Volume II: A Sombra do Deus da Morte Capítulo 9: A Verdade sobre a Vila de Huangyang?
— Está bem, compreendi. — O coronel Carter assentiu com a cabeça. — O doutor Wang Ji pediu para eu lhe trazer um recado, parece que ele teve algum avanço por lá. Quando tiver tempo, seria bom dar uma passada.
— Vou voltar à superfície para providenciar instrutores para a Academia Militar Xiazhi, depois vou ao encontro de Wang Ji. Prepare tudo para me dar apoio, pois pretendo levar junto pessoal da Aliança e também do grupo de Chen Mingyuan.
— Vai aproveitar para reunir todos eles de uma vez? — Carter lambeu os lábios, animado com a possibilidade.
— Não, ainda não é o momento para isso, mas, de qualquer forma, seja cauteloso. Envie uma esquadra com boa mobilidade, pode deixar com o Bobo no comando.
— Certo, vou providenciar.
— Espere um instante. — Vendo que Carter já se preparava para sair, Han Jianfei chamou Izumi Motoko. — Separe um grupo de soldados com o melhor preparo físico e os insira na academia militar. Ela ficará responsável pelo treinamento de combate corpo a corpo.
Carter lançou um olhar rápido e reconheceu de imediato a jovem que o pessoal de Baishan chamava de “cunhada”. Estava prestes a cumprimentá-la quando percebeu os olhares insistentes de Han Jianfei, que piscava discretamente, e teve de engolir a saudação.
Izumi Motoko aproximou-se e Han Jianfei sorriu:
— Tenho alguns alunos para você, poderia ensinar-lhes como lutar?
Izumi Motoko ficou surpresa:
— Eu?
Seus métodos de combate nunca foram voltados para matar; as técnicas letais que sabia tinham sido ensinadas pelo próprio Han Jianfei.
— O foco é desenvolver o físico, como o treinamento com aquelas poções que vocês usam, mas aqui não temos isso, então pode pegar leve.
Ela hesitou por um instante:
— Farei o possível.
Resolvidas as questões da Academia Militar Xiazhi, Han Jianfei não perdeu tempo. Tomou imediatamente uma nave cargueira que transportava suprimentos entre L2 e Xin Luosong, retornando à superfície.
Ele não sabia quanto tempo ainda restava antes que aquelas criaturas silicificadas eclodissem em sua totalidade.
Se não tivesse passado pela experiência em Huangyang, talvez sua vida não fosse tão atribulada quanto agora.
Se assim fosse, durante todos esses anos em que a liderança da Aliança perdeu o senso de crise, Baishan continuaria a ser o maior fornecedor militar do governo, e ele desfrutaria de fama e fortuna como o mais discreto dos milionários da Aliança, levando uma aposentadoria entediante, cercado de luxos em algum resort de Xin Luosong.
Mas agora, mesmo sendo senhor de um planeta administrativo, parecia não ter escolha além de levar uma vida cheia de preocupações e responsabilidades.
Mal desembarcou, Han Jianfei ligou para Zhao Xiaonan.
A comunicação foi estabelecida, e a imagem holográfica de Zhao Xiaonan apareceu em seu terminal pessoal, vestindo uma regata de treino justa e claramente ofegante, como se tivesse acabado de praticar exercícios intensos.
— Fei, você voltou? — Ela perguntou, respirando fundo.
Desde o atentado na Praça do Memorial da Paz, em Forte Augusto, das três mulheres que o acompanhavam, Zhao Xiaonan era a única que se via como sua subordinada. Por isso, nunca deixava de chamá-lo de “Fei”.
Era assim que os primeiros membros de Baishan o tratavam.
Han Jianfei reprimiu os pensamentos e sorriu:
— Onde você está?
Havia prometido que ela substituiria Zhai Liu como sua assistente, mas nos últimos tempos parecia não ter dado a devida atenção a ela.
