Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo 19: A Pessoa Malfadada
Han Jianfei não se lembrava de como conseguiu fugir da fogueira e voltar para seu quarto. Felizmente, antes de se embriagar, havia instruído Genji Tomoko a não deixar que aquelas moças “tivessem sucesso”. Não era por falta de vontade, nem por modéstia forçada — ele sabia que em breve partiria dali, e talvez nunca mais voltasse; não fazia sentido criar problemas desnecessários em Haishan.
Quando abriu os olhos no chão, já era o início do amanhecer após uma longa noite. Sentou-se e massageou os músculos doloridos por ter dormido no solo. Não havia nenhuma garota ao seu lado; ao que tudo indicava, Genji Tomoko realmente cumprira sua promessa.
Seu terminal pessoal fora destruído durante o salto, então ele nunca conseguiu entender exatamente como funcionava o ciclo de vigília em Haishan. Mas isso não impedia os habitantes de se levantarem, trabalharem, descansarem e dormirem com precisão a cada ciclo.
Quando o exterior começou a se agitar, embora ainda fosse madrugada, Han Jianfei soube que mais um ciclo havia começado. Saiu de sua habitação peculiar, aproximou-se do rio, lavou o rosto com um punhado de água e sentou-se numa pedra, mirando distraidamente a linha do horizonte a leste, que começava a clarear sobre o lago.
Como em tantos outros ciclos recentes, Genji Tomoko surgiu descalça, silenciosa, ao seu lado: “O que está olhando?”
Só então Han Jianfei notou sua presença. Não respondeu à pergunta, apenas fez um gesto com a boca: “Vocês têm contato com aqueles estrangeiros?”
Seguindo o olhar dele, Tomoko avistou no céu do oriente uma fileira de pontos luminosos, talvez uma dúzia ao todo. Sabia que eram os “pássaros de ferro” dos forasteiros, transportando minério para o céu.
Soubera que, em tempos antigos, os habitantes de Haishan veneravam como deuses esses forasteiros que chegavam em pássaros de ferro. Porém, os estrangeiros pareciam evitar contato; depois de muitos mal-entendidos, conflitos e encontros públicos ou secretos, descobriram que nada mais eram que humanos vindos de fora das montanhas, distintos apenas na origem.
Foi assim que passaram a chamá-los de “forasteiros”.
Talvez, em regiões distantes fora dessas montanhas, grandes tribos com mais território e povo tivessem contato mais estreito com os forasteiros. Mas o clã do Leste do Rio e o clã Ébano só em ocasiões raras conseguiam negociar em segredo com eles.
O relógio quântico do pai de Xiao Tanzi, por exemplo, viera dessas trocas.
“Raramente”, respondeu Tomoko, balançando a cabeça. “Do outro lado das montanhas há uma mina onde os forasteiros extraem uma pedra esverdeada, mas a maioria deles são homens de ferro, nunca falam conosco. De vez em quando aparece algum forasteiro como você, trocando coisas esquisitas e curiosas às escondidas.”
Han Jianfei ergueu a cabeça, animado: “Você disse que esse campo de mineração... essa mina, é longe daqui?”
Pelo que sabia, a pedra esverdeada que Tomoko mencionava podia ser minério de tânio, um composto de alta eficiência para armazenamento de energia.
Se realmente houvesse por perto uma base de tânio, ele poderia determinar sua posição exata e, com sorte, talvez conseguir uma vaga em alguma nave de minérios.
Tomoko pensou um instante e respondeu: “Saindo daqui, leva quase um ciclo de luz para chegar, mas não há estrada, só subindo montanhas. Nem mesmo os melhores caçadores garantem que conseguem passar.”
Han Jianfei sorriu: “Os melhores caçadores, como os de ontem à noite?”
Ela negou com a cabeça e perguntou: “Você quer ir? Vai embora?”
Ele olhou para a garota de Haishan, de idade próxima à de Zhao Xiaonan, e tentou tocar suas tranças, mas achou o gesto íntimo demais e recuou constrangido: “Eu... quero ir dar uma olhada, mas ainda não sei se vou mesmo partir.”
Tomoko observou a mão que ele recolhia e disse: “Eu já disse, se você for embora, me leve. Quero ver o mundo lá fora.”
Enquanto falava, tomou a mão direita de Han Jianfei e a colocou sobre sua cabeça.
Ele suspirou ao encarar aquela moça diferente dos outros habitantes, retirando a mão: “Ainda não sei se vou conseguir sair, ir até a mina é só uma tentativa. Mas prometo que, se puder, vou te levar para conhecer o mundo.”
Tomoko assentiu e mudou de assunto: “Aliás, você luta muito bem. Sua força e velocidade não superam as de Chris, mas venceu com facilidade. Isso é alguma técnica de luta do seu povo?”
Han Jianfei respondeu: “Entre nós, há muitas formas de derrotar alguém, não é preciso depender apenas de força bruta.”
“Nós também temos técnicas,” disse Tomoko, “como a minha esgrima, ou as técnicas de lança de Chris. Mas sinto que nossa arte marcial é diferente da sua.”
Han Jianfei refletiu: “Talvez porque damos mais valor ao momento certo e ao objetivo, enquanto vocês priorizam experiência e habilidade. Quando jovem, eu enfrentava inimigos com força, velocidade e alcance muito superiores. Aprender o ritmo dos ataques e os pontos cegos deles, para então agir no momento exato, era nosso maior foco.”
