Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo 29: Peço que se sacrifique generosamente

Portador da Morte Normas 3581 palavras 2026-02-09 16:54:36

— Admiração, verdadeira admiração! — exclamou Han Jianfei, aplaudindo e sorrindo. — Se antes o comandante de vocês não fosse aquele velho líder que morreu, mas sim você, temo que agora seríamos nós a nos ajoelhar para negociar. Agora, você apenas recuou um passo, e muitos de nós já consideram suas condições plenamente aceitáveis, prontos para me entregar, o “Portador da Peste”, de bandeja, não é assim? Mensageiro… não, devo chamá-lo de “novo chefe”, não é mesmo?

O semblante de todos ali mudou novamente.

Os olhares se voltaram para o mensageiro, que se mantinha calmo. Ele assentiu com a cabeça:

— Como percebeu isso?

— Não tenho certeza absoluta, foi apenas um palpite — respondeu Han Jianfei. — Apenas achei que, em um clã com o perfil de vocês, alguém capaz de desestabilizar tão facilmente o inimigo com algumas palavras não poderia ser apenas um mensageiro. Além disso, mudar as condições de trégua sem hesitar, ainda mais em um assunto que envolve a morte do antigo líder, não me parece algo que um simples mensageiro pudesse decidir sozinho.

O novo chefe dos saqueadores assentiu:

— Correto, permita-me uma apresentação adequada. Sou Modo, o novo chefe do Clã Selo de Ferro.

Exceto Han Jianfei, todos os presentes — inclusive o patriarca do clã Hedong, Yuan Chongling, e o líder dos caçadores do clã Ébano, Kurya — suspiraram aliviados.

Para quase todos ali, bastava ter como refém o novo chefe dos saqueadores — ou melhor, do Clã Selo de Ferro — que eles aceitariam qualquer condição para a trégua.

— Devo dizer, devo agradecê-lo, Viajante com os Ancestrais — prosseguiu o chefe Modo, ao notar os olhares ardentes dos membros do clã Hedong. — Se não fosse pelo milagre provocado por seu artefato sagrado, temo que nossos dois clãs realmente teriam apenas um destino de aniquilação mútua. Vocês são valentes, mas creio que, no fim, ainda assim venceríamos, mesmo pagando um preço altíssimo.

Acontece que, antes de partir, Han Jianfei disparou um projétil que acertou em cheio a tenda onde estava o antigo chefe do Clã Selo de Ferro. O velho líder e seus quatro filhos aguardavam ali o desfecho da batalha, quando o projétil caiu exatamente no centro da tenda, matando o chefe e três de seus filhos na hora. Somente Modo, que presenciou o terrível momento em que o pai e os irmãos foram despedaçados, saiu ileso, como por milagre.

Ainda mais “milagroso” foi o fato do filho mais velho do chefe — seu herdeiro direto — ter morrido ao avançar com um grupo numa armadilha de minas na encosta.

Assim, Modo, que seria o quarto na linha de sucessão, tornou-se o único sobrevivente da família do chefe, assumindo o comando do clã.

Diferente de seu pai, tios e irmãos, Modo, embora nascido em uma linhagem pura de saqueadores, era um opositor convicto desse caminho.

Desde pequeno, leu um antigo livro que sua mãe trouxera do próprio povo. Ela o ensinou a ler, palavra por palavra, mostrando-lhe um mundo diferente daquele de seu pai e irmãos.

Durante anos tentou convencer o pai a buscar outra forma de vida para o clã, antes que exterminassem todos os povos daquela terra.

Os irmãos zombavam dele, sustentando que saquear era o destino escolhido pelos ancestrais, e que todas as tribos dali eram recursos preparados para eles.

— E se todas as tribos forem destruídas? — Modo chegou a perguntar ao pai.

O velho líder ria e dizia que, em sua vida, na dos filhos e até dos netos, jamais veriam o fim desses povos. Quando isso acontecesse, já teriam regressado ao abraço dos ancestrais, pouco importando o que se desse depois.

Mas agora, graças àquele projétil quase divino, Modo ganhou a oportunidade de liderar todo o clã. Por isso, decidiu vir pessoalmente, sob o pretexto de mensageiro, ao vilarejo do temido clã Hedong, para tentar pôr em prática seu ideal.

— Se ele é mesmo o chefe dos saqueadores — disse Kurya —, temos o problema resolvido. Podemos usá-lo como refém para forçar a retirada deles.

Modo lançou um olhar de desprezo ao chefe dos caçadores:

— Que idiotice!

Kurya quase lançou sua lança contra o inimigo arrogante, mas Han Jianfei o deteve.

— Ele tem razão — declarou Han Jianfei. — Os tios e primos dele provavelmente concordaram que ele viesse como mensageiro esperando que não voltasse. Para eles, seria perfeito se o novo chefe morresse no campo inimigo, ou tombasse heroicamente tentando escapar; assim teriam um motivo legítimo para disputar um posto que não lhes pertence. Esse é o jogo do poder, que enlouquece a todos.

Modo voltou a observar Han Jianfei, que era uma cabeça mais alto que os demais, e fez-lhe uma reverência respeitosa:

— Viajante com os Ancestrais, nesta terra, só você é digno de ser meu confidente.

Yuan Zhizi soltou um leve “hum”, sem se comprometer.

