Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo Nove: Jasmin e o Bule de Estanho

Portador da Morte Normas 3390 palavras 2026-02-09 16:51:45

A bordo da lancha de transporte, envolto em uma armadura motorizada negra, Han Jianfei observou enquanto toda a Plataforma Moisés realizava mais um salto e desaparecia. Só então ordenou a Dobby que ajustasse a rota em direção ao Castelo Augusto.

Ele havia instruído Dobby a deixar discretamente um avatar autônomo na Plataforma Moisés; caso a situação em Xinluosong fugisse ao controle, esse avatar entraria em ação para proteger Mavis e eliminar qualquer um que ousasse desobedecer.

Optou por não contar isso diretamente a Mavis, pois sabia que ela desejava resolver sozinha a questão dos mais de quinhentos criminosos que ali estavam—se realmente conseguisse, o avatar de Dobby jamais se manifestaria.

Depois, era preciso que ele próprio lidasse com seus múltiplos problemas.

Precisava dar uma lição em Chen Mingyuan, ao menos para que este se contivesse; precisava mostrar seu poder aos grandes nomes do Parlamento, pois só assim conquistaria mais apoio dentro da Aliança; e também precisava encontrar seu assistente e parceiro mais próximo, Zhai Liu, e entender por que ele o havia traído.

Como Mavis dissera antes de partir, dificilmente alguém dentro da Aliança apoiaria o que ele pretendia fazer.

Porque sua intenção era criar uma força independente e autônoma, capaz até de rivalizar com a própria Aliança—algo que, para aqueles dos quais ele esperava auxílio, equivalia a retirar castanhas do fogo com a mão do tigre.

Mas, desde que haja interesses em jogo, todo negócio é negociável—assim aprendera ao longo dos anos.

Por isso, sentia ser necessário conversar antes com aquela figura de influência que sempre o apoiara, ainda que, neste episódio, tal figura tivesse assumido um papel pouco lisonjeiro.

Faltavam apenas alguns meses para as eleições, e Han Jianfei julgava imprescindível esse diálogo.

A Aliança era regida pelo sistema parlamentarista de gabinete, no qual o Primeiro-Ministro, indicado pelo Parlamento, exercia o poder máximo. O presidente, chefe de Estado da Aliança, costumava ser um político aposentado, ocupando um cargo meramente honorífico e de equilíbrio entre as diversas facções parlamentares.

Assim, todos conheciam o nome de Higashino Ya, o Primeiro-Ministro, mas poucos sabiam que o presidente se chamava Feng Pinghai.

E foi exatamente por isso que Feng Pinghai se tornara o aliado mais sólido e confiável de Han Jianfei dentro da Aliança.

Afinal, sempre que o presidente precisava realizar algo inconveniente ou que escapava às suas forças, a Companhia Baishan era a executora ideal.

Na condição de presidente vitalício e sem poderes reais, Feng Pinghai não residia na mansão oficial construída pela Aliança, mas sim em uma vila cercada por montanhas e lagos.

Apenas o quadro de funcionários de sua residência e alguns altos funcionários do governo sabiam que o presidente tinha um pequeno passatempo: quase todas as tardes, descia até a cidadezinha ao pé da montanha e, como um ancião comum, sentava-se por duas horas em um café chamado “Jasmim e Bule de Estanho”, saboreando uma xícara de café.

O café raramente estava cheio. Assim que o presidente recebeu sua bebida, uma jovem de cabelos curtos sentou-se à mesa atrás dele.

A moça vestia um moletom preto, usava grandes óculos de armação escura e ouvia música em fones de ouvido retrô, completamente absorta em seu próprio mundo.

O chefe de gabinete do presidente lançou apenas um olhar à cena e logo baixou a cabeça, enquanto o presidente sorria e largava o jornal.

A porta do café se abriu novamente, e um homem sorridente aproximou-se e sentou-se diante do presidente.

O chefe de gabinete ficou imediatamente tenso, pois reconhecera o homem.

Era o fundador da Companhia Baishan, o misterioso Han Jianfei, recentemente procurado como terrorista.

O chefe de gabinete hesitou, ajustou os óculos e se preparou para intervir.

Mas o presidente fez um gesto, impedindo-o, e sinalizou aos agentes de segurança secreta à distância que não havia motivo para preocupação.

— E o café, está bom? — Han Jianfei sentou-se e perguntou casualmente.

— Nada mal — respondeu o velho presidente, sorrindo e levando a xícara aos lábios. — Gosto do macchiato daqui. Quer experimentar?

Han Jianfei balançou levemente a cabeça. — Pessoas idosas deviam evitar café, especialmente os com creme e caramelo.

Em seguida, chamou o garçom e pediu um café preto.

— Esse seu café — o presidente só voltou a falar quando a bebida de Han Jianfei foi servida —, sempre o chamam de americano. Nunca soube o motivo, mas não acho que tenha nada de americano.

— É puro, e não tão forte, não é? — Han Jianfei tomou um gole, deixando o amargor e o aroma tostado se espalharem pela boca.

— Nem sempre o que é puro é o melhor — ponderou o presidente. — Por isso, seu café é o mais barato, mas não é o mais vendido. As pessoas preferem misturas com muito leite, creme, até chocolate.

Han Jianfei refletiu em silêncio e assentiu, concordando com o presidente.