Tomoko ficou em silêncio, parecendo recordar os detalhes das lutas de Han Jianfei. Depois de um tempo, perguntou: “Você pode me ensinar sua arte marcial?”
Ele quis dizer que suas técnicas haviam sido aprendidas no fogo cruzado de infinitas batalhas, entre a vida e a morte. Mesmo corpos tão resistentes quanto os dos habitantes de Haishan, diante das armas de fogo mais primitivas, não passariam de alvos frágeis.
A menos que usassem armaduras capazes de resistir a projéteis comuns...
Seus olhos brilharam de repente, como se tivesse compreendido o lampejo que notara em Tomoko ao vê-la lutar.
Por causa da gravidade, os corpos em Haishan eram duros, vigorosos, e todos sabiam algum tipo de luta. Não fosse pela ausência de experiência em guerras modernas, em todos os outros aspectos, eram exímios pilotos naturais de armaduras exoesqueléticas.
Não se tratava das gigantescas armaduras de mais de três metros — mas sim de exoesqueletos semiativos, feitos sob medida para seus corpos.
Considerando a resistência deles a manobras de alta sobrecarga, tais armaduras poderiam operar sob até 20 Gs de aceleração.
Se esses guerreiros assustadores fossem treinados em combate espacial...
Seguindo esse raciocínio, Han Jianfei quase pôde vislumbrar uma cena digna de epopeia interplanetária: no espaço, na superfície de planetas, esses superguerreiros desafiando armas de calibre médio, cruzando entre naves inimigas e fortificações com velocidade de aeronaves rasantes, ceifando vidas com armas de alcance curto e médio...
Mais ainda: em número suficiente, até mesmo as ameaças terríveis que ele vira em Huangyang não seriam invencíveis.
Pensando nisso, Han Jianfei olhou demoradamente para Tomoko.
Corpo compacto, músculos proporcionais, baixa estatura, força assustadora... tudo nela parecia feito sob medida pelo criador para um superguerreiro de aço.
Nessa hora, ele tocou o anel de gelo em seu dedo. Por que, ao usar o salto, não morrera e fora parar justo naquele planeta?
“Posso sim.” Sem pensar mais, respondeu. “Mas a minha... arte marcial só se aprende em combate.”
Tomoko comentou: “Seu olhar agora ficou assustador.”
“É mesmo?” Han Jianfei sentiu-se um pouco culpado. “Acabei de imaginar uma possibilidade, de tornar você uma guerreira invencível...”
“Não quero ser invencível,” ela balançou a cabeça. “Nossa busca nas artes marciais é pelo progresso contínuo. Vencer inimigos é só um dos objetivos.”
De repente, Han Jianfei achou que seus planos traíam a pureza daquela garota simples e inteligente.
“Desculpe...” Ele já passara da fase de abandonar planos por puro remorso; mesmo se desculpando, continuava calculando como poderia convencer aquela moça e seu povo a embarcar em sua causa. “Mas minha arte se baseia quase toda em derrotar ou até matar o inimigo com o menor esforço possível.”
Tomoko pensou e respondeu: “Posso aprender, mas não preciso usar.”
“Muitas coisas são difíceis de explicar só com palavras. Se você pudesse ver meu mundo, entenderia melhor. Mas, já que antes você disse que queria me ajudar a treinar corpo e força, por que não começamos aqui?”
A garota descalça levantou-se, aceitando prontamente: “Está bem.”
E acrescentou: “De qualquer forma, preciso te preparar, ou você não vai conseguir nem chegar à mina — venha comigo.”
Han Jianfei a seguiu até a aldeia. Quase todos já haviam saído para o trabalho; só restavam idosos e crianças. Passaram pela casa atípica dele, depois por algumas cabanas pontiagudas, até pararem em um quintal cercado por uma paliçada de madeira.
Han Jianfei vagamente recordava esse quintal; parecia ter sido ali seu primeiro encontro com Tomoko.
Do lado de fora, ela perguntou baixinho: “Vovó, já acordou?”
Demorou um pouco, até que se ouviu o barulho de uma porta. A velha xamã saiu, apoiada em um bastão, passos trêmulos. Ao avistar Han Jianfei atrás de Tomoko, falou com desagrado: “Tomoko, por que trouxe esse azarado aqui?”
Tomoko respondeu: “Vovó, ele está magro demais. Quero ajudá-lo a fortalecer o corpo. Pode preparar umas poções para mim?”
A xamã, com o rosto fechado, disse: “Tomoko, por que insiste em ajudar esse portador de má sorte? Ele trará desgraça e morte para o clã do Leste. Nunca devíamos tê-lo acolhido...”
Ela falava num dialeto puro de Haishan, que Han Jianfei não compreendia.
Tomoko olhou para ele e explicou: “Ela acha que você não parece azarado. No ciclo passado, você nos ajudou a vencer Chris, o do clã Ébano, na luta do Anluoke.”
A xamã meneou a cabeça: “Vocês só enxergam a superfície. Eu vejo que esse homem carrega milhares de vidas em suas costas e que trará morte sem fim ao nosso clã...”
Tomoko fitou Han Jianfei mais uma vez.
“O que foi?” ele perguntou, sem entender.
“Ela disse que você já matou muita gente e que vai trazer a morte para nós.”