— Então, o que você precisa é de uma cabeça — afirmou Han Jianfei —, para silenciar os opositores do clã e, quem sabe, aumentar sua autoridade.

Modo permaneceu em silêncio, ponderando as palavras de Han Jianfei.

Demorou alguns instantes antes de responder:

— Se for suficiente para calar aqueles tolos, um vivo também serve. Além disso, acredito que você, em meu clã, teria papel ainda maior do que aqui. Poderíamos, juntos, construir uma grande... civilização? Usei bem o termo?

Han Jianfei sorriu e assentiu:

— Perfeito. Mas, creio que uma cabeça seria mais apropriada. Que tal esta?

Ele apontou para a velha xamã.

— Uma xamã, que usou magia para atacar seu acampamento e matou o antigo chefe. Você, como sucessor, invade sozinho o território inimigo e retorna levando a cabeça da culpada para honrar o espírito do antigo líder. Que tal essa história?

Modo voltou a refletir, avaliando a viabilidade da proposta.

— É uma boa história — disse, negando com a cabeça —, mas muitos viram você. Não será fácil explicar tudo como feitiçaria.

A velha xamã, enfim, entendeu o que se passava e gritou:

— Maldito agouro, como ousa negociar minha vida com o demônio num trato imundo! Eu te amaldiçoo! Um dia apodrecerás num pântano fétido, torturado pelos próprios descendentes!

Han Jianfei deu de ombros:

— Sei que está me xingando, mas, desculpe, não entendo o que diz.

E então, voltou-se para Modo:

— Seu povo precisa de uma história perfeita, não da verdade, certo?

Modo sorriu:

— Exatamente.

— Então — Han Jianfei olhou para Yuan Chongling, que já mal se aguentava em pé —, patriarca, pelo futuro do clã, convença a grande xamã a sacrificar-se. Garanto que o clã lembrará de todos os seus sacrifícios.

Yuan Chongling olhou em silêncio para a velha xamã, que estava apavorada.

Han Jianfei também a encarou, com olhar gélido.

Ele não era nenhum santo, e para quem desejava sua morte a qualquer preço, mesmo ao custo da divisão do próprio clã, não reservava compaixão ou piedade.

— Velha — disse Yuan Zhizi, vendo a hesitação do pai —, por favor, sacrifique-se pelo clã, com generosidade!

Quer Han Jianfei tivesse vindo ao vilarejo ou não, quer tivesse ou não retornado da mina, os saqueadores um dia invadiriam aquelas terras e devastariam todos os clãs.

A guerra e a morte não tinham relação com o forasteiro.

Na verdade, foi o forasteiro quem salvou a maioria dos membros de dois clãs condenados à extinção.

Para ela, a velha xamã talvez tivesse realmente visto Han Jianfei envolto em sangue, fogo e morte, mas não sabia que, além de trazer destruição, ele também podia salvar vidas.

A velha xamã, no entanto, sempre se aproveitou do próprio conflito para tentar eliminar o salvador dos dois clãs.

Para Yuan Zhizi, era o único, e motivo suficiente, para merecer a morte.

Como o pai hesitava, presa às lembranças do passado, ela tomou a decisão em seu lugar.

— Zhizi! — gritou a velha xamã, apavorada ao encarar a menina descalça que criara como neta. — Você… você…

O patriarca seguia em silêncio, enquanto Yuan Zhizi falava, pausadamente e em tom calmo:

— Quando o chefe exigiu a cabeça de Han Jianfei como condição para a paz, todos aqui, no fundo, concordaram, não foi?

Ela olhou, um a um, para todos os presentes, e ninguém ousou encará-la de volta.

— Agora, basta que a velha sacrifique a própria vida, os saqueadores partem e ainda recebemos a compensação prometida. No fundo, é isso que todos querem, não é?

Sim, era o que todos pensavam, mas ninguém teve coragem de dizer.

— Portanto, velha, se é para salvar centenas de vidas ao custo de uma só, sacrifique-se!

A xamã olhou para o patriarca, que continuava calado.

Naquele momento, o silêncio era o consentimento de todos.

A velha xamã cessou as maldições e a raiva; um lampejo de tristeza brilhou nos olhos turvos.

Tinha oitenta e quatro anos, era a mais longeva do clã, e a maioria, inclusive o patriarca, crescera sob seus cuidados.

Agora, usariam seu sangue para garantir a sobrevivência do clã.

Aos seus olhos, o forasteiro era o responsável por toda a tragédia, e tudo o que fizera fora pelo bem do povo.

Mas eles escolheram o estrangeiro, não ela.

A xamã murmurou palavras incompreensíveis, rejeitando a própria vida.

Treinada desde criança para ser xamã, viveu só, protegendo o clã Hedong até o último sopro. Se o clã queria sua vida, que a tomasse!

Ainda assim, era orgulhosa demais para permitir que outro lhe tirasse a vida.

No derradeiro instante, seu olhar pareceu atravessar o espaço e o tempo, vislumbrando um futuro não muito distante.

Naquele mar de estrelas, viu guerreiros de Hedong, Ébano, Saqueadores e tantos outros, sob a liderança do homem agourento, travando uma guerra colossal contra uma entidade desconhecida e aterrorizante, com incontáveis mortos ao longo dos séculos.

— Ele acabará levando vocês à morte… — suspirou a velha xamã, e partiu.