Volume II: A Sombra da Morte Capítulo 2: Eles Chegaram
— Meu Deus! Essa criança ainda está viva! — gritou o catador.
O rapaz se levantou e olhou para a multidão ao redor. A garota correu até ele e, chorando, o abraçou com força. Apesar do grosso traje de proteção, ela não sentiu o batimento do coração do menino.
O chefe dos catadores praguejou baixinho, mas a perspectiva de uma fortuna tão próxima logo sobrepujou seu desagrado, e ele rapidamente voltou o olhar para a frota de naves estelares ali perto.
— Ei, você aí! Traga o cortador, pelo amor de Deus, agora sim vamos ficar ricos!
A multidão correu em direção às naves, deixando para trás o jovem casal abraçado. O rapaz virou-se mecanicamente para observar as pessoas que corriam em direção às naves, como se não se importasse nem um pouco com sua namorada.
Ele abriu a boca, mas emitiu apenas sons guturais e indecifráveis. Só então a garota percebeu algo estranho em Edmond, mas não compreendeu de imediato o que estava acontecendo.
O rapaz virou-se para ela e, com uma velocidade além do normal, rasgou uma abertura no traje de proteção da garota. As garras afiadas de seu próprio traje cortaram-lhe a pele.
Assustada, ela percebeu que o oxigênio de seu traje escapava rapidamente, porém seu namorado não lhe deu mais atenção. Em vez disso, sacou uma adaga do coldre preso à perna e lançou-se contra a multidão que corria em direção às naves.
A garota, paralisada de medo, pressionou a abertura do traje com todas as forças, esquecendo-se de alertar os demais sobre o perigo.
Edmond avançou contra a multidão com uma velocidade sobre-humana. Antes que alguém pudesse reagir, cravou a adaga nas costas de um dos catadores. Num movimento rápido, retirou a lâmina e derrubou outra pessoa próxima, ferindo-a mortalmente no peito.
— Bang! — A multidão, finalmente, percebeu algo estranho atrás de si. O chefe dos catadores não hesitou: levantou sua espingarda e disparou, lançando Edmond longe.
No planeta 47, armas de fogo eram raríssimas e proibidas, mas o maior chefe de catadores da cidade sempre dava um jeito de conseguir algo tão valioso.
Com o impacto das dezenas de projéteis de liga metálica, o azarado rapaz foi arremessado para longe. Mas, para espanto dos catadores, após alguns espasmos no chão, Edmond levantou-se de modo impossível, contrariando todas as leis da natureza, e correu novamente em direção à multidão.
Diferente dos outros, o chefe manteve a calma. Recuou o gatilho e, a curta distância, mirou direto na cabeça de Edmond. As dezenas de projéteis atingiram o crânio acinzentado do rapaz, mas, em vez de explodir em carne, a cabeça se fragmentou em inúmeros pedaços duros como mármore.
O rapaz, finalmente, parou de se mover e desabou no chão.
O chefe dos catadores recarregou a arma, aproximou-se do corpo sem cabeça e o examinou. Chutou o cadáver, que estava duro como uma rocha.
— Esse lugar é estranho — disse ele. — Vamos logo, procurem o que for útil e vamos embora o quanto antes!
Ninguém mais prestou atenção ao corpo no chão. Dois ficaram cuidando dos feridos e ajudaram a filha do chefe a vestir um novo traje de proteção, enquanto a maioria se apressou a saquear as naves desconhecidas.
Horas depois, cada veículo dos catadores estava lotado de saques e, em fila, partiram em direção à cidade.
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Xinluossong, subúrbio leste da Cidade do Porto Celeste.
Já se passara meio ano desde a Batalha de Defesa de Xinluossong. Sob a liderança de milhares de profissionais vindos de Baishan, todos estavam empenhados na difícil reconstrução pós-guerra.
Aquele ataque-relâmpago fez todos os governantes de Xinluossong, especialmente os antigos moradores da cidade que agora trabalhavam como gerentes na Corporação Grant, perceberem que, para sobreviver, Xinluossong precisava de uma força militar poderosa.
Por isso, ninguém precisava ser cobrado: todos trabalhavam com afinco. Talvez não soubessem exatamente a dimensão da crise que ameaçava a humanidade, mas as duas frotas da Aliança próximas do Portal Estelar lhes traziam uma sensação concreta de perigo.
Exceto na confusa noite do dia seguinte à batalha, Han Jianfei não teve descanso desde então. Ele não se envolveu diretamente na expansão e na reorganização do exército — havia muita gente da confiança do Sr. Grant encarregada disso.
No segundo dia após a batalha, Han Jianfei voltou sua atenção para as universidades e institutos de pesquisa de Xinluossong.
Durante o período de dominação da Aliança, Xinluossong sempre tinha tido bases militar e industrial frágeis. Han Jianfei não sabia quanto tempo ainda teria, mas todos os seus planos dependiam do apoio desses centros de pesquisa.
— Instituto de Armamentos? — Yuan Zhizi não entendeu por que Han Jianfei a convidara de repente para visitar um instituto de armas.
Depois da batalha, Mavis retornou ao palácio do governador para reassumir seu cargo de diretora executiva; Zhao Xiaonan e Chizhu juntaram-se ao Sr. Grant para treinar a nova tripulação da frota. Só Yuan Zhizi parecia desocupada, e acabou se mudando para o apartamento de Han Jianfei. Passava a maior parte do tempo estudando ciências no computador, aprendendo sobre a história humana ou acompanhando notícias da Aliança, raramente achando algo em que pudesse ajudar.
