Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo 23: A Chegada da Guerra
Han Jianfei jamais ouvira falar do nome da Companhia de Mineração Grant. Isso era perfeitamente normal, afinal, o território da Aliança se estendia por mais de mil anos-luz, abrangendo dezenas de planetas habitáveis e inúmeras estrelas de mineração; empresas envolvidas em todos os tipos de indústrias, sob os mais variados nomes, eram tão numerosas quanto as estrelas no céu.
Yuan Zhizi seguiu Han Jianfei, adentrando o edifício repleto de dispositivos inacreditáveis para qualquer forasteiro, e logo percebeu que seus olhos não eram suficientes para absorver tudo. Além dos homens de aço de formas variadas, havia portas de ferro que se abriam automaticamente, paredes transparentes, murais em movimento e imagens semitranslúcidas flutuando no ar...
Han Jianfei explicava tudo sorrindo, dizendo o nome daquelas maravilhas e sua utilidade. Embora não compreendesse muito bem, Yuan Zhizi esforçava-se avidamente para memorizar e absorver aquele conhecimento jamais visto em sua vida.
Logo, Han Jianfei parou em um grande salão. Yuan Zhizi o acompanhou e percebeu que no centro do amplo espaço havia apenas um objeto parecido com um enorme prato. Curiosa, perguntou:
— O que é isso?
— Aqui deve ser uma sala de reuniões — respondeu Han Jianfei — mas este é o único computador operacional que podemos usar diretamente.
Já tendo recebido muitas informações naquele dia, Yuan Zhizi não se preocupou em perguntar o que era um “computador”.
Han Jianfei ligou o computador de apresentação da sala e, como esperado, um imenso painel holográfico começou a exibir o vídeo institucional da Companhia de Mineração Grant.
Foi assistindo a esse vídeo que Han Jianfei finalmente entendeu onde estava. Tratava-se de um sistema planetário localizado a mais de trezentos anos-luz do cinturão das estrelas capitais da Aliança, formado por duas estrelas orbitando uma à outra e quatro planetas ao redor delas. O nome oficial da Aliança era “Sistema Estelar Xiazhi”, e o planeta em que estavam era chamado oficialmente de “Satélite Xiazhi”.
Apenas trinta anos-padrão atrás, a Aliança descobrira esse satélite habitável e o designara como Zona de Proteção para o Desenvolvimento Independente da Civilização. A companhia de mineração obteve a licença de exploração vinte anos depois, e, autorizada pela Comissão de Indústria e Comércio da Aliança, iniciou a extração de minério de qin nesse satélite.
Como não havia conexão com a rede interestelar da Aliança, era o máximo de informação que Han Jianfei podia obter.
Ele não pôde deixar de tocar o anel de ferro gelado em sua mão esquerda, que desde a travessia para aquele lugar permanecia inerte. Era difícil imaginar que tipo de civilização, com tecnologia tão aterradora, seria capaz de transportar um ser humano vivo para um planeta a mais de trezentos anos-luz de distância!
O vídeo promocional estava configurado para exibição contínua. Han Jianfei assistiu uma vez; vendo que Yuan Zhizi queria ver mais, saiu para explorar o setor residencial, e ao retornar, encontrou a jovem ainda encantada com os vídeos publicitários repetitivos.
Ele se aproximou, desligou a projeção holográfica e percebeu que o sistema operacional daquele computador era original, contendo um módulo completo de iniciação ao uso de computadores da Aliança.
Abriu então o software didático do sistema e disse à jovem de pés descalços, sempre curiosa:
— Siga as instruções e aprenda por aqui. Eu planejava ensinar tudo isso aos poucos depois, mas, já que está disponível aqui, pode começar a estudar.
Aparentemente, a companhia de mineração não economizara recursos, pois instalara esse sistema de exibição luxuoso, porém pouco prático, numa base de mineração completamente automatizada. Mas, por outro lado, não era todo dia que alguém tinha sua iniciação informática numa máquina comercial caríssima, pensou Han Jianfei.
Depois de acomodar a curiosa Zhizi, Han Jianfei foi até a passarela de vidro entre a área residencial e a de trabalho. Dali, via-se claramente a zona de extração e os escritórios, mas no final da passarela estavam dois robôs armados de guarda.
Se conseguisse entrar nos escritórios, poderia obter mais informações: horários das naves de mineração, registros de operação, ou até saber quando funcionários humanos da empresa apareceriam.
Olhando para os robôs armados, Han Jianfei desistiu de qualquer tentativa forçada. Se ainda tivesse seu escudo cinético, talvez tentasse arriscar.
Afastou-se, e do lado de fora dos dormitórios dos funcionários, encontrou um robô de limpeza. Perguntou casualmente:
— Ei, você sabe quando será o próximo turno de trabalho humano?
O robô parou, seus olhos piscaram alguns instantes:
— Olá, senhor He. Seu pedido de resgate será encaminhado junto à nave de mineração em duas horas e quarenta e três minutos. Assim que a sede receber a informação, entrará em contato imediato com o departamento civil. A previsão é de, no máximo, cinco dias locais para que a nave de resgate chegue a esta base. Até lá, não há nenhum turno de trabalho humano agendado.
Cinco dias locais, se tudo ocorresse normalmente, representariam cinco longos dias e noites, o equivalente a três ou quatro meses em Fort Augustus.
— Há reservas de comida na base? — perguntou Han Jianfei.
