Volume II: A Sombra do Deus da Morte Capítulo 25: O Surto da Epidemia
No exato momento em que Han Jianfei e Chen Mingyuan enfrentavam, no laboratório Wangji do sistema estelar Zeta, apenas trezentos e poucos infectados pelos vermes de silício, do outro lado de um setor distante, no planeta ACMP47, uma mudança drástica, aparentemente destinada a jamais chamar a atenção da Aliança, desenrolava-se em silêncio.
— Uma porção de carne proteica grelhada, uma porção de molho vitamínico, dois blocos de carboidrato, um copo de bebida.
No centro de distribuição de He Wan, Bai He, um mercenário de jaqueta surrada, entrou assobiando e atravessou o salão impregnado pelo som de música metálica e suor, caminhando com desenvoltura. Ao passar por uma garçonete, apalpou-lhe a nádega, provocando um grito exageradamente afetado e uma repreensão fingida.
Sorrindo, Bai He chegou ao balcão e bateu-o com a mão.
O centro de distribuição também funcionava como bar e restaurante. Muitos catadores e caçadores de tesouros, sem vontade de preparar o próprio alimento, preferiam comer ali, ainda que fosse mais caro.
— Um litro de óleo, dois quilos de liga metálica, ou três balas de pistola — disse o careca conhecido como Urso, dono do bar, já acostumado à irreverência desse catador. — E nem pense em pedir fiado, com seu ‘ótimo’ crédito.
— Não seja pão-duro, Urso! — Bai He respondeu, bem-humorado. — Hoje é pagamento à vista.
— Você? — Urso esboçou um sorriso de desprezo. — Se eu conseguir arrancar um níquel desse seu corpo, eu passo a adotar o seu sobrenome!
Bai He, que não era exatamente magro, não se ofendeu. Apenas afastou a mão do balcão, revelando uma moeda reluzente.
Era uma moeda comemorativa, emitida pela Aliança após a guerra. Apesar de seu valor insignificante em outros lugares, no planeta 47 era dinheiro forte.
Urso parou de limpar os talheres, pegou a moeda de níquel, gravada com uma nave e caças, e a examinou com atenção.
— Boa pureza, edição do terceiro ano pós-guerra. Onde foi que você roubou isso?
Bai He, por instinto, tentou pegar a moeda de volta, mas parou no meio do gesto.
Como os moradores de outros planetas da Aliança nunca iam até ali, era quase impossível o contato com o exterior. As poucas moedas em circulação vinham geralmente de saques em cemitérios de naves, e uma como aquela, em tão bom estado, era raríssima.
Dizer que Bai He era mercenário era lisonjeiro. Na prática, no planeta 47, não passava de um pistoleiro, sobrevivendo ao se juntar a grupos de catadores como guarda, trocando sua velha arma de pólvora por uma pequena parte dos lucros.
Raramente um chefe de catadores pagava moeda forte a alguém como ele.
— Não é a regra do Urso aceitar qualquer coisa de valor? — Bai He respondeu com um sorriso, recolhendo a mão. — E vai querer saber de onde veio?
O dono assentiu e guardou a moeda.
— Deu sorte, rapaz. Fica esperto, pra não acabarem com você por aí. Ninguém vai recolher seu corpo.
A moeda de um crédito da Aliança sobrava para pagar o que Bai He queria. Urso pensou um pouco e perguntou:
— O que vai querer com o troco?
— Me arranja mais comida fácil de carregar. Se sobrar, troca tudo por óleo.
O dono o fitou demoradamente.
— Não foi roubada de algum figurão, não? Vai fugir?
— Não ouviu nada? — Bai He olhou ao redor e se aproximou para sussurrar. — A cidade abaixo do penhasco ao norte teve uma epidemia, muita gente morreu, os refugiados estão vindo pra cá. Se fosse você, eu já estaria de malas prontas. Quando essa horda chegar, vão roubar tudo, não vai sobrar nada.
O centro de distribuição era o lugar mais bem informado da vila, e Urso de fato já ouvira rumores sobre a epidemia ao norte.
— Besteira — bufou ele. — Estou aqui há mais de trinta anos, nunca ouvi falar de epidemia nenhuma. Neste fim de mundo, vírus nenhum sobrevive três minutos!
Enquanto falava, um prato foi servido pela janela da cozinha. Urso pegou o prato e o largou pesadamente no balcão.
Diferente de Bai He, nascido no planeta, Urso era um condenado ao exílio perpétuo, enviado ao 47 após a guerra. Mesmo depois de mais de trinta anos, sabia mais do mundo do que os nativos sem experiência.
— Não me atrevo a enganar o senhor — Bai He lamentou, olhando o vinho que quase derramava. — Devia ter mais cuidado, olha esse desperdício... vai ter que me dar outro bloco de carboidrato...
O planeta 47 não tinha agricultura, e os moradores sobreviviam de alimentos sintéticos industriais. O sabor era limitado, mas as bebidas alcoólicas, mesmo as misturadas, eram as iguarias mais cobiçadas.
— Onde ouviu essa história? — Urso perguntou, observando Bai He despejar o molho vitamínico escuro sobre a carne.
