Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo Dezoito: Assim se Usa um Tijolo
O jovem líder dos caçadores não demonstrou qualquer sinal de irritação, mas seus acompanhantes, por outro lado, já estavam à beira de um ataque de fúria. Um caçador do clã Ébano, de compleição robusta, deu um passo à frente, estendendo o dedo médio em direção a Han Jianfei e, em seguida, virando-o para baixo.
“O que significa isso?”, Han Jianfei ficou surpreso.
“É uma tradição de Haishan. Ele está desafiando você para um ‘Anluoke’. Não pode recusar”, explicou Yuan Zhizi, aproximando-se com expressão séria. “Se o desafiado recusa, será desprezado por todos de Haishan para sempre.”
“Eu recuso”, Han Jianfei balançou a cabeça. “Se qualquer um vier me desafiar e eu for obrigado a aceitar, isso não faz sentido. E se eles resolverem me desafiar todos os dias, um por vez? Vou passar o resto da vida nisso?”
Yuan Zhizi negou com a cabeça: “Só é permitido um Anluoke por dia e noite prolongados. Agora você faz parte do clã Hedong. Se recusar, significará que todos nós devemos nos curvar diante do clã Ébano. Mas fique tranquilo, eu mesma desafiarei Kurya para um Anluoke logo em seguida.”
Enquanto falava, lançou um olhar de desprezo ao líder dos caçadores do clã Ébano, que retribuiu com um olhar igualmente desdenhoso.
“O desafio está aceito”, interveio o ancião Yuan Chongling, que até então permanecia em silêncio. “Mas esta noite, ninguém pode morrer.”
“Dou minha palavra”, prometeu Kurya, mesmo tendo vindo provocar, demonstrando respeito ao ancião. “Kelis não fará mal ao seu povo.”
Para muitos aldeões do clã Hedong, aquele forasteiro só podia ser insensato por aceitar o desafio do maior guerreiro do clã Ébano, o líder dos caçadores Kurya. Ainda que Kurya não fosse ele mesmo participar, diziam que Kelis era capaz de rasgar uma fera dente-lâmina com as próprias mãos. Estrangeiros costumavam ser considerados fracos e dependentes de recursos externos, jamais páreo para um lutador desse nível!
Han Jianfei apenas deu de ombros. Os habitantes nativos eram fisicamente impressionantes, mas como poderiam se igualar a um exoesqueleto mecânico blindado, cuja estrutura de quase três metros ele já desmontara com as próprias mãos sete vezes? Kelis, por mais forte que fosse, ainda era apenas carne e osso — não representava perigo algum.
No máximo, pensou Han Jianfei, o alto índice gravitacional daquele mundo poderia tornar o adversário um pouco mais forte do que o esperado, e só.
Durante quase um mês e meio — o equivalente a dois dias e noites prolongados naquele planeta — Han Jianfei já havia recuperado seus ferimentos. Era uma boa ocasião para exercitar os músculos, adormecidos pelo repouso forçado.
No quesito força bruta e resistência, não era páreo para nenhum habitante de Haishan, mas combate nunca se resumiu apenas à força.
Por isso, ele assentiu e perguntou: “Como aceito o desafio Anluoke?”
Zhizi respondeu: “Basta reverter o gesto que ele fez.”
Han Jianfei refletiu por um instante e esboçou um sorriso estranho: “Tem certeza?”
Enquanto falava, repetiu o gesto do adversário, estendendo o dedo médio para baixo e, em seguida, virando-o para cima.
Os moradores da aldeia de Hedong explodiram em aplausos e gritos animados.
Os aldeões os conduziram ao centro da aldeia, formando um círculo ao redor de um espaço vazio, reservado para o duelo.
Apesar do amanhecer, a luz do gigantesco planeta ainda iluminava o solo. Kelis, o caçador do clã Ébano, girou o pescoço, lançando a Han Jianfei, bem mais alto que ele, um olhar desafiador.
“O Anluoke desta noite será entre Kelis, do clã Ébano, e Han Jianfei, do clã Hedong. O uso de armas está permitido, mas é proibido matar. Quem cair sem conseguir se levantar ou se render, perde!”, anunciou um ancião, posicionando-se entre eles.
Em seguida, virou-se para os duelistas: “Jurem em nome do Deus Celeste que o desafio e sua aceitação são decisões próprias, e que ambos assumirão total responsabilidade pelo que vier.”
“Eu juro”, declarou Kelis.
“Está bem, eu juro”, Han Jianfei deu de ombros, “embora eu nem saiba quem é esse deus.”
O ancião deixou o círculo. Kelis recebeu uma lança de um companheiro do clã: “Vá buscar sua arma, franguinho. Não vou querer vantagem.”
Han Jianfei hesitou e então dirigiu-se à multidão: “Xiao Tanzi, empresta seu tijolo para mim.”
Sem saber para que serviria o tijolo, o menino chamado Xiao Tanzi, meio contrariado, tirou de baixo de si um pedaço de tijolo verde e o lançou a Han Jianfei.
Pesando o tijolo esverdeado na mão, Han Jianfei voltou-se para Yuan Zhizi: “Não disse que esse negócio podia servir como arma? Veja, é assim que se usa.”
Erguendo o tijolo com a mão direita, disse a Kelis: “Esta será minha arma.”
O desprezo do adversário inflamou ainda mais a fúria do caçador do clã Ébano, que empunhou a lança com força e avançou sobre Han Jianfei com todo o ímpeto.