— Desculpe, senhor He. Esta base não foi projetada para atividades humanas prolongadas. Considerando a baixa frequência de operações humanas, normalmente não mantemos estoques de alimentos.
— Entendi. E podem fornecer alguma arma?
— Desculpe, senhor He. Segundo as leis da Aliança, não podemos fornecer armas letais a nenhum cidadão da Aliança.
Han Jianfei assentiu, ciente de que não veria outro ser humano por um bom tempo.
Ao retornar à sala de reuniões, encontrou Yuan Zhizi ainda estudando o uso do computador. Ela era inteligente — apesar de não ter base alguma, já conseguia operar o sistema de gestos e marcações sem dificuldade.
— Continue estudando — disse ele —. Provavelmente não sairemos daqui tão cedo. Quando terminar, voltamos à Vila Hedong.
Yuan Zhizi, aprendendo os comandos básicos, levantou a cabeça:
— Não podemos sair?
— Não é bem isso — Han Jianfei balançou a cabeça —, mas só poderemos partir depois de cinco longos dias e noites. Você não disse que a estação fria se aproxima? Talvez não consigamos resistir aqui por tanto tempo.
Yuan Zhizi fez as contas e viu que ele tinha razão.
— Não se preocupe — disse Han Jianfei —. Pode aprender com calma, temos tempo de sobra.
Nos ciclos seguintes, além de comer e dormir, Yuan Zhizi passava todo o tempo na sala de reuniões, absorvendo avidamente os conhecimentos sobre a civilização moderna. Han Jianfei permanecia ao seu lado, explicando sempre que surgia alguma dúvida sobre um conceito difícil.
Como ensinar alguém que jamais teve contato com o mundo moderno a entender rapidamente a civilização? O método mais eficiente, claro, seria através de obras audiovisuais. Mas o computador, sem acesso à rede interestelar da Aliança, tinha pouco conteúdo: apenas o vídeo institucional da Companhia de Mineração Grant e um filme de demonstração do sistema operacional.
Mesmo assim, Yuan Zhizi assistiu a ambos inúmeras vezes, a ponto de Han Jianfei, bocejando ao lado, decorar todas as falas do filme.
Logo, acabaram-se as provisões e a carne de caça que trouxeram. Yuan Zhizi teve de abandonar o “computador”, aquela máquina mágica.
Segundo Yuan Zhizi, se partissem naquele momento, chegariam à vila justamente quando a estação fria começasse. E a estação fria, ali, durava pelo menos dez longos dias e noites — ou seja, quando a nave de resgate chegasse, a região estaria sob a neve, na época mais gelada do ano.
Antes de partir, Han Jianfei deixou uma carta para o possível resgate, em nome de “He Youzai, cidadão da Aliança em apuros”. Explicava que, devido à falta de alimentos na base, precisou retornar à vila dos nativos para passar a estação fria e pedia que deixassem uma nave tripulada ou algum dispositivo de comunicação.
Se o departamento civil da Aliança aceitaria ou não o pedido, dependia da sorte.
Preparados para tudo, Han Jianfei e Yuan Zhizi partiram de volta para a Vila Hedong.
Talvez pelo prenúncio da estação fria, encontraram menos animais no caminho de volta. Precisaram dar uma volta maior para caçar o suficiente, e só conseguiram cruzar as montanhas antes do fim de uma longa noite.
O assentamento mais próximo da entrada da montanha era da tribo das Árvores Altas. Segundo o plano de Yuan Zhizi, trocariam peles de animais por milho e vegetais ali. Porém, ao chegarem ao local, encontraram apenas cinzas e ruínas.
Yuan Zhizi ficou paralisada diante da vila outrora familiar. Os habitantes haviam desaparecido, as casas queimadas até virarem cinzas fumegantes.
Han Jianfei entrou nas ruínas, observando cada detalhe com atenção.
— Há marcas de cascos no chão, de cavalos de guerra ou outros animais de combate — murmurou, franzindo a testa —. Foram atacados de surpresa, um grupo montado invadiu rompendo as cercas.
Foi até onde ficava uma cabana de madeira:
— O fogo começou depois. Além dos aldeões claramente mortos em combate, não há indícios de corpos queimados. Não houve massacre, levaram o povo embora.
Yuan Zhizi, até então em silêncio, falou de repente:
— Foram os da tribo do Carvalho Branco. Só eles gostam de caçar montados em feras, mas não têm tanta gente assim.
Han Jianfei apontou as cinzas quentes:
— Pelo tamanho das fogueiras e o tempo de queima, partiram há apenas dois ciclos de trabalho. Se levaram o povo da Vila Árvores Altas, não devem ter ido longe.
Yuan Zhizi concordou:
— Vamos seguir o rastro.
Caminharam ao longo do rio, e, poucas horas depois, encontraram marcas de cascos, árvores roídas por bestas de guerra e fezes humanas. Calculando pelas evidências, havia quase mil pessoas ali.
E todos os homens, mulheres e crianças da tribo do Carvalho Branco juntos não passariam de trezentos.
Seguiram as pegadas; parecia que os invasores haviam dado uma volta pela floresta, queimando todas as aldeias de cada tribo e levando todos os sobreviventes.
Após dois ciclos de trabalho, perceberam que os saqueadores rumavam para a foz do lago, onde restavam apenas duas tribos: Ébano e Hedong.
Tomados por uma inquietação crescente, os dois chegaram, pouco antes do fim do longo dia, aos arredores da vila da tribo Ébano. A menos de cinco quilômetros dali, avistaram o imenso acampamento dos saqueadores.