— Na Academia Militar dos Fuzileiros, — Zhao Xiaonan respondeu, enxugando o suor com uma toalha. — Acabei de concluir um exercício de ataque e defesa em equipe.
— Espere lá, vou te buscar. — Han Jianfei notou como o cabelo molhado de Zhao Xiaonan se colava à cabeça e sentiu um leve aperto no coração.
— Missão nova? — Um brilho animado surgiu nos olhos dela.
— Não, só queria jantar com você hoje. — Olhando a localização da academia, ele viu que eram duas da tarde; se partisse agora, chegaria a tempo.
— Tá bom. — Zhao Xiaonan baixou o olhar, tentando esconder a alegria que lhe escapava nos olhos.
A primeira vez que ela apareceu diante de Han Jianfei, tinha sido trazida por Zhai Liu, que a recrutou entre civis da colônia de Linghu e a treinou com esmero para se tornar assassina. O objetivo: dar a Han Jianfei o golpe fatal quando ele estivesse mais vulnerável.
Antes da tentativa de assassinato, Zhao Xiaonan só sabia que Han Jianfei era o responsável pela destruição de sua terra natal, Huangyang. Quando fracassou, disse a si mesma que precisava descobrir o motivo da tragédia antes de decidir se o mataria ou não.
Mas nem ela notou quando, na fuga e nos massacres ao lado dele, começou a sentir que não podia mais viver sem sua presença.
Por causa de uma simples frase — “Venha ser minha assistente” —, a tímida e reservada Zhao Xiaonan se esforçou ao máximo para aprender a ser uma verdadeira mercenária.
Quando todos acreditavam que Han Jianfei estava morto sob o bombardeio do canhão principal de um destróier, ela — talvez junto com Mavise — foi a única na Aliança a manter a fé de que ele sobrevivera, defendendo sozinha a base subterrânea fria e isolada.
Assim que soube que Han Jianfei retornara a Xin Luosong, ela invadiu a base, levando o Bobo consigo, para atravessar ilegalmente ao planeta.
Quando ele não pôde regressar a tempo, foi ela quem permaneceu à frente das barricadas do governo de Xin Luosong, resistindo por um mês ao cerco das tropas de elite ODST da Aliança.
Após a batalha de Xin Luosong, ela, silenciosa como uma sombra, recusou o convite de Mavise e também não ficou no grande apartamento de Han Jianfei, indo direto ao lugar onde melhor poderia aplicar o que aprendera: tornou-se instrutora de operações especiais na Academia Militar dos Fuzileiros de Xin Luosong.
Ela se apaixonou pelo ambiente e pela atmosfera do local, onde seu punho e habilidade conquistaram o respeito dos jovens cadetes. O codinome “Mamba Negra”, atribuído a ela por acaso, tornou-se um nome de peso entre os oficiais subalternos da academia.
Após desligar a ligação, Zhao Xiaonan, sorrindo, voltou ao campo de treinamento, onde os cadetes, divididos em duas equipes, aguardavam junto à área de simulação.
— Vamos de novo, troquem os papéis de ataque e defesa. — Ela tirou a toalha dos ombros, revelando braços e abdômen marcados por cicatrizes de ferimentos. — Desta vez, vou defender pelo time F, enquanto o time P ataca pela esquerda.
Quando chegou à academia, os cadetes que participaram da batalha de Cherry Valley a desprezavam, achando-a pequena e frágil, ainda mais jovem que eles. Só mudaram de atitude quando, ao tirar o casaco, ela exibiu braços repletos de cicatrizes, impressionando até os que se julgavam acostumados à morte.
Desde então, os alunos treinados por Zhao Xiaonan passaram a exibir o mesmo espírito combativo e silencioso.
Atualmente, até sua técnica característica de combate com duas submetralhadoras de alta cadência tornou-se o estilo favorito da academia.
