Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo Trinta e Oito: E se eu disser que foi um mal-entendido

Portador da Morte Normas 3596 palavras 2026-02-09 16:56:15

Satélite Xiazhi, restos da nave de imigração, Vila da Água Azul.

Já se passaram dois longos dias e noites desde a escavação profunda na nave de imigração. Durante esse tempo, a estrutura da nave foi completamente limpa, e os habitantes das tribos Hedong e Ferro Selo se dirigiram aos arredores dos destroços para dar início a uma nova vida.

Ainda restava mais da metade da estação fria, mas a primeira safra de milho de crescimento rápido, cultivado nas profundezas da nave, já estava madura. As pessoas finalmente não precisavam mais se preocupar com a escassez de alimentos.

A nave de imigração foi dividida em duas áreas conforme a proporção da população, e os membros das duas tribos passaram a ocupar gradualmente as cabines aquecidas que haviam sido liberadas. No entanto, o ódio recente, fruto de lutas de vida ou morte, ainda permanecia. Embora, sob a liderança de seus chefes, as tribos evitassem conflitos abertos, não havia nenhuma convivência normal entre elas.

Felizmente, as crianças não carregavam as mágoas dos adultos. Os xamãs das duas tribos começaram a estudar os livros e conhecimentos cuidadosamente selecionados por Han Jianfei e passaram a ensiná-los às crianças.

Tudo parecia caminhar para um futuro melhor. Após mais de dois mil anos de vida em comunidades primitivas, os colonos deste planeta finalmente deram seu primeiro passo em direção a uma sociedade civilizada.

Mas se esse passo significava algo bom ou ruim, e o que ele representava, só o tempo poderia julgar.

No momento em que as órbitas dos dois sóis se afastaram ao máximo da borda inferior do gigante gasoso, Han Jianfei avisou Yuantomoko de que era hora de partir.

Sob os olhares atentos dos membros das tribos, os dois partiram em um caminhão flutuante na direção das minas.

Quando avistou o enorme mecha coberto de neve, Yuantomoko finalmente entendeu como era o inimigo que Han Jianfei havia descrito como “mais forte que o mais vigoroso dos caçadores”.

Especialmente quando viu Han Jianfei pilotar aquele gigante de metal e levá-la até a mina, ela percebeu quão aterrorizante era o adversário que teriam de enfrentar.

E Han Jianfei já havia dito que, certa vez, desmontara oito dessas máquinas com as próprias mãos.

Instintivamente, Yuantomoko apertou a empunhadura da espada pendurada ao lado esquerdo da cintura. Após vários cálculos, teve certeza: diante de um gigante de metal tão ágil, talvez nem tivesse coragem para lutar.

Upton Grant não mentira. Quando chegaram à base de mineração Grant, uma nave estelar já estava atracada, mas, devido à gravidade extrema do satélite Xiazhi, poucos eram capazes de se adaptar, então não enviaram ninguém para recebê-los.

Era uma nave multiuso chamada “Torre do Cume”, supostamente de uso pessoal do senhor Grant.

Han Jianfei não se demorou. Após explicar a Yuantomoko como superar a sensação de peso e o desconforto durante a decolagem na atmosfera, pilotou a nave rumo ao céu azul.

Por causa da gravidade fora do comum, a nave não podia decolar verticalmente; a “Torre do Cume” subiu como um avião, ganhando velocidade dentro da atmosfera antes de finalmente escapar de sua camada densa e entrar no espaço exterior.

Yuantomoko ficou surpresa ao perceber que se sentia mais leve. Com a permissão de Han Jianfei, soltou os cintos de segurança e flutuou na cabine em gravidade zero.

Han Jianfei, ao notar sua curiosidade, não ativou a simulação de gravidade artificial. Só o fez depois de a nave sair do campo gravitacional do gigante gasoso, já nos preparativos para o salto.

