Volume I: Destruição e Renascimento Capítulo 22: Que feitiço você está recitando?
Os membros da tribo do Leste sempre agiam com prontidão, então, assim que decidiram partir para a mina o quanto antes, Han Jianfei e Genji partiram naquele mesmo dia.
Para atravessar a perigosa montanha, Han Jianfei havia preparado muitos itens com antecedência, guardando tudo numa mochila grande que ele mesmo adaptara; mesmo carregando-a nas costas, não parecia demasiado volumoso. Em contraste, Genji levava pouquíssimas coisas—além da inseparável adaga, praticamente nada mais a acompanhava.
Seguindo o curso do pequeno rio junto à aldeia, os dois caminharam rio acima, rumo ao norte. No início, ainda passaram por algumas aldeias habitadas, mas quanto mais avançavam, mais rareavam os sinais de presença humana, até que, ao alcançarem a entrada da trilha montanhosa, já não havia indícios de atividade humana por perto.
Só ao se embrenhar nas profundezas da grande montanha, Han Jianfei compreendeu por que Genji dissera que, sem um fortalecimento físico, seria impossível para ele transpor aquela cadeia montanhosa rumo à mina.
Em sua concepção, aquela jornada poderia ser resumida como alguém carregando uma mochila mais pesada que si próprio, atravessando a pé uma cordilheira com quase trezentos quilômetros de extensão em linha reta.
Além disso, todo tipo de besta selvagem e mortal habitava aquelas montanhas.
Genji já estava bastante acostumada com esse tipo de terreno, mas Han Jianfei sofreu bastante. Embora tivesse participado de combates em áreas montanhosas anos atrás, a maioria ocorrera sob gravidade convencional, subgravidade ou até mesmo em ausência de peso. Essa travessia, porém, era sob pelo menos o dobro da gravidade padrão, em deslocamentos vigorosos, sem auxílio de armas, exigindo ainda que se lutasse incessantemente ao longo do percurso—mesmo para alguém considerado uma lenda entre os soldados, aquilo representava um enorme desafio.
No entanto, sob o rigoroso treino imposto por Genji, que não poupava nem chicote nem bastão, os frutos de dois longos dias e noites de exaustivo “exercício” logo se tornaram evidentes. Após derrubarem juntos três ferozes bestas de presas afiadas que os atacaram de surpresa, Han Jianfei finalmente percebeu o quanto era essencial o método quase selvagem de treinamento de Genji para sobreviver naquele ambiente hostil.
— Por isso, antes você me ensinou a aprimorar o corpo com os métodos de Haishan, agora é minha vez de lhe mostrar como lutar com as nossas técnicas — disse Han Jianfei, limpando o sangue do rosto ao se levantar dos restos das bestas derrotadas, sorrindo para Genji.
Ela limpou a lâmina ensanguentada e a guardou na bainha, assentindo com a cabeça.
— Primeira regra: jamais enfrente um inimigo de frente, a menos que seja você quem foi surpreendido.
— Assim como as bestas de presas afiadas — murmurou Genji, olhando pensativa para os corpos das feras no chão.
— Exatamente. Em nossos combates, quem ataca primeiro detém a vantagem absoluta — explicou Han Jianfei. — Há quem diga que "ser visto é ser destruído": se o inimigo te percebe, significa fracasso e morte.
— Pelo que diz, o seu mundo deve ser ainda mais cruel que Haishan.
— Na verdade, é o contrário — Han Jianfei sacudiu a cabeça. — Os líderes de lá são extremamente cautelosos ao decidir iniciar uma guerra... Onde eu estava? Ah, sim, essa era a primeira regra.
— Segunda regra — continuou, subindo numa rocha gigantesca —: ao atacar, incapacite o inimigo o mais rápido possível.
Genji saltou com leveza e se juntou a ele sobre a pedra.
— Os combates lá são guiados pela precisão e pela intensidade — prosseguiu Han Jianfei. — Precisão é mirar nos pontos vitais; intensidade é não parar até eliminar a ameaça. Se um golpe não basta, ataco dez vezes, até garantir que o adversário não tenha chance de reagir.
Ele tocou a pistola presa à cintura:
— Este objeto que o velho líder me deu é uma de nossas armas. Quando lutamos, normalmente é usada para disparar rapidamente, à queima-roupa, no peito do inimigo — é esse o princípio.
Genji escutava com atenção suas experiências de combate. O homem à sua frente parecia um paradoxo: não era forte, mas derrubava adversários bem mais poderosos com facilidade; aparentava fragilidade, mas ostentava uma impressionante vivência em batalhas — maior até do que a dela, acostumada a enfrentar feras.
— Terceira regra: nunca superestime sua própria força. Essa é a condição mais importante para sobreviver em combate, pois sempre haverá alguém mais forte e mais letal que você, mas isso não significa que não possa vencê-lo.
Genji respondeu prontamente:
— Sempre penso na sua luta contra Kris. Se fosse eu, mesmo com aquela tal “tijolada”, não seria tão fácil quanto foi para você.
— Sim, sua habilidade marcial é excelente. Num duelo de treinamento, de forma alguma eu seria páreo para você — Han Jianfei foi subindo a encosta íngreme. — Mas se nos jogássemos num ambiente como esse, mesmo que eu conhecesse menos o terreno, ainda teria confiança em conseguir te matar aqui.
Ele lançou um olhar para a garota atrás de si:
— Claro, é só uma suposição.
Adiante, havia um desfiladeiro não muito largo; com uma pequena corrida, seria possível saltar.
