Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo Quarenta e Dois: Golpe de Estado
Diante do olhar um tanto preocupado de Mavis, Han Jianfei pensou cuidadosamente antes de responder:
— Não podemos mais esperar, acho que cometi um erro.
Finalmente entendeu: certamente havia um problema com o bilhete que deixara para o velho presidente. Não sabia se o dono da cafeteria agira por intenção ou descuido, mas o fato era que o segredo fora revelado.
Pelo visto, ele vivera com conforto demais nesses últimos seis meses, a ponto de se incomodar com um erro tão primário.
— Volte imediatamente para a base. Enquanto eu não retornar, evite sair de casa ao máximo — Han Jianfei ponderou brevemente, tomando providências. — E jogue fora o comunicador; mandarei alguém trazer um novo para você.
Ele acabara de chegar a Xinluosong, e quase ninguém sabia de seu paradeiro.
Mesmo o plano de tomar Xinluosong como base estratégica para enfrentar oficialmente Chen Mingyuan tinha acabado de ser comunicado.
O senhor Grant dificilmente sabotaria seu próprio investimento, ainda mais nomeando o grupo empresarial com seu próprio nome.
Além disso, se pretendesse trair Mavis, já o teria feito há tempos.
Resta, portanto, que o elo de maior probabilidade de vazamento está na informação contida no bilhete escondido na lata de café — de alguma forma interceptada por Chen Mingyuan ou Zhai Liu.
E o inimigo levou apenas alguns minutos para decidir pelo atentado contra Mavis. Isso significava que outra ação, provavelmente, já estava em preparação.
Portanto, não havia mais tempo a perder.
Separando-se de Mavis, Han Jianfei não perdeu um segundo e, acompanhado de Genko, retornou o mais rápido possível ao apartamento em Xinluosong.
De volta ao lar, onde não punha os pés há mais de um ano, sua primeira ação foi ligar um comunicador de alta segurança, com alcance interestelar.
Era um aparelho semelhante ao que usara para contatar Upton Grant da estação Xiazhi: permitia apenas comunicação direta e exclusiva.
Embora o interlocutor estivesse no mesmo sistema estelar, a ausência de retransmissores oferecia a grande vantagem de quase absoluta inviolabilidade e ausência de interferências.
Após dois toques, uma voz grave atendeu:
— Alô?
— Sou eu — disse Han Jianfei.
— Entendido — respondeu a voz, encerrando a ligação.
Aquele comunicador só podia fazer uma única chamada. Não mantinham contato frequente, mas ambos sabiam: se o aparelho tocasse e fosse Han Jianfei, só havia um motivo.
O toque do comunicador era o sinal para agir.
Após desligar, Han Jianfei ficou alguns instantes olhando para a mesa coberta de poeira.
— Vamos — disse, pois não havia tempo para passar sequer mais uma noite em casa. Em um confronto contra alguém como Chen Mingyuan, cada segundo era precioso.
— Para onde? — perguntou Genko, recém-saída do banho, cabelos ainda úmidos, vestida com roupas novas compradas em Musu naquela tarde, descalça sobre o tapete.
— Para o Castelo Augusto — respondeu Han Jianfei. — A capital da Aliança, e também o reduto do meu atual inimigo.
— Vai ser perigoso? — indagou Genko, enxugando os cabelos com uma toalha macia encontrada no banheiro. — Pelo que aquela Mavis disse, parece que você corre riscos.
— Tem coragem de ir? — Han Jianfei sorriu, pegando a toalha para ajudá-la.
— Tenho — a jovem virou-se docilmente. — Lembro que você disse que suas técnicas de combate foram lapidadas em batalhas reais. Quero ver como é na prática.
— Certo — concordou Han Jianfei.
Enquanto isso, na base da frota local, situada atrás do satélite número um de Xinluosong...
Um coronel saiu do próprio escritório, colocou o boné militar com precisão e fechou o botão da farda com um movimento automático.
Dois oficiais subalternos passaram e lhe prestaram continência.
O coronel, sem parar, retribuiu o gesto, seguindo pelo corredor.
Ao passar diante de outro escritório, bateu levemente à porta.
Um major saiu. Trocaram olhares.
O coronel assentiu. O major respondeu com outro aceno, voltou ao interior, pegou uma pistola que pendurou à cintura.
Prosseguiram, e outros oficiais de escalão intermediário foram saindo de suas salas, uns mais próximos, outros mais distantes, uns apressados, outros nem tanto, seguindo-os discretamente.
Segundo o protocolo das forças armadas da Aliança, além da frota sob controle direto do Departamento de Administração Militar, cada planeta administrativo tinha sua própria frota regional.
Fora de tempos de guerra, a frota da Aliança geralmente apenas defendia o núcleo da capital; a segurança dos demais planetas cabia às frotas locais.
Afinal, mesmo uma Aliança com mais de vinte planetas administrativos e receitas trilionárias não podia manter uma força armada gigantesca cobrindo centenas de anos-luz de fronteiras.
Na teoria, as frotas locais estavam sob administração direta dos governadores nomeados pelo Parlamento, e eram comandadas por generais indicados pelo Estado-Maior da frota da Aliança. Na prática, porém, a maioria das frotas regionais possuía sua própria estrutura de poder e comando.
Embora inferiores à frota principal em escala e prontidão, as frotas locais eram indispensáveis à estrutura militar da Aliança.