Yuantomoko pousou suavemente descalça no chão metálico da nave.

— Esta é a gravidade normal do seu mundo? — perguntou, observando as próprias mãos. — É tão leve...

— Exatamente — respondeu Han Jianfei. — Se você chegasse ao nosso mundo, provavelmente seria considerada uma super-humana.

— Sinto-me... estranha, um pouco tonta.

Han Jianfei, já prevenido, entregou-lhe um saco plástico.

— Para que serve? Vai aliviar o enjoo?

— Não, é um saco para vômito. Se precisar, use-o.

De repente, uma voz feminina sintética soou dentro da nave:

— Atenção: entrada na fila de espera do Portal Estelar. Salto interestelar de longa distância prestes a começar. Tripulação, prepare-se.

— Quem é? — Yuantomoko levou a mão à espada.

— É a inteligência artificial da nave — respondeu Han Jianfei. — Logo você verá a mais grandiosa das criações humanas em todo o universo.

Na primeira vez em que deixou sua terra natal e presenciou o funcionamento do maior edifício já construído pela humanidade — o Portal Estelar —, Han Jianfei não pôde evitar o assombro.

Mesmo agora, ele ainda considerava o Portal Estelar, algo que ultrapassava os próprios limites da imaginação humana, como a maior obra já criada pelo homem.

Logo, no visor holográfico da “Torre do Cume”, ambos avistaram a colossal estrutura conhecida como Portal Estelar.

Chamá-lo de “portal” era impreciso; o nome derivava de sua função. Era uma pista de aceleração com centenas de quilômetros de comprimento e quatro de largura, de onde, em intervalos regulares, partiam braços de aceleração que se estendiam como costelas, fazendo com que a instalação se assemelhasse ao esqueleto de uma serpente gigantesca.

Han Jianfei observava maravilhado aquela máquina ancestral; Yuantomoko, por sua vez, ficou completamente absorta.

— Impressionante — Han Jianfei sorriu, — foi assim também quando vi o Portal pela primeira vez.

Yuantomoko mal ouviu o que ele dizia.

A nave realizou manobras e, lentamente, entrou na área de lançamento do Portal Estelar. Se alguém os observasse de fora, veria um pequeno inseto aproximando-se sorrateiro da cauda de um dragão adormecido.

Os enormes braços-guia do Portal, semelhantes a longos ossos, estendiam-se ao longo da pista de aceleração. Torres de sinal acendiam-se sequencialmente, indicando à nave a direção do salto.

A “Torre do Cume” finalmente posicionou-se no prolongamento da extremidade do Portal e começou a avançar a velocidade constante. Nessa hora, ambos podiam ver a energia brilhante acumulada ao longo da pista. Quando a nave entrou no alcance do Portal, uma força colossal, inimaginável para os humanos, rompeu as barreiras dimensionais, distorcendo e dobrando o espaço.

Se houvesse um espectador, ele veria a nave alcançar uma velocidade quase luminosa num instante, transformando-se de um ponto luminoso discreto em um risco de luz, desaparecendo tão rapidamente quanto surgira, como se jamais tivesse existido.

Mas, para Han Jianfei e Yuantomoko, a sensação era de que a nave mantinha seu ritmo constante; apenas as estrelas diante deles se transformaram em linhas retas, e do lado de fora incontáveis traços formavam uma cortina monocromática, mas de uma beleza singular. Cada estrela parecia uma lança de luz cravada no infinito, todas convergindo para a direção do voo, como se a nave rumasse para uma estrela radiante.

— Se esse tipo de aceleração realmente existisse, viraríamos uma mancha de sangue no chão — comentou Han Jianfei.

Pois aquela aceleração era apenas uma ilusão; na realidade, a nave não excedia um grávit de aceleração padrão. Tudo ao redor, no salto, já estava além da compreensão humana dos limites espaciais.

