Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo 70: A Noite Caótica

Portador da Morte Normas 5562 palavras 2026-02-09 16:59:06

Han Janfei conduzia sua armadura motorizada negra, danificada e desgastada, rumo ao sul. No caminho, avistou uma caravana composta por três veículos seguindo para o norte e pousou à frente deles.

Ao ver aquela armadura dilacerada descendo do céu, os membros da caravana frearam bruscamente. Passou um tempo até que alguém, tomando coragem, se aproximasse para negociar com ele.

— Somos refugiados, não temos nada conosco — disse o homem, cauteloso, enquanto se aproximava.

Que criatura era aquela! O estranho de quase três metros, a armadura mecânica toda retalhada, nada intacto, as asas de planador rasgadas e pingando água incessantemente. Todos ficaram com pena ao vê-lo.

— Vocês têm água? — veio uma voz cansada de dentro da armadura negra, com sotaque típico de Xinluosong.

— Temos, sim! — o homem assentiu com vigor, como um pintinho bicando grãos. — Quanto precisa? Nos resta pouco, e só há cidade daqui a pelo menos dois mil quilômetros ao norte, não haverá onde reabastecer no caminho...

A cabine da armadura se abriu e Han Janfei, vestindo um uniforme camuflado em tons cinza e branco, saiu de dentro, sorrindo ao mostrar dentes ensanguentados:

— Não precisa muito, só estou com muita sede.

O homem rapidamente pediu que trouxessem um cantil. Han Janfei ergueu a cabeça e bebeu tudo de uma vez, limpou a boca e devolveu o cantil.

Antes de subir de volta na armadura, ele parou e virou-se:

— Ah, quase esqueci.

O homem, ainda aliviado por sua família ter escapado, assustou-se com a interrupção:

— O senhor... precisa de mais alguma coisa?

— Se vocês estão indo ao norte para fugir, — Han Janfei sorriu — não precisam mais. A guerra acabou.

Ele partiu, deixando todos no lugar, boquiabertos. E voou velozmente em sua armadura negra.

Quando o horizonte da Cidade Porto Celeste surgiu à frente, após uma jornada exaustiva desde o Forte Augusto, tendo comandado duas batalhas seguidas e enfrentado um inimigo singular por horas, Han Janfei finalmente cedeu ao peso das pálpebras e adormeceu no cockpit.

Auxiliado pelas asas de planador, a armadura, sem função de cruzeiro automático, traçou uma linha longa pelo céu, até colidir estrondosamente contra uma colina de terra macia.

Ao acordar, Han Janfei encontrou-se deitado numa cama macia, todo dolorido, mas feliz por não ter ferido os ossos, conseguindo ao menos virar-se.

E então viu um rosto familiar.

Esfregando a cabeça confusa, sentou-se com dificuldade.

Só depois de um tempo percebeu: estava no apartamento de Mavis, e havia dormido em sua cama.

— Encontraram você num canteiro de obras ao norte, cavaram até te tirar e trouxeram direto para cá — Mavis, que o observava em silêncio, sorriu ao vê-lo acordar. — O médico veio vê-lo enquanto dormia, não há problemas, só está exausto.

— Quanto tempo dormi? — Han Janfei esfregou o rosto, assustando-se com a rouquidão da própria voz.

— Não foi tanto assim. Você passou uma noite enterrado, depois chegou aqui de manhã e dormiu o dia inteiro. Agora são cinco da tarde.

Han Janfei ergueu a cabeça entre as mãos:

— Me arrume algo para comer.

Mavis sorriu e trouxe alguns sanduíches da mesa próxima.

Han Janfei devorou um rapidamente, lambendo os dedos:

— Qual é a situação agora?

— Enquanto você dormia ontem, a garota que você trouxe de Xiazhi voltou. Eu a hospedei na sua casa. A base da frota em Wei Yi foi retomada, a décima sétima frota da Aliança recuou para o portal estelar. Ainda restam três divisões no planeta, que recuaram para o Vale Cereja; o terreno lá é complicado, a limpeza deve durar um pouco, mas controlamos a situação geral.

Han Janfei largou o sanduíche, segurando a mão fria de Mavis.

O gesto repentino deixou Mavis surpresa, depois ela sorriu encantadoramente.

— Você trabalhou muito esses dias.

Mavis roçou o dorso da mão na palma dele:

— Outro dia percebi que estou gostando de Xinluosong. As pessoas aqui são tão adoráveis quanto você.

Han Janfei sorriu:

— Nunca me chamaram de adorável depois de adulto. Mas vocês, garotas, dizem isso para entregar o “cartão de bom moço”, não é?

Mavis balançou a cabeça:

— Você não é nenhum bom moço.

Han Janfei soltou a mão e voltou aos sanduíches.

— Aliás, desde cedo todos estão festejando — Mavis observava enquanto ele comia o segundo sanduíche. — Quer ir sentir um pouco da alegria?

Han Janfei hesitou:

— Vi seu discurso na TV; agora todos em Xinluosong te conhecem. Tem certeza de que quer sair?

