Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo Quinze: Que distância infernal

Portador da Morte Normas 3422 palavras 2026-02-09 16:52:50

No alvorecer, um jovem pescador remava sua pequena embarcação pelo rio que desaguava no grande lago, quando avistou algo estranho na margem: um corpo estendido. Aproximou-se, encostando o barco na parte rasa, caminhou com água até os joelhos e tocou o nariz da figura caída. Ainda respirava; não estava morto, e pelas roupas, devia ser um forasteiro. O pescador hesitou, mas enfim ergueu o homem e começou a levá-lo pela margem em direção à aldeia.

Naquela região do grande lago, os forasteiros geralmente chegavam a bordo de grandes aves de ferro voadoras, raramente pisavam no solo, e menos ainda apareciam sozinhos perto das aldeias. O pescador sabia que esses homens traziam consigo objetos raros e valiosos, mas um forasteiro vivo seria ainda mais precioso. Pensava em levá-lo ao xamã; se pudesse curá-lo, seria o único dono de um escravo forasteiro em toda a região do lago. Talvez assim até a filha do chefe da família Yuan olhasse para ele com outros olhos...

Animado com essa ideia, seus passos tornaram-se leves. Com o forasteiro nos braços, chegou diante da cabana do xamã. A velha xamã, acabando de sair, semicerrando os olhos, perguntou com voz rouca:
— Jiang Adá, o que é que você está carregando?

O pescador chamado Jiang Adá deitou o homem no chão e sorriu:
— Vovó, veja se ainda tem salvação.

A xamã, com as mãos às costas, circundou o forasteiro, examinando-o com olhar severo:
— Adá, onde foi que encontrou esse homem?

— Na margem do rio, junto ao lago. Ele pode ser salvo?

A xamã balançou a cabeça:
— Esse forasteiro é um mau agouro. De onde veio, devolva para lá!

Jiang Adá, relutante, ainda tentou:
— E os objetos dele, posso ficar com eles?

A xamã murmurou palavras incompreensíveis e, após algum tempo, declarou:
— São coisas de grande desgraça! Se guardar, atrairá calamidade para si!

E, com desprezo, deu um pontapé na perna do forasteiro:
— Leve-o embora, não quero má sorte no meu pátio!

O jovem pescador, resmungando sua má sorte, ergueu o forasteiro como se fosse um saco de batatas e saiu do pátio. Ao passar pelo portão de madeira, viu uma menina de pés descalços, cabelo repleto de tranças e uma faca curta presa à cintura, caminhando em sua direção. Ao ver que ela vinha direto a ele, Jiang Adá abaixou a cabeça e tentou passar despercebido, mas a garota o chamou:
— Jiang Adá, o que faz aí tão cedo, agindo às escondidas?

Sem alternativa, Jiang Adá ergueu o olhar e respondeu com um sorriso forçado:
— Pequena chefe, hoje cedo achei um forasteiro na margem do rio. Trouxe para a vovó ver se tinha salvação, mas ela disse que era mau agouro e mandou devolver.

— Deixe-o aí, quero ver.

Jiang Adá hesitou, mas a garota pousou a mão na faca:
— Agora!

O pescador obedeceu, colocando o forasteiro no chão. Quando a garota se aproximou para examinar, o homem de repente abriu os olhos.

Jiang Adá levou um susto, mas a menina apenas encarou o forasteiro, olhos nos olhos.
— Ele está vivo — disse ela ao pescador. — Por que quer devolvê-lo?

Jiang Adá, aflito, respondeu:
— Pequena chefe, sabe que eu, mesmo se tivesse coragem, não mataria ninguém. É a vovó que disse que ele traria desgraça, então não tive escolha.

A menina, fria, retrucou:
— Não existe mau agouro. Cuide dele, ponha-o na sua casa, trate dos ferimentos. Em alguns dias voltarei para ver. Se ele morrer, corto sua mão.

Dito isso, ela virou-se e partiu, deixando Jiang Adá atônito e o forasteiro apenas piscando os olhos.

— Mau agouro! — suspirou a xamã lá dentro.

Aquele forasteiro era Han Jianfei. Talvez só ele soubesse como havia chegado ali. Desde que recebera o anel chamado "Ferro de Gelo", Han Jianfei sabia que era provavelmente uma relíquia de uma civilização anterior, dotado de tecnologias misteriosas além do alcance da humanidade atual: como o espaço dobrado usado em combate contra Oz, ou a capacidade de teletransportar um corpo vivo. Até mesmo Dobby, talvez a única inteligência artificial genuína da Aliança, emergira do espaço dobrado do Ferro de Gelo.

Apesar de possuir o anel há anos, Han Jianfei compreendia apenas uma ínfima parte dele. Mas isso não o impediu de fugir, usando tal poder, do raio principal de uma arma com um quilômetro de alcance, escapando instantaneamente do ponto de impacto. Só que o destino do salto era incerto.

Quando Jiang Adá o carregou, Han Jianfei, já gravemente ferido, desmaiou de novo.

