Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo Um Ele alimentava pombos na Praça do Monumento à Paz
Às três e seis da tarde, Han Jianfei estava sentado em um banco na Praça do Monumento à Paz. Do saco de papel pardo que segurava na mão esquerda, tirou um punhado de grãos e os lançou ao chão diante de si.
Logo, um bando de pombos voou até ali para bicar as sementes.
— Normalmente não sou muito de conversar — disse ele à garota de cabelos curtos sentada ao seu lado —, então, quando falo com estranhos, acabo falando demais.
A garota não respondeu, apenas observava os pombos disputando a comida. Suas pernas balançavam suavemente, penduradas sob o banco, num ritmo tranquilo.
— Quer tentar? — Han Jianfei ofereceu-lhe o saco de papel.
A garota sorriu timidamente e balançou a cabeça, visivelmente pouco à vontade com a abordagem de um desconhecido.
De repente, Han Jianfei lembrou-se de um filme antigo em que um homem de raciocínio lento, sentado num ponto de ônibus, distribuía chocolates aos passantes e lhes contava sua história.
— Talvez você esteja pensando como um demônio como eu pode, ao mesmo tempo, desencadear guerras cruéis em colônias a centenas de anos-luz daqui e, ainda assim, sentar-se tranquilamente na Praça do Monumento à Paz, alimentando pombos e puxando conversa com uma garota inocente como você — disse ele, rindo de repente.
Nos olhos da garota brilhou um misto preciso de confusão e cautela; ela recolheu a pequena mochila, como se estivesse prestes a partir.
Han Jianfei segurou-lhe a mão.
Até então, a cena parecia um encontro casual entre um cavalheiro e uma jovem ingênua, prenúncio de uma história de amor.
— Droga, não tenho ângulo!
— Foi difícil conseguir uma chance dessas. Chega, vamos agir!
— Não dá! Ele está atrás da garota, não tenho como acertá-lo.
— Não entendeu a ordem? Os projéteis cinéticos do ME-94A atravessam três elefantes!
— Vou me arrepender disso!
A mais de mil metros dali, sobre outro monumento, um homem de cabelo raspado beijou o amuleto budista no peito e apertou o gatilho.
Não houve grande estrondo nem labareda; um projétil de “agulha” de subcalibre, feito de plástico de alta densidade, disparou da carabina de precisão do atirador, riscando o ar seco da tarde de outono com uma trilha retilínea.
Segurando a mão da garota, Han Jianfei sorriu:
— Parece que querem matar você junto comigo.
Levantando-se, abraçou a garota. Não um abraço de amantes, mas um movimento brusco, jogando-a ao chão.
O projétil atingiu o piso da praça, e o impacto desfez o banco em estilhaços, lançando pedras e lascas de madeira que, provavelmente, mataram vários pombos.
A praça mergulhou no caos; pessoas gritavam e corriam em todas as direções, senhoras largavam coleiras de animais, namorados abandonavam namoradas, crianças choravam procurando as mães, e as pombas alçaram voo, encobrindo o céu.
— Veja — murmurou Han Jianfei, deitado sobre a garota —, para matar a mim, eles não se importam com nada: nem com você, nem com as pessoas na praça, nem com aquela criança chorando ali.
A garota tremia, os lábios balbuciavam sem som; o olhar perdido, como se estivesse paralisada de medo.
— Você atua bem — continuou ele —. Que tal trabalhar comigo? Afinal, eles não vão deixar você sair viva daqui.
O tumulto não durou muito; Han Jianfei levantou-se e puxou a garota:
— Não sei quem são eles, nem por que mandaram uma novata como você, mas se quiser sobreviver, venha comigo!
Soltou a mão da garota e, encostado à parede, correu para fora da praça. A garota hesitou, mas acabou seguindo-o.
De súbito, Han Jianfei freou e, mais uma vez, lançou a garota ao chão, entre a sombra da fonte e de um muro baixo.
A menos de dois metros à frente, outro projétil “agulha” explodiu no muro, partindo a parede.
O tiro vinha de outra direção; não havia apenas um atirador.
Com o muro destruído, sabia que pelo menos dois franco-atiradores miravam ali; bastaria expor a cabeça, e os projéteis cinéticos o reduziriam a pedaços.
— Estratégia correta — elogiou ele a garota. — O método mais simples, às vezes, é o mais eficaz.
Tirou do bolso um requintado isqueiro antigo a querosene.
Ao girar a roda, o isqueiro não acendeu, mas começou a liberar uma fumaça amarela e densa.
— Esta é uma fumaça contra detecção infravermelha e de metais. Quando eu correr, eles não verão nada no meio dela — explicou, lançando o isqueiro e, como um bom mestre, instruiu: — Mas dura pouco; fique colada a mim.