Era apenas uma xícara de café, mas os dois conversaram longamente sobre assuntos que Zhao Xiaonan e Zhou Rong — o assessor de óculos do presidente, aquele mesmo que falara com Han Jianfei no abrigo secreto — não conseguiam compreender. A maior parte do tempo, falavam sobre café.

— A Aliança é como o seu macchiato — disse Han Jianfei —, tem caramelo, tem creme; só misturando é que se obtém o verdadeiro sabor da Aliança. Não pode ser só café, ou não seria uma aliança.

O presidente riu: — Mas se houver bactérias dentro, o café perde o sabor. Pode até matar alguém.

Han Jianfei sorriu de si para si: — E se o aroma do café vier justamente dessas bactérias?

O presidente respondeu enigmaticamente: — Sabia que, antigamente, havia um tipo chamado café de civeta, cujos grãos precisavam fermentar no intestino desse animal e eram expelidos nas fezes? O aroma era inconfundível. Quem gostava, pagava caro; quem não, sentia repulsa.

Zhao Xiaonan sentiu-se enjoado ao ouvir isso, mas Han Jianfei parecia acostumado: — E o senhor, presidente, aprecia café de civeta?

O presidente riu alto: — Um velho como eu não sai por aí procurando café de civeta. Mas se me oferecerem, não recuso.

— Por coincidência, tenho um pequeno pote desses grãos em casa, em Xinluosong. Essa civeta é nativa do planeta Danúbio, já está ameaçada, e não é fácil encontrar suas fezes. Se o senhor gosta, trarei um pouco quando vier ao Castelo Augusto.

O olhar do presidente tornou-se indecifrável. Após uma pausa, perguntou cauteloso: — O macchiato da Aliança não lhe agrada?

— Até gostaria de beber — Han Jianfei ergueu a xícara, saboreando um gole. — Mas tem gente que não quer me ver tomando, não é?

O presidente tamborilou na mesa com os dedos: — Talvez você esteja sentado muito ao centro, atrapalhando os outros. O salão é grande, mude-se mais para o lado. Ainda assim, todos podem comer na mesma mesa.

Han Jianfei resmungou: — Nem bebi do copo dos outros, mas além de não me deixarem tomar, ainda querem tirar minha xícara.

O presidente suspirou: — Jovens são desconfiados. Conflitos acontecem. Se cada um ceder um pouco, trocar algumas palavras amáveis, e se afastarem, tudo se resolve.

Han Jianfei balançou a cabeça, sorrindo: — Posso fazer uma pergunta indiscreta? Não se zangue. Imagine que, enquanto dorme tranquilamente, alguém invade sua casa, leva sua esposa e ainda lhe dá uma facada. O senhor acha que isso pode acabar bem?

O presidente corou, e apontando para Han Jianfei, riu entre aborrecido e divertido: — Seu moleque, zombando de mim! Estávamos a falar de café, e você vem com essas insinuações?

Han Jianfei sabia que, em sua juventude, o velho presidente vivera uma história pouco conhecida de disputa amorosa. Por isso, respondeu descaradamente: — O senhor é generoso, não levo a mal. Mas veja, não é o mesmo caso de quem vira minha mesa ou rouba minha xícara?

O assessor Zhou Rong, ao ouvir a conversa aparentemente trivial, tremia por dentro, receoso de que depois o presidente mandasse eliminá-lo.

No entanto, o presidente não insistiu no assunto. Sabia que Han Jianfei não era homem de engolir desaforos. Assim, mudou de tema: — Mesmo que não beba o café dos outros, não precisa destruir a cafeteria, não é?

Han Jianfei falou sério: — Para ser franco, ainda não decidi. Por enquanto, só não vou beber desta xícara. Se vou abrir minha própria loja ou demolir esta, verei conforme o caso.

— Se demolir, todos os clientes antigos vão querer vingança. Não vale a pena.

— Então abro a minha. Se o sabor for bom e o preço justo, os antigos também virão. No mínimo, hoje bebo aqui, amanhã acolá. Sempre há opções — ou então, o senhor me apresenta alguns clientes fiéis?

O presidente suspirou, calando-se.

— Não vou mexer agora com quem roubou minha xícara — continuou Han Jianfei —, mas precisa de um corretivo. Talvez jogar um pouco de urina no copo dele, ou pisar nesta mesa. Não posso deixá-lo satisfeito.

O presidente ficou um tempo em silêncio e disse: — Não exagere. Não se esqueça do episódio em Huangyang. A Aliança está longe de estar em paz.

Ao ouvir o nome de Huangyang, Zhao Xiaonan imediatamente ficou alerta.

Han Jianfei assentiu: — Por isso é melhor agir rápido. As eleições estão chegando. Se eu fizer algo, acaba sendo bom para o senhor também, não?

Aos setenta e seis anos, o presidente resmungou: — Besteira! Sou só um enfeite, que me importam as eleições?

Han Jianfei riu: — Não precisa disfarçar comigo. Sei que há uns poucos no Parlamento que seguem suas orientações. Dê-me uma lista, prometo não tocar nesses.

O velho pensou um instante: — Certo, peço ao Zhou que lhe entregue.

Han Jianfei insistiu: — E se me desse outra lista? Faço uns serviços extras para o senhor, de cortesia.

Feng Pinghai olhou-o fixamente, sem responder.

— Já que levo a culpa, por que não?