Veio morar com eles também a Sra. Crawford, que fora assistente de Han Jianfei a bordo do "Anjo da Morte".
Foi então, meio ano depois, durante o café da manhã, que Han Jianfei a convidou para visitar um instituto de armas.
— Quando chegarmos, você entenderá — disse ele, saindo do banheiro e enxugando o cabelo com a toalha. — Vista-se rápido.
Poucos minutos depois, eles embarcaram num carro flutuante autônomo enviado pela corporação.
Nesses dias, Yuan Zhizi já vestia roupas comuns da Aliança, mas nunca se habituou a usar sapatos. Parecia também nunca sentir frio, e seus pés nunca se sujavam. Han Jianfei não se importava que ela andasse descalça.
O veículo seguiu em direção ao leste. Após três horas, entrou numa região montanhosa e, depois de muitas curvas, parou finalmente num heliponto diante de uma caverna.
— Este é o Laboratório de Armaduras Motorizadas 307 — explicou Han Jianfei, saltando do carro diante do portão de aço maciço e sem identificação. — Era o antigo centro de pesquisas de Baishan em Xinluossong; agora está sob o controle do Quarto Departamento de P&D da Corporação Grant.
Entraram pela caverna, atravessaram um túnel estreito e chegaram a um amplo salão.
— Este lugar... É muito parecido com aquele onde estivemos antes de sair da sua capital — comentou Yuan Zhizi.
— Sim, foi projetado com base neste laboratório — respondeu Han Jianfei, sorrindo.
— E o que viemos fazer aqui? — ela ainda estava confusa.
Nesse momento, um pesquisador calvo os avistou na entrada do corredor, largou o painel holográfico e veio apressado em sua direção.
— Sr. Han — cumprimentou o homem, inclinando-se levemente —, senhora.
Graças à Sra. Crawford, Yuan Zhizi já sabia o significado daquele título naquele mundo e não pôde evitar corar um pouco.
— Não diga bobagens — repreendeu Han Jianfei, rindo. — Foi o Gordo Sun que te ensinou isso? Só aprende as besteiras.
Em seguida, apresentou-o à garota:
— Este é Shi Liqiang, diretor do Centro 307, nosso maior especialista em armaduras de combate de Xinluossong. Pode chamá-lo de Dr. Shi.
O calvo sorriu sem graça, aceitando o título que Han Jianfei lhe atribuía.
Yuan Zhizi assentiu, mas não demonstrou interesse em conversar com aquele velho de aparência vulgar.
Shi Liqiang não se incomodou com a indiferença dela e se voltou para Han Jianfei:
— Chefe, aquele tipo de... armadura que mencionou, já temos o protótipo pronto. Veio por causa disso?
Han Jianfei olhou para Yuan Zhizi e concordou com a cabeça.
Guiados por Shi Liqiang, entraram num laboratório onde, ao fundo, estavam expostos vários manequins um pouco mais baixos que o normal, cada um vestido com algo que lembrava antigas armaduras de filmes.
— Essas são as novas armaduras desenhadas conforme seus requisitos e especificações — explicou Shi Liqiang, apontando para os trajes de aparência retrô. — No entanto, testamos exaustivamente os parâmetros que você forneceu, mas os resultados não foram ideais. Sob tais exigências, é difícil para o usuário resistir ao nível de sobrecarga.
— O limite de sobrecarga que estabeleci é o máximo que um usuário pode suportar. Não é preciso discutir isso — respondeu Han Jianfei.
Shi Liqiang assentiu, resignado, e continuou:
— Todas as quatro armaduras cumprem os requisitos, mas cada uma tem um foco diferente.
Apontou para a primeira armadura à esquerda:
— Todas permitem combate de alta mobilidade fora da atmosfera. Esta chama-se "Vingador", voltada para armas cinéticas, com capacidade de direcionar ataques de fogo, como um atirador de elite.
Em seguida, indicou as outras armaduras, apresentando uma a uma:
— Esta é a "Bemon", com proteção reforçada e foco em força ampliada, excelente para operar armas pesadas; esta é a "Fênix", com barreira cinética individual e a maior mobilidade das quatro; por último, a "Ceifadora", de mobilidade intermediária e com ênfase em armas de combate corpo a corpo, ideal para missões dentro da atmosfera.
Embora robustas, todas as armaduras eram quase do tamanho de uma pessoa comum, sem cockpit dedicado — seria preciso vesti-las diretamente.
— Qual você prefere? — perguntou Han Jianfei à garota. — Siga sua intuição, não pense em mais nada.
Yuan Zhizi fechou os olhos por um momento e foi até a última armadura:
— Esta. Acho que combina mais com o estilo de combate de Haishan.
— Quer experimentar? — sugeriu Han Jianfei, sorrindo, e depois pediu a Shi Liqiang:
— Prepare o campo de treinamento simulado.
Mal terminara de falar, uma voz soou de repente no laboratório:
— Desculpe interromper, Han, temos uma emergência.
Han Jianfei reconheceu imediatamente. Era a voz do Zoubí, que naquele momento deveria estar ajudando no treinamento da frota na base da retaguarda do Satélite Um, mas de alguma forma conseguiu acessar diretamente a comunicação do Centro 307.
— Pode falar — disse Han Jianfei, olhando para os dois ao seu lado. — Aqui só tem gente de confiança.
— Eles chegaram! — a voz de Zoubí ecoou claramente para os três. — Agora mesmo, talvez a milhares de anos-luz de distância, mas posso sentir: eles despertaram!