Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo 56: Vocês comeram demais
Zhai Seis foi o primeiro a levantar-se e sair do salão. Durante todo o tempo, ele não pronunciou uma única palavra; apenas escutou em silêncio e partiu sem fazer alarde.
Atrás dele, algumas pessoas o seguiram, saindo aos poucos. Contudo, a maioria permaneceu no local, procurando, inquietos, por alguém de quem pudessem obter informações ou com quem pudessem conversar.
O plano de Zhai Seis para assassinar o Chefe, chegando ao ponto de usar inclusive o canhão principal do destróier, já não era segredo algum em Baishan. Mas o Chefe, ao retornar hoje, não só deixou de tomar qualquer atitude contra Zhai Seis, como também expôs todos os problemas abertamente, permitindo que cada um escolhesse por si mesmo.
Terá o Chefe enlouquecido? Ou terá, com a idade, tornado-se benevolente ao ponto de perdoar até os traidores?
Claro que não; ao menos Han Jianfei nunca pensaria assim. Para começar, jamais cogitou matar esse assistente que considerava um irmão. E mesmo que quisesse, não seria com uma simples ordem que alguém apareceria para “proteger o chefe e eliminar o traidor”.
O poder de Zhai Seis estava exposto para todos verem; desde o início, Han Jianfei nunca pretendeu retomar Baishan completamente.
Quando se certificaram de que Han Jianfei não tinha mais nada a dizer, os altos escalões de Baishan foram saindo do salão aos poucos. Havia informações demais para digerir, e era preciso tempo para processar tudo.
Sun Shi, o Gordo, permaneceu ao lado de Han Jianfei até que todos tivessem partido. Só então, com expressão aflita, falou:
— Falei há pouco com alguns lá embaixo. Essa notícia foi repentina demais, e o tempo, muito curto. Muita gente simplesmente não teve tempo de se preparar.
Han Jianfei balançou a cabeça:
— Não tenho muito tempo. Assim que resolver as coisas aqui, tenho assuntos ainda mais importantes a tratar.
O Gordo enxugou o suor da testa:
— Se tivéssemos mais alguns dias, calculo que pelo menos trinta por cento iriam com você. Mas com só dois dias, talvez nem vinte por cento partam.
Han Jianfei não respondeu à observação e mudou de assunto:
— Onde fica o escritório do Seis?
O Gordo se surpreendeu, e Han Jianfei continuou:
— Terminei o que tinha de tratar oficialmente. Agora, preciso conversar em particular com ele sobre uma promessa feita no avião. Quando vai me deixar visitar a Base Fantasma?
Enquanto falava, jogou sobre a mesa do escritório um cartão de armazenamento holográfico.
Zhai Seis lançou um olhar ao cartão, reconhecendo de imediato o mapa completo dos condutos subterrâneos de Augustus.
— Meus homens já se retiraram. Pode voltar quando quiser. Até você partir, ninguém dos meus irá lá.
— Era para entregar aquilo a você mesmo, disse Han Jianfei. No interior dos condutos instalei tudo que pode servir para enfrentar aqueles monstros. Use bem.
— Sim, irmão Fei.
Ele sempre pensara que aceitar o plano de Chen Mingyuan e tentar assassinar Han Jianfei era uma forma de evitar que esse dia chegasse. Contudo, Han Jianfei veio, sem ódio, sem mágoa, sem decepção ou repreensão. O homem que sempre tomara como um irmão mais velho fez apenas uma coisa: deu a cada pessoa de Baishan o direito de escolha.
Pensando bem, se Han Jianfei tivesse realmente morrido por suas mãos, a menos que ninguém mais soubesse, Baishan talvez não fosse aquilo que ele ou Chen Mingyuan desejavam. O mais provável é que os velhos aproveitassem para criar confusão, destruindo tudo pelo que ele tanto lutara.
Em vez de esconder, era melhor que Han Jianfei levasse embora aqueles de intenções duvidosas. Assim, ambos poderiam dormir tranquilos. E, se um dia tivessem de se encontrar no campo de batalha, que lutassem por seus ideais, sem arrependimentos.
— Não receberei ninguém — disse Han Jianfei. — E nem você. Não vamos interferir; que cada um escolha por si.
— Sim — respondeu Zhai Seis, percebendo que, apesar de agora ser o soberano desse reino subterrâneo, ainda assim, por hábito, respondia automaticamente ao que esse homem dizia.
— Antes de partir, tenho mais uma coisa a lhe dizer — Han Jianfei parecia mais loquaz do que nunca. — Lembre-se: por mais que você e Chen Mingyuan avaliem a ameaça que se aproxima, multipliquem esse resultado por dez.
— Sim.
— Se possível, ao recuar, não deixe ninguém para trás. Nem mesmo os mortos. Destrua tudo, como em Huangyangzhen. Não lhes dê nem vivos nem cadáveres.
— Sim.
Os dois silenciaram, até que metade do sol mergulhou no horizonte de Augustus.
— Vamos — disse Han Jianfei, deixando a xícara de café intocada, voltando-se para Yuan Zhizi, que sempre escutara em silêncio.
— Você está triste — disse a jovem, só ao saírem do pátio da empresa Baishan.
— É mesmo? — Han Jianfei sorriu. — Você ainda não me conhece. Deram-me o nome de “Emissário da Morte”. Um arauto do fim, como eu, não pode ser qualificado por algo tão trivial quanto tristeza.
— Eu sinto — insistiu Yuan Zhizi. — Quando meu pai morreu, senti esse mesmo clima. E agora, sinto isso em você.