Han Jianfei se aproximou da beirada e espiou para baixo. No fundo do abismo, via-se uma colossal máquina antiga, coberta de terra e vegetação, mas ainda reconhecível como uma imensa nave estelar.
— Foi com essa nave que os deuses chegaram a Haishan — comentou Genji, também se aproximando da borda e percebendo o olhar absorto de Han Jianfei diante da relíquia abaixo.
— Uma nave colonial — disse Han Jianfei. — Provavelmente foi com ela que seus ancestrais chegaram aqui e acabaram caindo.
Em sua mente, Han Jianfei visualizou os antigos habitantes de Haishan cruzando o mar de estrelas em uma nave colonial e, ao aterrissarem neste satélite repleto de vida primitiva, por algum motivo a nave caiu ali. Os sobreviventes, a partir daquele ponto, espalharam-se pelos quatro cantos, fundando tribos e comunidades.
Com a destruição da nave e grandes perdas, os colonos foram aos poucos perdendo a tecnologia essencial. Restaram apenas a língua e a escrita originais, enquanto o restante do conhecimento desaparecia no fluxo do tempo, dando origem à estrutura social atual.
— Está dizendo que nós também viemos de fora? Que também somos forasteiros?
Han Jianfei a olhou de soslaio:
— Sim. Os deuses de que falam talvez sejam apenas os ancestrais de sua gente.
Genji fitou a nave quase irreconhecível lá embaixo:
— Quer descer para ver?
— Em outra ocasião — Han Jianfei ergueu os olhos ao céu. — Depois de tantos séculos, não deve restar nada de valor lá dentro. Se houver outra chance, traremos equipamentos mais adequados.
Dito isso, recuou alguns passos, correu e saltou o desfiladeiro.
Genji, sem grande esforço, acompanhou-o com um salto leve.
Os dois atravessaram e subiram a montanha, gastando um dia inteiro de luz até ultrapassá-la.
Do outro lado, havia um planalto. Comparado ao terreno anterior, poderia ser descrito como uma imensa planície. No mapa de peles de Genji, depois do planalto vinha um vale, onde se localizava a mina.
A travessia da planície foi fácil, e logo chegaram à entrada do vale, onde avistaram uma pista perfeitamente pavimentada e reta, estendendo-se a partir do interior do desfiladeiro.
Genji estava prestes a colocar o pé na pista quando Han Jianfei a puxou de volta.
— A mina fica bem mais adiante — disse Genji.
— Eu sei — respondeu Han Jianfei, pedindo que ela aguardasse. — Fique aqui parada; só venha quando eu chamar.
Genji já estivera ali muitas vezes. Sem entender o motivo, assentiu mesmo assim.
Han Jianfei também permaneceu imóvel. Pouco depois, viram uma nave-planadora deslizar pelo vale, quase roçando a cabeça dos dois antes de subir aos céus.
— Pronto, podemos ir — disse ele.
A gravidade daquele planeta era elevada, o que tornava o lançamento vertical e os portos espaciais do tipo elevador muito caros; por isso, as bases mineradoras usavam apenas planadores atmosféricos — os “pássaros de ferro”, como os nativos chamavam — para transporte.
Genji perguntou:
— Nós também vamos sair daqui num desses pássaros de ferro?
— Não — Han Jianfei balançou a cabeça. — Aquela é uma nave de transporte não tripulada. Não tem sistema de suporte à vida. Se entrássemos nela, morreríamos congelados ou sem ar.
Genji não entendeu tudo, mas percebeu que aquelas naves não eram feitas para humanos.
— Há um grande portão de ferro lá dentro — continuou ela. — Ninguém nunca entrou. Os homens de aço expulsam quem tenta.
— Vamos tentar então — Han Jianfei sentiu o cheiro de óleo lubrificante no ar.
Como esperado, um robô de segurança logo bloqueou o caminho, anunciando com voz sintética e impassível:
— Atenção: vocês invadiram uma área restrita da Mineradora Grant. Retirem-se imediatamente ou, de acordo com a Constituição da Aliança, serei obrigado a usar força.
— Sou cidadão da Aliança, meu nome é He Youzai, número de identificação XTS587... — Han Jianfei recitou rapidamente uma de suas identidades falsas. — Estamos em perigo e, conforme o protocolo de emergência, solicitamos abrigo à Mineradora Grant.
O robô escaneou rapidamente as informações biológicas de Han Jianfei e confirmou que ele era registrado como He Youzai.
Os olhos da máquina piscaram algumas vezes. Buscando no protocolo, encontrou a resposta adequada:
— Senhor He, lamentamos, mas esta base não possui estação de comunicação de longo alcance. Não é possível enviar seu pedido de socorro imediatamente. Contudo, de acordo com as normas de emergência, poderá permanecer provisoriamente na área residencial da base. Suas informações serão enviadas junto com a próxima remessa de carga para a sede da empresa. Durante o período de refúgio, não entre nas áreas de operação sem autorização.
O robô se afastou, ignorando-os dali em diante.
— Que feitiço foi esse que você recitou? — perguntou Genji, já caminhando despreocupada pelo portão onde ninguém jamais entrara.
— Um truque para salvar a pele, mas só funciona em situações específicas — Han Jianfei sorriu. — E normalmente só é eficaz com esses pedaços de ferro sem cérebro. Tivemos sorte de encontrar um deles.
Dito isso, seguiu as setas pintadas no chão, rumando para o setor residencial da base mineradora.