Mavis pensou um pouco:

— Desde que cheguei, estive sempre alerta, só trabalho, nunca vivi uma noite em Xinluosong. Dizem que as noites de Cidade Porto Celeste são muito animadas. Depois da guerra, quero me dar um descanso.

O olhar cheio de expectativa de Mavis fez Han Janfei perceber que ela ainda era apenas uma jovem, pouco mais de vinte e poucos anos.

— Se quer relaxar — Han Janfei ponderou — posso chamar uns amigos e fazer uma festa no seu palácio.

A jovem de cabelos dourados, sempre esforçando-se para parecer madura, balançou a cabeça:

— Não quero.

Ela hesitou antes de continuar:

— Posso me maquiar. Ninguém vai me reconhecer.

Saiu do quarto e, meia hora depois, quando Han Janfei já estava entediado, retornou.

Diante dele estava uma garota quase irreconhecível, exceto por traços vagos. Quem diria que era Mavis Sheddon!

Ela usava uma peruca curta e lisa, com um tom violeta, mal cobrindo as orelhas, olhos muito maquiados, sombra cinza escura e um colar de couro no pescoço, lembrando o estilo de Zhao Xiaonan na primeira visita à sua casa.

Vestia um top curto e justo, deixando o abdômen à mostra e realçando a silhueta, uma saia curta com motivos exóticos, pés descalços, esmalte fluorescente mudando de cor nos dedos, personificando a imagem selvagem e indomável.

E, com um rosto delicado que despertava inveja em muitas mulheres, esse visual sofisticado, punk e exótico, era irresistível.

Vendo Han Janfei boquiaberto, Mavis sorriu:

— Ficou atordoado?

— Nem tanto — Han Janfei recuperou-se. — Vai sair assim?

— Justamente assim ninguém vai me reconhecer.

— Então vamos! — Han Janfei levantou-se, mas logo sentou de novo. — ...Arrume uma roupa pra mim!

...

Uma moto flutuante parou com um rangido numa rua de bares no leste da Cidade Porto Celeste. Han Janfei e Mavis tiraram os capacetes e saltaram.

— Antes de eu sair de Xinluosong, este era o melhor bar da região, sem concorrência — Han Janfei apontou com o queixo para um bar com letreiro azul holográfico. — Depois de tantos anos, ainda é o mesmo.

Mavis acompanhou o olhar e viu no letreiro holográfico as palavras tortas: “Morte Passada”.

— “Morte Passada”? — Mavis franziu o cenho. — É o nome do bar?

Han Janfei assentiu:

— Eu escrevi essas letras. Sempre achei que têm personalidade.

Mavis riu alto:

— Letras como você, cara de pau.

Entraram no bar, passando por um corredor escuro iluminado apenas por luzes lilás indicando o caminho.

Pareciam atravessar um túnel do tempo, até empurrar uma pesada porta de metal, que não revelou o ambiente caótico esperado por Mavis.

Pelo contrário, para um bar, era até tranquilo demais.

Havia bastante gente, a música não era tão agitada, mas o grave era potente, e mesmo sem ritmo frenético, dava vontade de gritar.

— Aqui é ótimo! — Mavis gritou. — Eu adorei!

Sentaram-se num box vazio e pediram algumas bebidas.

Logo após servirem as bebidas, a música suavizou e mudou para uma faixa mais animada.

— Não vai dançar? — Han Janfei sorriu ao ver as luzes coloridas sobre a multidão.

— Claro! — Mavis bebeu rapidamente e levantou-se. — Só não se assuste depois.

Han Janfei sorriu e fez um gesto de cortesia.

Ainda sentia dores e já não tinha ânimo juvenil, não pensava em dançar. Mas nada impedia de apreciar a governadora de Xinluosong, CEO do Grupo Grant, agora transformada numa pequena felina selvagem.

Pegou o copo entre três dedos, cruzando as pernas para observar com interesse.

Mavis desceu ao centro da pista e imediatamente atraiu o olhar do DJ, que, impressionado com sua beleza e postura, iluminou-a com todos os holofotes holográficos, projetando-lhe asas de anjo e demônio.

Mavis caminhou até o centro, a música silenciou.

Ela fez ao DJ um gesto de “sete” — referindo-se ao sétimo movimento da Sinfonia Infernal de Dubenstein, “Aniquilação”.

Han Janfei não entendeu, mas o DJ captou o significado.

Todos pararam, observando a garota no centro.

Ninguém reconheceu que era a governadora que, no dia anterior, liderou trinta mil soldados contra a frota da Aliança.

Ao som de trompetes suaves, as luzes do bar se apagaram, restando apenas um foco nela.

Então, a explosão dos tambores: Mavis começou a dançar, com movimentos amplos e precisos, beleza e graça encantando a todos, rapidamente elevando o clima ao ápice.

Com o ritmo acelerando, mais pessoas dançavam sob sua liderança. O DJ ativou o controle gravitacional, tornando quase nula a gravidade no centro da pista.

Mavis tocou as pontas dos pés, parecendo voar como uma pluma, subindo ao ar e descendo leve, como um anjo selvagem caindo na terra.