Se alguém visse uma garota de shorts e camiseta justa, com duas submetralhadoras na cintura vagando pelo campus, não havia dúvida: era fã da instrutora Mamba Negra.
Os defensores do time F comemoraram ao serem escolhidos, enquanto o time P, responsável pelo ataque, caminhou cabisbaixo para o outro lado.
Desta vez, porém, a instrutora, sempre temida pelo olhar frio, parecia distraída, e o time F acabou perdendo — algo inédito.
Mesmo não sendo ela a comandante direta, o feito seria motivo de orgulho para o time P por muito tempo.
Logo notaram que a instrutora não se incomodou com a derrota; após o treino, segundo relatos das alunas no vestiário, ela até cantarolava baixinho durante o banho.
— Tem coisa aí. — Era o que todos pensavam.
Assim, encorajados por alguém, alguns curiosos seguiram à distância e fotografaram, com câmeras de longo alcance, o momento em que um homem desconhecido a abraçava antes de ela entrar no carro dele.
As fotos, sem edição, foram postadas na intranet da academia sob o título “Que tipo de homem conquista o coração da Mamba Negra?”.
Enquanto as imagens causavam furor no campus, a protagonista, feito um gatinho, sentava-se silenciosa e comportada ao lado de Han Jianfei.
— Como tem passado? — Han Jianfei perguntou sorrindo.
— Bem. — Provavelmente era a primeira vez que os dois estavam sozinhos desde a despedida há mais de um ano em Forte Augusto.
— A Academia dos Fuzileiros é um bom lugar, — comentou Han Jianfei, nostálgico. — Fui instrutor aqui por um tempo, muitos dos líderes de Baishan foram meus alunos.
— Sim.
— O pão cozido do refeitório quatro e o pão doce do refeitório dos instrutores são insuperáveis; em toda a Aliança não se acha comida como essa...
— Sim.
Zhao Xiaonan parecia alheia ao que ele dizia; para ela, bastava escutá-lo.
Assim era ela: implacável no campo de batalha, simples e direta na vida. No fundo, continuava sendo apenas uma garota comum vinda de um planeta colonizado.
Han Jianfei não era exigente para comer; Zhao Xiaonan se importava menos ainda. O carro autodirigido os levou a um restaurante elegante e tranquilo, onde logo estavam acomodados em um salão privado no topo do prédio mais alto da cidade.
Enquanto aguardavam a comida, Han Jianfei não sabia o que dizer.
— Ah, lembrei, — comentou de repente, — mandei projetar alguns modelos de armadura móvel, e um deles, chamado Fênix, acho que combina com você. Quando pode dar uma olhada?
— Quando quiser. — Ela respondeu.
Han Jianfei suspirou:
— Você tem se esforçado muito ultimamente.
Zhao Xiaonan sorriu:
— Não parece o tipo de coisa que você diria.
O silêncio constrangedor voltou a se instalar.
— Então, — disse ele, quando chegaram as entradas, — nunca tive oportunidade de falar sobre Huangyang com você.
Zhao Xiaonan abaixou a cabeça, os cabelos curtos caindo e ocultando o rosto.
Desde que deixara Forte Augusto, não investigara mais o que ocorrera em Huangyang. Os dados que trouxera da base fantasma permaneciam trancados na mala.
Saber a verdade mudaria algo? Ela já não queria matá-lo; saber a verdade só traria mais angústia.
— Posso te contar por que Huangyang foi destruída.
— Não importa mais. — Ela balançou a cabeça.
Na base fantasma, ela teve acesso a muitos arquivos sobre Baishan, e, junto com as atividades recentes de Han Jianfei, já tinha uma ideia do que havia acontecido.
— Tire uns dias de licença na academia, — suspirou Han Jianfei, — venha comigo numa viagem; lá você encontrará as respostas. Ah, e experimente primeiro a armadura que mencionei. Pode ser necessário lutar.
— Está bem. — Zhao Xiaonan assentiu.