Xinluosong, embora na periferia do domínio da Aliança, era uma das mais prósperas do ponto de vista comercial, com receitas entre as maiores dos planetas administrativos.
Por isso, Xinluosong dispunha da frota local mais poderosa de todas, e seu nível de organização e preparo só ficava atrás da frota central da Aliança.
O coronel logo deixou o setor administrativo e, já no tubo de acesso ao comando da frota, cruzou com uma patrulha de fuzileiros armados.
— Coronel Carter — saudou o tenente dos fuzileiros, prestando continência —, desculpe, acabamos de receber ordens do comandante Black: a base está sob bloqueio temporário, nenhum oficial pode deixar a área administrativa.
— O que aconteceu? — Carter devolveu a continência.
— Lamentamos — o tenente balançou a cabeça —, nossa função é apenas cumprir ordens.
— Certo — Carter assentiu, sacando a pistola e disparando.
Enquanto o tenente era morto com um tiro na cabeça, o major atrás de Carter também sacou sua arma, e outros oficiais ao redor fizeram o mesmo.
Os cinco fuzileiros, pegos de surpresa, não tiveram tempo de reagir e caíram sob o fogo à queima-roupa dos oficiais.
Carter guardou a arma e voltou-se para os companheiros:
— Rápido!
O alarme soou imediatamente após o tiroteio. Antes que todas as passagens fossem seladas, os oficiais atravessaram a porta hermética em fechamento e adentraram o comando da frota.
Dividiram-se em dois grupos, conforme o plano. Carter liderou um grupo rumo à sala de comando tático; o major, com outros, foi ao gabinete do comandante da frota, o vice-almirante Black.
— Mãos na cabeça, afastem-se dos painéis!
Na ausência do estado de prontidão, havia apenas quatro oficiais de serviço na sala de comando. Quando a equipe de Carter irrompeu armada, eles entenderam o que se passava e ergueram as mãos.
Apontando a arma para a tenente que operava o sistema de defesa automática, Carter ordenou:
— Cancele o alarme.
A oficial, tremendo, baixou uma das mãos e desativou o alerta.
— Transmita à base que se tratou de um exercício de emergência — Carter gesticulou com a pistola.
A tenente trocou um olhar com outro oficial, nomeado pela frota da Aliança, que balançou levemente a cabeça.
Carter fez um sinal discreto e um dos oficiais aproximou-se, forçando o consultor ao chão e executando-o com um disparo na cabeça.
A tenente estremeceu, assentiu e iniciou a transmissão conforme ordenado.
Poucos minutos depois, o comunicador de Carter emitiu a voz do major:
— Black está sob controle.
Do momento em que Carter saíra do escritório até a completa rendição do vice-almirante Black, comandante da frota local de Xinluosong, não se passaram mais que quinze minutos.
Escoltado até a sala de comando, Black, ao ver os corpos no chão, bradou:
— Coronel Carter, o que pensa que está fazendo? Está se rebelando?
— É um golpe de Estado, almirante — Carter respondeu calmamente. — Xinluosong acaba de se separar formalmente da Aliança.
— Vocês? — Black riu com desdém. — Sabe por que a base da frota fica num satélite?
— Se vai dizer que é para evitar golpes militares da frota local — Carter replicou —, então basta esperar um pouco, logo teremos notícias do planeta.
Mal terminara de falar, o comunicador soou.
Carter transferiu o sinal para o holograma tático da sala.
— O governador já está sob nosso controle. E aí, tudo certo? — a imagem de um agente especial de terno preto surgiu acima da mesa.
— Vocês... ah! — Black mal começara a protestar, quando o major ao seu lado lhe acertou um joelho no abdômen, forçando-o a se agachar de dor.
— O grito que ouviram foi do comandante da frota — Carter explicou.
— Ótimo — assentiu o agente. — Não compliquem nada, profissionais cuidarão do resto.
Carter concordou e desligou o comunicador. Voltou-se para Black:
— Lamento, almirante, mas o governador também está sob nosso poder. Para negociar com a Aliança, ele será repatriado. Você, porém, não terá a mesma sorte.
— Traidor! Jurou lealdade à Aliança! Pode muito bem me matar — Black apontou para o cadáver no chão —, como fez com ele.
— Desculpe — Carter esboçou um sorriso torto —, jurei lealdade a uma única pessoa em minha vida, e não foi à sua Aliança.
— Diga o que quiser, mas se pensa que Xinluosong e sua frota podem enfrentar toda a Aliança, está sonhando! — Black retrucou com sarcasmo.
— Tem tanta certeza de que é só Xinluosong? — Carter rebateu. — Xinluosong é só a primeira peça do dominó.
— Lembra dos rebeldes de Satélite Linghu? — Black lançou —, a Aliança nem mandou a frota; bastou um grupo de mercenários para exterminar aqueles tolos. Lembra-se da vila de Huangyang, arrasada pela frota da Aliança?
— Lembro — Carter riu. — Por acaso, eu era um dos mercenários que destruíram Free Town naquela ocasião.
E, dizendo isso, acenou para que dois oficiais levassem Black preso à cela temporária da base.
— O que fazemos agora? — perguntou o major que primeiro acompanhara Carter.
— Censurem as informações, chamem de volta todas as naves em serviço fora da base — ordenou Carter. — Durante esse tempo, monitorem cada pessoa aqui dentro. Nenhuma nave poderá sair do porto. O restante deixem por conta dos especialistas em terra.