Ao despertar, era já crepúsculo. Tentou mover-se, mas sentiu os ossos quebrados por todo o corpo, como se tivessem sido pulverizados. Nunca antes saltara com o próprio corpo, mas sabia que era efeito colateral do salto. As naves da Aliança eram reforçadas especialmente para suportar a tensão desse processo, com estrutura e blindagem extra; ele, saltando com o corpo nu, era como atravessar um campo de minas. Já era sorte não ter sido destroçado ali mesmo.

Com esforço, girou o pescoço para examinar o ambiente. Era uma cabana de teto cônico, feito de tecido felpudo, com uma pequena porta coberta por uma cortina suja. Estava deitado sobre uma manta de pele forrada de feno seco, coberto por um cobertor grosso; sobre os ferimentos, uma camada de argila misturada com substâncias desconhecidas.

A cortina foi erguida e uma voz soou do lado de fora:
— Impossível, ele está melhorando, embora não tenha acordado... Ora, não está acordado?

Han Jianfei ergueu a cabeça e, na luz forte do exterior, viu o pescador que o salvara e a menina que o encarara antes.

Jiang Adá pensara que a pequena chefe já teria esquecido o forasteiro, mas assim que o viu, a primeira coisa que perguntou foi:
— E o forasteiro que mandei você salvar?

Só lhe restou levar a pequena chefe para ver o homem que ocupava sua janela e dormia o dia inteiro. Não era mais um escravo, mas quase um ancestral, de tão precioso.

A menina de pés descalços franziu o nariz ao entrar, pois a cabana de Jiang Adá, morada de solteiro, exalava o odor agridoce típico de homem descuidado e um cheiro de peixe que nunca se dissipava. Contra a luz, Han Jianfei via apenas o contorno da garota, mas agora, pelo menos, conseguia distinguir seu rosto. O idioma que falavam não era o da Aliança, parecia um dialeto local; esforçando-se, só conseguia entender poucas palavras soltas.

A menina aproximou-se, falou com voz clara e cristalina, como pérolas caindo sobre uma bandeja de jade — embora Han Jianfei não compreendesse nada.

— Você... — Han Jianfei tentou abrir a boca, assustando-se com o próprio som, rouco como se tivesse as cordas vocais rasgadas, tão áspero quanto o ruído de uma colher de aço raspando vidro. — ...o que está dizendo?

A menina hesitou, pareceu lembrar de algo, e ao falar de novo, usou uma versão pouco fluente do idioma comum da Aliança:
— Você, de onde, veio?

Dessa vez Han Jianfei entendeu.

— Que lugar é este? — não respondeu à pergunta da garota, mas indagou, com voz rouca: — Como chamam aqui?

Ela pensou um pouco, respondeu incerta:
— Mar... Montanha? No seu idioma, é isso.

Conversaram, tateando entre dúvidas, até Han Jianfei perceber que ali era chamado de Mar Montanha, mas ninguém sabia como a Aliança nomeava o local, logo não podia descobrir sua posição exata.

Com a garota, Han Jianfei soube também que ela se chamava Yuan Zhizi, filha do chefe da aldeia e única herdeira.

Depois de algum tempo, Yuan Zhizi, não suportando mais o cheiro da cabana, pediu a Jiang Adá que pegasse uma cadeira de madeira emprestada no vizinho, levou Han Jianfei para fora, onde continuaram a conversar sob o sol. Han Jianfei não se incomodava; já vivera em ambientes piores na juventude.

O idioma comum da Aliança da jovem era rudimentar, mas a comunicação fluía; Han Jianfei, ouvindo e deduzindo, aos poucos compreendia também o dialeto de Mar Montanha. Quanto mais conversavam, mais fácil se tornava o diálogo. Yuan Zhizi era curiosa sobre o mundo exterior, fez muitas perguntas, e Han Jianfei aprendeu com ela muito sobre Mar Montanha.

Pela presença do gigantesco planeta gasoso no céu e pela longa duração do dia, Han Jianfei deduziu que estavam em um satélite habitável, travado por forças de maré; pelo modo de vida e o desenvolvimento do idioma, era uma zona de proteção de civilização independente.

Desde a era das grandes migrações, inúmeros grupos de colonos espalharam-se por todos os planetas habitáveis do setor Oasis; algumas civilizações evoluíram até se tornarem superpotências, como a Aliança, de Han Jianfei, e seu maior rival, o Culto Σ; outras perderam suas tecnologias, regredindo ao estado primitivo.

Essas civilizações eram chamadas de "civilizações interrompidas". Para preservar a diversidade do desenvolvimento, a Aliança adotou uma política de "não contato, não intervenção, não rejeição" com elas, mas precisava explorar os planetas habitáveis que ocupavam. Assim surgiu o conceito de "zona de proteção para desenvolvimento independente".

Esse satélite, chamado de Mar Montanha pelos locais, devia ser uma dessas zonas dentro do território da Aliança.

Pensando nisso, Han Jianfei ergueu os olhos para o céu, onde o planeta gasoso, cada vez mais nítido com a chegada da noite, dominava o firmamento, e suspirou:
— Que distância colossal...

Uma nave mineradora, visível a olho nu, cruzou o céu escuro, passando diante do gigante gasoso que, como uma pupila, ocupava quase todo o horizonte.