Embora fosse apenas um ser humano, o ataque rivalizava com a investida de um exoesqueleto mecânico em movimento.
Além disso, por ser mais baixo, Kelis era veloz, e Han Jianfei sentiu-se quase encurralado, sem opções de fuga.
Ele não tentou aparar a investida — seria insensato, já que o tijolo não poderia suportar tal impacto.
No instante em que a lança quase o alcançou, Han Jianfei esquivou-se de leve, desviando da ponta, e desferiu um chute na perna de Kelis.
Os dois se cruzaram. Kelis cambaleou, mas não caiu.
Esses caçadores, acostumados à luta corporal com feras nas montanhas, tinham a base firme. Táticas eficazes contra exoesqueletos não funcionavam tão bem com músculos tão sólidos.
Kelis girou e atacou novamente.
Desta vez, transformou o golpe de estocada em um arco lateral, fechando o caminho de Han Jianfei.
Han Jianfei não recuou nem tentou fugir. Avançou em direção ao adversário, e antes que a lança o atingisse, aproximou-se rapidamente, protegendo-se com o tijolo à altura da cintura, bloqueando o bastão da lança. Com a mão esquerda, desviou a arma, lançando Kelis para longe.
Os aldeões do clã Hedong, torcendo pelo novo membro, vibraram ao ver Han Jianfei repelir o adversário sem muito esforço.
Han Jianfei acenou sorridente para a plateia, pensando consigo: nada além de uma simples alavanca; o conhecimento é mesmo poder.
Após duas investidas frustradas, Kelis percebeu que a força bruta não bastava. Avançou cautelosamente, golpeando repetidas vezes, fazendo Han Jianfei recuar passo a passo.
Felizmente, o espaço era amplo e Han Jianfei logo se adaptou à velocidade do rival, passando a circular pela arena, evitando o confronto direto.
Depois de alguns minutos, Kelis interrompeu o ataque e bradou, furioso: “Covarde! Só sabe fugir, não é homem de verdade!”
Han Jianfei rebateu: “O desafio Anluoke obriga a atacar alternadamente, cada um com sua lâmina? Se não, por que não posso me esquivar? Reclamar porque não me acerta é que não é coisa de homem.”
Os habitantes de Haishan eram diretos e, em combates, preferiam o confronto aberto. Ver Han Jianfei apenas esquivar-se, sem atacar, deixava os aldeões constrangidos, apesar do apoio.
Kelis, enfurecido, lançou-se mais uma vez. Han Jianfei agachou-se para evitar a ponta da lança e, finalmente, desferiu seu primeiro golpe com o tijolo.
O golpe foi baixo, mirando o joelho de Kelis — Han Jianfei era versado em golpes traiçoeiros do campo de batalha.
O tijolo atingiu o ponto exato sob o joelho de Kelis, que cambaleou e caiu.
Levantando-se, furioso e mancando, Kelis investiu novamente.
Han Jianfei repetiu a manobra, mas, desta vez, saltou sobre o ombro do adversário e, num movimento rápido, acertou-lhe o tijolo na nuca.
Mesmo moderando a força e evitando o ponto vital, Han Jianfei sabia que, com um único golpe mais forte, poderia tê-lo matado.
Ainda assim, o impacto foi suficiente para deixar Kelis tonto, cambaleando como um bêbado.
Yuan Zhizi, surpresa, observava aquela cena quase cômica. Os aldeões, extasiados, gritavam entusiasmados — jamais haviam visto um duelo assim.
Han Jianfei sorriu para Zhizi: “Viu só? É assim que se usa um tijolo.”
Kelis, recuperando-se, segurou a cabeça zonza. Ao ver o adversário descontraído, ficou furioso, virou a lança e a arremessou como um dardo contra Han Jianfei.
“Cuidado!”, exclamou Zhizi, alarmada.
O golpe era traiçoeiro: se Han Jianfei esquivasse, a lança atingiria Zhizi na beira do círculo. Se não, teria de bloquear o golpe direto.
Sem tempo para pensar, Han Jianfei, num reflexo, puxou a adaga da cintura de Zhizi com a mão esquerda e, num só movimento, cortou a lança, partindo-a ao meio. Girou o corpo e, com o tijolo na mão direita, acertou em cheio o rosto de Kelis, que avançava com a lança quebrada.
“Um tijolada dessas faz brotar flores!”, pensou, divertido.
Ninguém resistiria a um golpe daqueles na cara — e, de fato, Kelis caiu desacordado no mesmo instante.
Só então a ponta da lança cortada, lançada ao ar, caiu girando e cravou-se no solo próximo.
“Desafio Anluoke! Vitória de Han Jianfei, do clã Hedong!”, proclamou o ancião.
Os aldeões, atônitos com a vitória do mais fraco, explodiram em aplausos ao ouvirem o resultado.
Han Jianfei virou a lâmina, apontando o cabo para Zhizi: “Obrigado.”
Ela recolheu a adaga, sorrindo: “Você foi muito bem.”
Han Jianfei, veterano de mais de uma década de guerras, sentiu-se ruborizar ao ser elogiado por uma garota com metade do seu tamanho.
Kurya, líder dos caçadores, resmungou irritado e, sem se despediu, os homens do clã Ébano carregaram o inconsciente Kelis e deixaram a aldeia.
Os aldeões, eufóricos, rodearam Han Jianfei e o levaram de volta à fogueira. Assim que se sentou, várias jovens — inclusive aquelas que pouco antes o haviam rejeitado — trouxeram comida e bebida para ele.
E não foi apenas uma.