Outro disparo; um projétil penetrou a fumaça.
Han Jianfei mergulhou na névoa, ignorando a garota atrás de si.
Ela também correu para dentro da fumaça.
O homem de cabelo raspado tentou vários métodos de detecção, mas não conseguiu atravessar aquela estranha nuvem. Restou-lhe ajustar a mira, buscando os alvos onde pudessem emergir.
— Retirada — soou a voz do parceiro no fone.
— Alvo não eliminado.
— Abandone, recue! — ordenou o colega, incisivo. — A polícia está chegando. Deixe o resto para outros.
O atirador desmontou o rifle, dobrando-o até caber numa pequena maleta, colocou nas costas o jetpack e saltou da torre do monumento.
Han Jianfei já atravessara a fumaça, chegando à entrada de um beco na rua dos bares do lado oeste da praça. Ali, o caos persistia, mas os bares ainda estavam fechados, tornando o local mais tranquilo.
Por isso, Han Jianfei percebeu um zumbido agudo e sutil.
Conhecia bem esse som; na juventude, adormecia ouvindo-o.
Era a combinação do ruído de metal com memória de forma sendo eletrificado e motores de servo em modo de espera.
Esse som só era usado em uma coisa.
— Corra! Depressa! — Gritou ele, recuando do beco e fazendo um gesto à garota.
Do interior do beco, passos pesados; dois gigantes de metal, com mais de dois metros de altura, surgiram atrás de uma esquina. As metralhadoras rotativas nos ombros começaram a girar.
Exoesqueletos blindados! Tinham mesmo acesso àquele tipo de equipamento.
A garota, perspicaz, seguiu Han Jianfei, fugindo para outra bifurcação.
A tempestade metálica explodiu atrás deles, destroçando tudo ao redor.
Os dois exoesqueletos cessaram fogo e, com agilidade surpreendente para o porte, avançaram em disparada. Eram monstros de aço feitos para combate urbano, não deixariam duas presas indefesas escapar.
Han Jianfei não estava tão calmo quanto parecia. Desde o primeiro tiro, já haviam se passado ao menos quinze minutos. Mesmo que aquilo fosse uma armadilha cuidadosamente preparada, seus aliados já deveriam ter chegado.
Não acreditava que pudessem deter seus homens por muito tempo, assim como não acreditava em traição.
Mas os exoesqueletos não lhe davam tempo para pensar. Eram mais rápidos, mais ágeis, capazes de arrombar portas e paredes. Nem um rato escaparia aos seus sensores.
Os dois se separaram para cercar as vítimas. Em menos de um minuto, Han Jianfei estaria encurralado.
Morrer na Praça do Monumento à Paz, na fortaleza principal da Aliança, seria até um fim digno para um mercenário de guerra como ele. Mas ainda não queria terminar sua história.
Olhou para trás: a novata conseguia acompanhá-lo, o que era impressionante.
— Escute — disse à garota —, desmontar um exoesqueleto desses à mão, já fiz quando era jovem, mas não é algo garantido. Então, aconteça o que acontecer, será destino nosso.
Sorriu, autoirônico. Aquela garota devia ser uma das assassinas, mas, por algum motivo, não queria que ela morresse.
Não era bonita, tampouco tinha um corpo estonteante, apenas um rosto delicado e proporções harmônicas — longe do tipo de mulher que o atraía para uma noite.
Talvez fosse porque ela, enviada como isca para uma missão suicida, ocultava de modo tão desajeitado o nervosismo, lembrando-o de si mesmo quando jovem.
A garota assentiu.
— Ouça — ele bateu no ombro dela —, corra para a praça com tudo quando eu der o sinal. A polícia já chegou, toda a atenção dos exoesqueletos estará em mim. Se chegar até eles, estará segura.
Ela assentiu novamente.
Han Jianfei olhou-a: o cabelo curto lembrava outro filme antigo, sobre um matador e uma garota.
Coisas de cinema nunca terminam bem, pensou.
O que não disse: se algum exoesqueleto fosse atrás dela, ele fugiria sem hesitar.
O som dos passos pesados se aproximava. Han Jianfei tirou o casaco, puxou uma faca curta preta do cinto e, com um movimento de pulso, fez a lâmina vibrar.
A vibração de 300 mil hertz permitia cortar facilmente quase qualquer material.
Quando um dos exoesqueletos surgiu na boca do beco, Han Jianfei lançou o casaco e mergulhou por baixo da máquina.
Para sobreviver, qualquer tática era válida.
Quase ao mesmo tempo, a garota de cabelo curto correu para fora do beco.
Ráfagas de balas desfizeram o casaco em trapos. Han Jianfei deslizou por baixo do exoesqueleto, cortando dois tendões de transmissão.
