Volume I: Destruição e Renascimento Capítulo 27: Quando se tem um alvo no coração, qualquer arma é um rifle de precisão

Portador da Morte Normas 3584 palavras 2026-02-09 16:54:21

No meio do estrondo ensurdecedor da antiga pistola de pólvora, repleta de defeitos, mas de poder devastador, Han Jianfei, acompanhado por uma dezena de caçadores, rapidamente rompeu o cerco e reuniu-se com Motoko Minamoto, que estava isolada. Ao seu lado, todos os caçadores jaziam mortos; restava apenas ela, resistindo com bravura. O braço esquerdo pendia inerte ao lado do corpo, sinal evidente de ferimento; a trança, que por anos estivera presa no topo da cabeça, fora cortada, e os cabelos, misturados de sangue e suor, grudavam-se aos seus traços, colando-se à face.

O corpo inteiro, encharcado em sangue, já não denunciava a quem pertencia o líquido escarlate: se a ela ou aos saqueadores tombados. Nesse instante, Han Jianfei sentiu uma compaixão inesperada por aquela jovem tão resistente.

Trocando rapidamente o tambor de munição, aproximou-se e disse:
— Vamos levar você para casa primeiro.
— Está bem — respondeu ela, com voz fraca.

Han Jianfei virou-se, segurou o cabo de sua lâmina, e com os caçadores reunidos, formou um círculo em torno de Motoko para protegê-la. Um dos saqueadores avançou, mas Han Jianfei, com um tiro certeiro na testa, pôs fim a mais uma vida. Aqueles homens jamais tinham presenciado uma morte tão estranha; por um momento, hesitaram em avançar.

Erguendo a arma, Han Jianfei mirou outro inimigo — desta vez, um líder secundário. O estrondo do disparo ecoou, e o saqueador caiu morto, atingido no olho, despencando da besta de guerra. Os saqueadores, acostumados à brutalidade, sentiram temor diante daquele homem estranho, que matava com simples apontar de seu artefato misterioso, acompanhado de um estampido aterrador.

— Ele é um demônio! — gritou alguém, tomado pelo pânico. — Ele mata com maldições!

O grito foi abruptamente silenciado: o “demônio” ergueu sua arma, e mais um estrondo fez tremer a todos. A maldição perfurou a garganta do infeliz, e o sangue jorrou por entre os dedos que tentavam estancar o ferimento. Tombou ao chão, debatendo-se, até que a vida o abandonou.

Cenas tão horrendas levaram os saqueadores a recuar. Do norte, soou um corno grave, trazendo alívio tanto para saqueadores quanto para caçadores dos dois clãs. Os inimigos à frente de Han Jianfei, como se libertos de um transe, montaram rapidamente suas bestas, puxaram as rédeas e bateram em retirada.

Após quase uma hora de combate, e deixando atrás de si uma centena de cadáveres, os saqueadores finalmente recuaram. Os caçadores, exaustos, desabaram na terra enlameada e ensanguentada.

Pagaram o preço de doze vidas, mas abateram dez vezes mais inimigos — algo antes inimaginável. Logo, o primeiro grupo de defensores foi substituído; Motoko foi levada ao xamã para tratar os ferimentos. Enquanto os caçadores respiravam aliviados, Han Jianfei, olhando para os saqueadores em retirada, não sentia o mesmo alívio.

Apesar de terem perdido centenas nos últimos dias, os saqueadores ainda contavam com quase mil cavaleiros. Não estavam habituados a adversários tão difíceis, mas se o chefe deles não fosse tolo, logo encontrariam uma solução.

A defesa acabara de suportar o primeiro embate; ninguém podia garantir que aquela muralha improvisada resistiria ao próximo ataque.

Kuria, ao notar o silêncio de Han Jianfei, ofereceu-lhe uma bolsa de água.
— Obrigado — agradeceu, bebendo um gole.

— Algum problema? — perguntou o chefe dos caçadores, percebendo a inquietação daquele homem, capaz de operar milagres entre os dois clãs.

— Se os saqueadores não tivessem recuado, eu não estaria tão preocupado. Agora, sinto que algo nos escapou — devolveu Han Jianfei a bolsa.

O chefe ponderou:
— Temes que tenham algum trunfo escondido?

— Nossa muralha pode deter um assalto frontal das bestas de guerra; e, sem meios de ataque à distância, fora das montarias, a capacidade de luta deles é inferior à dos nossos caçadores. Em teoria, não deveria haver motivo para preocupação, mas tenho a sensação de que as coisas não são tão simples — murmurou Han Jianfei, olhando para o coldre da pistola à cintura. Restavam-lhe cerca de quarenta balas; foi graças ao poder de dissuasão da arma que conseguiu resgatar Motoko do cerco.

Quando a munição se esgotasse, a pistola seria inútil — menos que sucata.

De repente, Han Jianfei ouviu um som familiar, capaz de gelar o sangue de qualquer combatente testado pelo fogo da guerra. Era um som entre o apito e a flauta; seu corpo reagiu antes da mente. Instintivamente, gritou aos caçadores da segunda linha na muralha:
— Abaixem-se!

Num movimento ágil, agarrou o chefe dos caçadores pelo pescoço, forçando-o ao solo. O som se aproximava, e só então Han Jianfei se deu conta do nome da arma, muito além da época de Haishan.

