que antes fora a nave de colonização.

Logo veio o segundo, o terceiro, o quarto... Sessenta ao todo, sem pausa, atingindo a vila chamada Huangyang.

Essas esferas de luz, com quase um quilômetro de diâmetro, eram massas de íons de hidrogênio lançadas pelos canhões das destruidoras de classe "Aniquilador", com milhões de graus de temperatura, capazes de vaporizar instantaneamente tudo o que tocassem.

Quando o primeiro disparo atingiu o centro da vila, o destino daquele lugar e de seus mais de cinco mil habitantes estava selado.

A maioria seria vaporizada no impacto inicial — estes eram os afortunados, pois partiram sem dor.

Nas áreas não atingidas diretamente, outros morreriam queimados pelo ar incandescente, um fim lento e doloroso, pior que qualquer descrição de inferno.

Mas o sofrimento duraria pouco, pois em apenas um minuto, doze naves da Aliança em órbita baixa dispararam sessenta salvas sobre a vila de menos de dez quilômetros quadrados.

O objetivo daquela devastação absoluta era um só: reduzir toda a vila a nada, sem deixar sequer fragmentos.

O bombardeio durou apenas um minuto, mas para os dois que fugiam nos arredores, pareceu um século.

Quando terminou, nenhuma vida poderia restar ali.

Exaustos, Han Jianfei e Zhai Liu tombaram no chão, ofegantes, respirando o ar rarefeito com avidez.

De repente, como nas visões, a chuva começou a cair das nuvens.

Uma gota, duas...

Logo, um aguaceiro desabou.

Cinco anos depois, na capital da Aliança, Fort Augustus, num discreto cemitério público.

Han Jianfei caminhava lentamente entre uma fileira de lápides num canto pouco notado.

— Nestes anos, há algo que sempre quis te perguntar — disse atrás dele um homem em uniforme de oficial sênior da Frota da Aliança —: O que você trouxe de Huangyang?

Han Jianfei voltou-se e lançou-lhe um olhar:

— Nada. Já te disse diversas vezes. Vocês usaram até o detector de mentiras.

— Mas o que foi, afinal, que te convenceu a destruir totalmente aquela vila? — insistiu o oficial. — Os monstros silicificados que enfrentaram eram realmente perigosos, mas não a ponto de justificar a aniquilação de uma cidadezinha, certo?

Han Jianfei apontou para a própria cabeça:

— Já expliquei, tive várias visões na época. Vocês registraram tudo. Pode rever e ver como aquilo destruía toda a humanidade.

— Consultei especialistas — disse o oficial —, todos concordam que foram sintomas de transtorno de estresse pós-traumático; talvez pelo combate, talvez pela morte dos seus companheiros, o medo daquele inimigo foi ampliado infinitamente.

— Você acredita nisso, Chen Mingyuan? — Han Jianfei perguntou, parando.

— Não acredito em ninguém — respondeu o oficial, Chen Mingyuan, balançando a cabeça.

Han Jianfei sabia que Chen Mingyuan acreditava nele. Por anos, ele lutou para subir na hierarquia, reunindo todos os recursos militares e políticos possíveis para se preparar para aquele inimigo aterrador, que poderia surgir a qualquer momento.

Continuaram caminhando, Han Jianfei passando a mão suavemente pelas lápides, como se acariciasse os rostos dos jovens ali sepultados.

Nas lápides, apenas códigos; nenhum nome.

Bobina, Gordinho, Dedo Médio, Molar, Velho Canhão, Boca de Fogo...

— Ouvi dizer que, em certos mitos antigos, demônios escondiam seus verdadeiros nomes, revelando-os apenas aos mais confiáveis — disse Han Jianfei a Chen Mingyuan. — Pois, se alguém soubesse seu nome verdadeiro, poderia escravizá-los para sempre.

— Para a Aliança, todos são heróis — disse o oficial, inexpressivo.

— Eles escolheram esquecer o passado; só eles sabem seus verdadeiros nomes. Não como você, Chen Mingyuan, que pode repousar no mausoléu dos mártires levando o nome dos ancestrais.

— E você? — perguntou Chen Mingyuan — Han Jianfei é o seu verdadeiro nome?

Han Jianfei sorriu:

— Depois de tanto usar, acho que sim.

— Está certo — assentiu Chen Mingyuan. — Quando você morrer, vou gravar Han Jianfei na sua lápide.

Caminharam até o fim do cemitério, onde havia uma tumba recém-construída. Só não se sabia, ainda, quem nela repousaria para sempre...