O conceito dos novos exoesqueletos ainda era o mesmo de sua juventude: para reduzir peso e dar mobilidade às articulações, certas partes menos vulneráveis tinham os tendões expostos.
Assim, o gigante de aço deixou de ser invencível.
Mas os modelos novos eram mais ágeis do que esperava — ou talvez ele estivesse fora de forma. Quando se virou, o exoesqueleto também se voltou.
Han Jianfei se lançou outra vez sob a máquina, buscando articulações e tendões expostos para cortar.
O piloto do exoesqueleto era experiente: não usou as armas, mas lutou corpo a corpo, socos de metal e golpes de lâminas.
Após vários embates, o sistema de servo das pernas do exoesqueleto falhou; o ombro esquerdo de Han Jianfei foi atingido por um soco, deixando o braço pendendo inerte.
Sem mobilidade, o exoesqueleto era como uma jovem embriagada, totalmente vulnerável.
Desligou a vibração da faca e, com a ponta, forçou a abertura do compartimento das células de combustível de fusão nas costas da máquina.
O ronco dos motores cessou.
— Você é o sétimo exoesqueleto que desmonto na mão — murmurou, cuspindo sangue e sorrindo para a carcaça imóvel. — Adeusinho!
Tudo durara apenas alguns segundos, do lançamento do casaco ao colapso da máquina.
Levantou os olhos: a garota ainda não saíra do beco.
Com a mão direita saudável, apoiou o braço esquerdo ferido e seguiu adiante.
Um estrondo: o segundo exoesqueleto saltou de algum lugar, aterrissando pesadamente atrás deles.
— Droga! — praguejou Han Jianfei.
Entre ali e a barreira policial havia mais de trezentos metros de terreno aberto, sem abrigo. Não havia como escapar das balas da metralhadora rotativa de 8,6 milímetros.
O resgate não chegara. Já não chegaria.
Restava-lhe uma última opção.
Não queria revelar ali, em pleno Augustusburg, o segredo que cultivara por anos, mas sabia que, sem vida, nenhum segredo tem valor.
Sem tempo a perder, Han Jianfei prendeu o braço machucado e disparou em corrida.
Sabia, por experiência, que correr em ziguezague — como nos filmes — só serviria para fazê-lo parecer ridículo ao morrer.
Mas o som do motor da metralhadora giratória já se ouvia; só restava correr com tudo.
A garota parou, de repente, junto ao banco onde estiveram.
Han Jianfei chegou até ela e entendeu o motivo.
Um menino de uns dois anos chorava, sentado entre os escombros.
— Só posso estar louco! — suspirou Han Jianfei, pegando a criança com a mão direita e protegendo-a no peito.
O primeiro projétil, com rastro verde, atingiu o chão aos seus pés.
Depois, uma chuva de balas caiu na área aberta, algumas atingindo em cheio as costas de Han Jianfei.
Mas pareciam deter-se a um metro dele, deformando-se contra uma barreira invisível e caindo longe, sem atingi-lo.
Era um escudo de energia individual, ainda em fase experimental e não distribuído ao exército.
O impacto o impulsionou, e logo cruzou a linha policial.
O tiroteio cessou. O exoesqueleto não queria confronto direto com a polícia de Augustusburg.
Han Jianfei entregou a criança a um policial, recebendo aplausos da multidão.
Após um curativo rápido, aproveitou o tumulto e sumiu numa viela.
A garota o seguiu.
Da praça, ecoaram duas grandes explosões.
Nem era preciso olhar: os exoesqueletos haviam se autodestruído. Quem detinha poder militar não deixaria sobreviventes.
Han Jianfei tirou um cigarro, prendeu-o nos lábios secos, e só então lembrou que usara o isqueiro como bomba de fumaça.
A garota de cabelo curto se aproximou e tirou uma caixa de fósforos da mochila.
Ao ver o logotipo da caixa, Han Jianfei sorriu.
— Então você é da Satélite Línhu, não é? De Cidade Livre ou do povoado de Huangyang? Perdeu a família na guerra? Agora entendo por que queria me matar.
A garota acendeu um fósforo e, delicadamente, acendeu-lhe o cigarro.
— Pensou melhor, vai trabalhar comigo? — Han Jianfei tragou fundo, abriu o portão discreto de uma casa e entrou.
A garota entrou atrás.
— Você é muda? — perguntou Han Jianfei, indiferente à presença dela.
— Não — respondeu a garota, ativando o controle remoto que escondia na mão.
— Ah... — Han Jianfei assentiu, tirando a pequena mochila dos ombros dela. — Que pena, esqueci de avisar: quando bati no seu ombro, acho que rompi um fio aí dentro.