Ao fim da música, aplausos e gritos entusiasmados.

Mavis pousou lentamente, curvou-se em agradecimento, o holofote a acompanhou até retornar ao lado de Han Janfei.

— Nunca te vi dançando assim — Han Janfei sorriu ao encher seu copo.

— Você já me olhou antes? — Mavis lançou-lhe um olhar ressentido.

— Ok, me rendo! — Han Janfei ergueu o copo e bebeu tudo.

— Cara, mandou bem! Onde achou essa? — ouviu uma voz bêbada.

Um jovem um pouco gordo sentou ao lado de Mavis, tentando tocar sua mão.

Mavis discretamente recuou, olhando para Han Janfei.

— Desculpe, amigo — Han Janfei sorriu. — Não achei, é da minha casa.

— Fala sério! — o gordo riu. — Já vi gente levando miojo ao restaurante, mas nunca vi trazer a garota. Diga um preço, qualquer um, só por uma noite, devolvo inteirinha amanhã, que tal?

Ele tentou tocar a cintura de Mavis.

Mavis levantou-se e jogou o copo de bebida nele.

Ao virar-se, Han Janfei já segurava o pulso do gordo, empurrando-o para fora do box, fazendo-o cair no chão e rolar até parar.

Mavis sorriu radiante.

— Comprei uma mochila de escalada no ano passado! Resistente pra caramba! — o gordo levantou-se, praguejando com insultos clássicos de Xinluosong. — Batam nele, até morrer!

Ao terminar, seus capangas avançaram com garrafas, mas o líder levou uma garrafada de Han Janfei na cabeça.

Han Janfei então agarrou a mão de Mavis:

— Corre!

Mavis acompanhou, sorrindo, enquanto Han Janfei fechava a porta de metal, trancando os agressores dentro.

A porta não duraria muito; eles correram para fora, montaram na moto e partiram.

Ouvia-se a gritaria dos brutos atrás.

Depois de meia rua, ambos caíram na gargalhada.

Já não eram jovens impulsivos, mas acabaram vivendo uma clássica briga de bar.

Nem Han Janfei nem Mavis tinham interesse em disputas por mulheres, mas um bom quebra-pau com garrafas era uma forma de relaxar.

Após as risadas, Mavis exclamou:

— Você está dirigindo bêbado!

Han Janfei coçou a cabeça:

— Então lembre de tirar meus pontos amanhã...

— Não vou usar meu cargo em benefício próprio! Você deve respeitar as leis. Amanhã vá ao departamento de trânsito receber sua multa...

Conversando e rindo, a moto cruzou a noite da Cidade Porto Celeste, chegando logo à casa de Han Janfei.

Ao abrir a porta, encontrou tudo em desordem: Zhao Xiaonan e Yuan Zhizi encaravam-se no salão.

— Vocês... — Han Janfei franziu a testa — Estão destruindo a casa?

— Quem é ela?

— Por que trouxe outra?

Antes que Mavis pudesse falar, as duas exclamaram ao mesmo tempo.

Han Janfei puxou Mavis, tirando-lhe a peruca.

— Sou eu — Mavis sorriu — O que está acontecendo aqui?

Yuan Zhizi olhou para Han Janfei, sentou-se no sofá bagunçado sem dizer nada.

Zhao Xiaonan abaixou a cabeça:

— Eu... já vou arrumar...

— Deixa pra lá — Han Janfei sorriu resignado. — Vocês trabalharam duro, pode deixar aí. Só arrume a mesa, vou pegar mais bebidas, não bebi o suficiente.

Com Mavis liderando, as três garotas arrumaram a mesa, sentaram-se ao redor e abriram as garrafas.

Depois de um copo, o ambiente ficou mais leve. Han Janfei, já embriagado do bar, logo sentiu o efeito das bebidas.

Passou a falar sem parar: contou como trouxe Mavis de Osmai ao Forte Augusto, como fugiu com Zhao Xiaonan pelos túneis fantasmas, como lutou ao lado de Yuan Zhizi contra os saqueadores da tribo Selo de Ferro...

...

Na manhã seguinte, Han Janfei foi acordado por um tapa. Sentou-se confuso, vendo as três garotas de rosto corado diante dele, sem saber quem lhe batera.

Sacudiu a cabeça, tentando lembrar o que se passara após a bebedeira, mas nada vinha à mente.

Que importa. Sorrindo para as três, pensou consigo.

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No planalto ao norte da Cidade Porto Celeste, a caravana de três veículos seguia lentamente ao norte.

De repente, o primeiro veículo parou, descendo sobre o terreno acidentado.

— O que houve?

— Tem fumaça à frente, parece haver alguém lá — o motorista abriu a porta. — Vou ver.

Aproximou-se e encontrou, perto dos destroços queimados de uma armadura motorizada, um homem caído no chão.

O homem parecia ainda vivo; ao ouvir passos, ergueu levemente a cabeça.

O motorista se aproximou e ouviu-o murmurar:

— Água...

(Fim do primeiro volume)