— Precisa ouvir? — Bai He sussurrou. — Outro dia segui um grupo, encontramos uns caras vindos do norte. Disseram que metade da cidade lá embaixo morreu com a epidemia. O resto fugiu roubando e matando, já tem uns dez mil deles a caminho! Só te conto isso porque gosto de você, Urso, te cuida.
Sentado ao balcão, Bai He devorou a comida em poucos minutos. Limpou a boca e perguntou:
— E o resto, Urso? Preciso ir logo.
O dono tirou um saco debaixo do balcão. Ao pegá-lo, Bai He sentiu o peso — uns quinze quilos de blocos de carboidrato. Urso podia ser duro na aparência, mas era justo nas trocas.
Bai He lançou o saco nas costas, despediu-se e deixou o centro de distribuição.
Urso ficou olhando para a porta, pensativo, e de repente desligou a música barulhenta, gritando para os presentes:
— Podem sair, está fechado!
Bai He não parou. Ligou sua velha caminhonete, cuja rodas nem combinavam entre si, e deu várias voltas pela vila antes de se enfiar em meio a ruínas.
Ali não havia moradores. Ele estacionou longe, caminhou um trecho, certificou-se de que não havia ninguém, escalou um muro alto e saltou para dentro de um pátio abandonado.
— Fique parado! — uma voz fraca gritou, e algo duro encostou-se em sua cintura por trás.
Bai He virou-se rapidamente e ergueu a menina que estava atrás dele.
Ela riu, tentando escapar de sua barba áspera, largando a arma de brinquedo feita de madeira, e pediu clemência.
— Chega de brincadeira — disse ele, colocando-a no chão. — Como está tudo por aqui?
— Quase ninguém passa por aqui — respondeu a menina, rindo enquanto se afastava. — Não aconteceu nada.
Bai He acariciou com carinho a cabeça da irmã.
— Arrume suas coisas, vamos partir.
— De novo? — Ela fez um leve beicinho, mas assentiu e começou a juntar os pertences.
No único cômodo inteiro da ruína, havia uma velha televisão alimentada por célula nuclear, sintonizada em um dos canais mais populares da Aliança — a telenovela do Canal Nove de Osmai, distração única para a garota.
Bai He sorriu diante dos olhos límpidos da irmã — tão puros, quase sem mácula.
O planeta 47 era um ambiente hostil, povoado por foras-da-lei, mas aquele canto destruído era seu refúgio de paz.
Desde os doze anos, após perder os pais em disputas com outros catadores, sobreviveu com a irmã de seis, Bai Li, recorrendo à mendicância e trapaças, roubando comida de outras crianças, matando quando preciso. Assumiu todas as culpas e sofrimentos, sem permitir que a menina tocasse a sujeira daquele mundo.
Depois que encontrou uma pistola, a vida melhorou, mas os inimigos aumentaram. Periodicamente, mudavam-se para locais desconhecidos, acostumados a essa rotina errante.
— Desta vez, podemos ir mais longe — disse ele, vendo a irmã juntar seus poucos pertences. — Só leve comida, o resto pode ficar.
— Tá bom. — Bai Li largou a caixa que carregava, pensou muito, então retirou de dentro uma antiga farda de comandante da frota da Aliança. — Posso levar isso? Só isso.
Diante do olhar esperançoso da irmã, Bai He assentiu.
Acostumados a partir sem aviso, levaram apenas comida e roupas necessárias e deixaram, sem hesitar, a ruína onde moraram por três anos, embarcando na caminhonete velha.
— Prenda o cinto — disse Bai He, jogando uma máscara respiratória para a irmã, e seguiu em direção ao portão sul da vila.
A certa distância do portão, ambos sentiram a cúpula ecológica, que cobria a vila, estremecer de repente.
Por falta de manutenção, a cúpula estava coberta de poeira. O tremor fez cair uma nuvem cinzenta, criando um nevoeiro sobre a cidade.
Logo, tiros e gritos começaram a ecoar na vila.
— O que está acontecendo? — perguntou Bai Li, assustada, olhando para trás.
— Não olhe! — Bai He acelerou ao máximo, escapando por pouco antes do portão ser selado.
A cerca de um quilômetro dali, Bai He parou o carro.
Ali, uma caminhonete maior estava estacionada. Ao lado, Urso e suas duas garçonetes.
— Urso — Bai He baixou o vidro e cumprimentou.
Urso não respondeu. Olhava fixamente para a direção da vila, a boca entreaberta sob a máscara, como se presenciasse o impossível.
Bai He se virou e, sobre a cúpula ecológica da vila de He Wan, viu pontos negros escalando em massa.
Através do visor da máscara, Bai He percebeu que eram pessoas — vindas de algum lugar desconhecido.
Movendo-se com uma agilidade sobre-humana, subiam ágeis até o topo da cúpula, golpeando-a com mãos, pés e cabeças.
Sob os ataques incessantes, a cúpula finalmente desabou com um estrondo.
Incontáveis pontos negros e estilhaços de vidro caíram juntos, e a baixa gravidade fez tudo parecer um filme em câmera lenta.
Segundos depois, o estrondo do impacto ecoou.
— Aquilo... ainda são pessoas? — Bai He foi o primeiro a reagir e gritou.
— He Wan... acabou-se — murmurou Urso.