Han Jianfei acariciou os cabelos lisos dela, já sem tranças:
— Entre no carro. Vamos buscar algo.
O veículo blindado, reservado a VIPs do Departamento de Operações Especiais da Defesa da Aliança, ergueu-se diante da porta da empresa Baishan e partiu, veloz, rumo ao sul.
De madrugada, o motorista, sempre atento ao dever, avisou Han Jianfei de que haviam chegado ao destino.
Han Jianfei recostou-se e acordou a garota adormecida ao seu lado.
Desceram do carro e entraram numa estação de metrô abandonada no distrito sul de Halls.
Percorreram o túnel por um tempo, até que Han Jianfei encontrou, na parede, uma saliência disfarçada. Apertou com força — e um compartimento secreto se abriu, revelando uma motocicleta flutuante.
Retirou a moto e ficou um tempo a contemplá-la.
Um ano antes, em outro túnel semelhante, ele também tirara uma motocicleta de uma porta secreta, acompanhado de uma menina. Mas aquela menina agora estava desaparecida, e ao seu lado restava outra.
— Suba — disse ele, batendo no assento traseiro da moto, como fizera um ano antes.
Yuan Zhizi montou e abraçou-lhe a cintura.
Atravessaram, de moto, o túnel escuro, até chegar ao grande salão subterrâneo diante da porta da Base Fantasma. O local havia sido palco de batalhas; peças de veículos e carcaças de robôs jaziam por toda parte.
Com cuidado, desviaram-se dos destroços e entraram na base, que um dia fora o maior trunfo de Han Jianfei naquele planeta, agora reduzida a ruínas. Todos os robôs que mantinham a usina nuclear haviam sido usados contra os homens de Zhai Seis. Sem combustível, a usina parou, e só a energia de emergência mantinha algumas luzes acesas.
Debaixo dessa luz mortiça, Han Jianfei percorreu as diversas salas, mas não encontrou qualquer vestígio de Doubi.
Tentou ativar os robôs da base, sem sucesso.
— O que está procurando? — perguntou Yuan Zhizi.
— Nada — disse Han Jianfei. — Apenas um amigo.
Naquele momento, ele estava no quarto onde Zhao Xiaonan residira. O lugar estava revirado, cheio de tralhas pelo chão. Entre os objetos pessoais de Zhao Xiaonan, havia uma foto de uma garota desconhecida; provavelmente deixada por algum mercenário de Baishan, talvez a namorada de um soldado. Ninguém sabia se a garota da foto ainda voltaria a ver o dono da imagem.
Han Jianfei ficou ali em silêncio por um tempo e, então, saiu do quarto.
De repente, um miado fraco veio do alto. Yuan Zhizi virou-se imediatamente para o som, mão no punho da espada.
— Calma — Han Jianfei sinalizou para que ela não se alarmasse.
Estendeu as mãos e chamou baixinho:
— Kelly?
Uma gata azul, suja e magricela, espiou timidamente de trás das vigas de aço no topo da base. Ao ver Han Jianfei, miou de forma chorosa e, mesmo relutante, saltou em seus braços.
— Fera de Presas! — gritou Yuan Zhizi. — Afaste-se!
Han Jianfei percebeu o perigo e desviou-se, apertando a gata junto ao peito, escapando por um triz da lâmina desembainhada de Zhizi.
O fio cortante brilhou na escuridão, arrancando alguns pelos enlameados do rabo da gata.
— Zhizi! — Han Jianfei apressou-se em dizer. — Não ataque, não é uma Fera de Presas!
Yuan Zhizi guardou a espada, ainda desconfiada. Viu que o animal, embora lembrasse um pouco as Feras de Presas, era muito menor, incapaz de feri-lo.
— O que é isso? — insistiu ela, sem baixar a guarda.
— Um gato — explicou Han Jianfei. — No nosso mundo, as pessoas os têm como animais de estimação. Talvez tenham ancestrais comuns com as Feras de Presas, mas jamais atacariam alguém.
Yuan Zhizi refletiu um pouco e comentou:
— Desde que cheguei ao seu mundo, percebo que vocês comem demais.
Han Jianfei quase engasgou:
— Como é?
— O seu mundo é avançado. As pessoas comem até se fartar, não precisam trabalhar, e por isso têm tanto tempo para perder com bobagens.
Han Jianfei não conteve a risada:
— Também aprendeu isso na internet?
A jovem balançou a cabeça.
Desde a invasão de Zhai Seis, a gata Kelly vivia escondida no telhado e nos dutos de ventilação, sobrevivendo de minhocas, besouros e pequenos roedores. Na última vez em que Zhao Xiaonan viera, os tiros e o barulho dos robôs a fizeram se esconder de vez.
Só dois dias atrás, quando todos foram embora, criou coragem para sair e procurar comida no quarto de Zhao Xiaonan.
Ao ver Han Jianfei e a jovem, Kelly pensou em se aninhar, como antes, no colo de uma das garotas — macio e confortável —, mas ao lembrar-se do brilho daquela lâmina mortal, desistiu e aninhou-se no peito de Han Jianfei, miando baixo.
Han Jianfei até queria entregar o animalzinho a Yuan Zhizi, mas, vendo o nervosismo de ambos, preferiu não insistir.
— Vamos — disse, lançando um último olhar à base. — Para o Sexto Porto Estelar.
— O que você veio buscar…?
— É ela mesma. — Han Jianfei acariciou o pelo curto da gata azul.