— Morteiro! — gritou, mas sua voz foi engolida pelo estrondo da explosão. O antigo morteiro de 60 milímetros não era preciso; o projétil ultrapassou a muralha e destruiu uma casa.

Durante todo esse tempo, Han Jianfei raciocinava dentro dos limites da civilização de Haishan, equiparando os saqueadores a povos primitivos; mas, se até mesmo tribos pequenas como a do Leste possuíam relíquias como pistolas, não seria absurdo o clã de saqueadores, com mais de mil guerreiros, possuir um artefato guardado a sete chaves.

Pelo visto, raramente usavam tal “relíquia” em suas campanhas, pois não dominavam a técnica de mira. Mas o segundo projétil veio logo em seguida, desta vez com mais sorte: explodiu junto à muralha, rasgando uma brecha de mais de dois metros.

Quando o estrondo cessou, Han Jianfei ergueu-se atrás do muro, sem se preocupar com a poeira nos cabelos, puxou Kuria de pé e berrou aos caçadores, paralisados de medo:
— Preparem-se para lutar!

— O que é aquilo?! — exclamou Kuria, apavorado ao ver a abertura na muralha.

— Morteiro! — respondeu Han Jianfei, dando tapas no rosto entorpecido do chefe, como um instrutor com novatos. — Acorde! Ponha seus homens a postos, o inimigo está a caminho!

Vendo ao longe o enxame de bestas de guerra, Kuria recobrou o discernimento, reuniu os caçadores e preparou a defesa. Outro projétil, assobiando como trombeta da morte, caiu na clareira da aldeia; a onda de choque lançou dois aldeões pelos ares.

— Um meteoro! Um meteoro! — gritou o velho xamã, rouco, apontando para Han Jianfei. — É obra tua! Tu nos trouxeste guerra, dor e morte!

Os olhares aterrorizados e desconfiados dos aldeões recaíram sobre Han Jianfei. Ele balançou a cabeça: se as coisas continuassem assim, o moral de todos seria destruído; era preciso eliminar o morteiro imediatamente.

Ignorando as pragas do xamã, Han Jianfei puxou Motoko, recém-bandada:

— Consegue lutar?

Diante do olhar ansioso dele, ela assentiu.

— Esqueçam as reservas, tragam todos para segurar a brecha! — ordenou. — Eu vou acabar com aquele morteiro.

— Certo — respondeu a jovem de pés descalços, com habitual prontidão.

— Vá — disse o ancião chefe de pele, surgindo de uma casa. — Nós manteremos a defesa aqui.

— Chefe! — esganiçou o velho xamã. — Este homem exala o fedor da morte; ele nos levará à destruição!

— Vovó — respondeu Motoko —, se não fossem eles, já estaríamos mortos nas mãos daqueles lá fora.

O xamã quis protestar, mas o chefe levantou a mão:

— Falaremos disso quando vencermos.

Fez um gesto de aprovação a Han Jianfei:

— Vá.

Outro projétil caiu no rio a oeste, levantando um repuxo gigantesco.

— Avisem a todos: não temam, aquilo é apenas uma arma, e os saqueadores não sabem usá-la direito — instruiu Han Jianfei ao chefe e sua filha.

Dito isso, correu em direção ao rio.

— Ele não vai fugir, vai? — murmurou um caçador.

— Não — respondeu Motoko, balançando a cabeça. — Se fosse fugir, já teria ido.

O avanço inimigo não deixava tempo para dúvidas. Han Jianfei, sem hesitar, mergulhou nas águas e, rio acima, nadou para o norte, sob o manto noturno.

Após mais de uma década de aposentadoria, jamais imaginara que um dia voltaria a executar uma missão “suicida” como em seus tempos de elite. A diferença era que, desta vez, o inimigo era um povo primitivo, de força individual imensa, mas sem equipamentos técnicos.

Enquanto nadava nas águas geladas, Han Jianfei pensou: se um dia sua história fosse contada a desconhecidos, que absurdo pareceria — armado apenas de uma pistola e quarenta balas, cruzar dois quilômetros de rio em plena guerra primitiva, para destruir a posição inimiga de morteiro.

Mas os gritos e o frio da água o fizeram lembrar: aquilo era real. Sem apoio, sem informações, sem equipamentos, infiltrava-se em território hostil — o cotidiano de Baishan.

Quase sentia saudade daquela vida.

Durante a travessia, manteve-se atento aos sons acima. Após mais dois disparos dos saqueadores, localizou a posição inimiga: um pequeno aclive atrás do acampamento, onde, sem qualquer preocupação tática, haviam deixado o morteiro exposto.

Subiu discretamente pelo outro lado do aclive. Espreitando do topo, viu, a pouco mais de cem metros, dois saqueadores, desajeitados, alimentando o pequeno morteiro, com duas caixas de munição ao lado. Se tivesse um fuzil automático, poderia eliminá-los sem esforço.

Mas só tinha uma pistola.

A arma entregue pelo velho chefe era de caça a grandes animais, poderosa, capaz de matar com um tiro certeiro, mesmo àquela distância. Contudo, tentar acertar alvos a cem metros com uma pistola era, no mínimo, insensato.

Han Jianfei ponderou e decidiu apostar.