Por isso, essa viagem de anos-luz era chamada de “salto”: uma técnica que atravessa dimensões e encurta, drasticamente, as distâncias interestelares.

Yuantomoko, sem entender, não se preocupou em buscar explicações científicas. Tudo o que vira naquele dia excedia em muito sua compreensão. Só quando o espetáculo do lado de fora pareceu congelar, ela recuperou o fôlego e suspirou suavemente.

— O ser humano é insignificante — disse, enfim.

Han Jianfei corou levemente. Na primeira vez, só conseguiu balbuciar dois palavrões.

— Mas o ser humano também é grandioso — completou Han Jianfei. — Todos esses milagres que você vê são frutos de gerações e gerações de esforço humano.

— Sim — respondeu ela, acenando com a cabeça. — É verdadeiramente grandioso.

O processo de salto consistia em reduzir ao máximo a distância entre dois Portais Estelares por meio do dobramento dimensional, mas não eliminava totalmente o trajeto. Assim, do Portal de Ulysses no sistema Xiazhi ao de Hermes no sistema Nova Rosom, ainda foram necessários mais de dez dias.

O senhor Grant parecia já saber da chegada iminente da nave “Torre do Cume”. Assim que deixaram o salto e saíram do Portal de Hermes, receberam uma chamada. Ao atender, surgiu no visor holográfico um homem de meia-idade, aparência distinta, com caro casaco de lã, cabelos grisalhos e expressão marcada pelo tempo.

Parecia mais envelhecido do que nos vídeos institucionais.

— Boa tarde, senhor Han — saudou o velho cavalheiro, tirando o chapéu com elegância e inclinando-se levemente. — Bem-vindo a Nova Rosom.

— Melhor dizer “de volta”. — Han Jianfei também fez uma reverência. — Há vinte anos, parti do Portal de Hermes para a frota da Aliança.

— Ah, claro! — O velho Grant sorriu no momento certo. — Quase esqueci que o senhor é um dos proprietários locais. Bem-vindo de volta!

— Obrigado.

— A sede de nossa empresa está na plataforma de órbita síncrona de Nova Rosom — disse Grant. — O código de navegação já foi enviado à Torre do Cume. Nos vemos em breve; também estou a caminho do porto estelar.

Após a chamada, Han Jianfei voltou-se para Yuantomoko, cujo rosto permanecia pálido. Durante toda a viagem, ela lutou contra o enjoo do voo interestelar, e o saco de vômito preparado por Han Jianfei havia sido de grande utilidade. Uma pessoa comum levaria três dias para adaptar-se, mas ela não se recuperara nem após todo esse tempo.

— Não se preocupe — Han Jianfei sorriu, tentando tranquilizá-la. — Já estamos quase chegando.

A viagem até o planeta Nova Rosom não demorou muito. Após um salto curto, a “Torre do Cume” acoplou-se devagar à plataforma orbital do Grupo Grant, coroada por um gigantesco letreiro publicitário.

O som da pressurização ecoou e a comporta se abriu lentamente. Han Jianfei saiu da nave, caminhando ao encontro de um grupo que já o aguardava no salão de desembarque.

Yuantomoko, ainda descalça, desceu cambaleando. Sentiu as pernas fraquejarem, quase caiu, e agarrou-se à cintura de Han Jianfei.

Um sorriso congelou lentamente no rosto da mulher loira que vinha ao encontro de Han Jianfei.

Todos ao redor sabiam: quando a senhorita Sheddon exibia aquele sorriso, alguém logo teria problemas.

Dizem que o pior é quando o silêncio cai de repente.

Especialmente quando uma mulher madura observa, com um olhar enigmático, aquele que considera “seu” homem, e atrás dele aparece uma jovem bonita, pálida, arfando, agarrada à cintura dele — e tudo isso acompanhado de um sorriso igualmente enigmático.

— Hum — Han Jianfei abriu as mãos, sem jeito. — Se eu disser que é um engano, você acredita?