Volume II: A Sombra do Deus da Morte Capítulo 6: Aquilo que Tira a Sua Vida
Antes de partirem, Motoko Gen permanecera no Centro 307, auxiliando Li Qiqiang nas melhorias da armadura Ceifadora. Assim que o modelo ficou pronto, foi enviado imediatamente à fábrica de armamentos da Arca da Morte para ser impresso em teste por holografia.
Por isso, o traje que Motoko trouxe agora, apesar de manter a aparência tradicional quando vestido, era praticamente um novo equipamento. Com o suporte dos supercomputadores administrados pelos técnicos engraçados, o tempo de desenvolvimento foi drasticamente reduzido — não havia alternativa: Han Jianfei tinha cada vez menos tempo à disposição.
Para atender às necessidades específicas dos guerreiros e caçadores de Haishan, o modelo final da armadura foi projetado como um equipamento dobrável e portátil. Durante o transporte, ele assumia a forma de uma mochila rígida de ombros duplos. A parte que ficava junto às costas era adaptada à anatomia dos habitantes de Haishan, de modo que, mesmo confeccionada em material composto rígido, podia ser carregada por longos períodos sem causar incômodo.
Os habitantes de Haishan, quase sem contato com tecnologias externas, dificilmente aprenderiam a usar um equipamento tão complexo apenas por explicação verbal. Após a modificação para o modo dobrável, o uso se tornou muito mais simples.
Motoko logo trouxe a armadura de dentro do caminhão. Comparada ao seu corpo delicado, a caixa dobrada parecia grande, mas o excelente design ergonômico permitia que ela a carregasse sem esforço.
“O que é isso?”, quis saber Modo, claramente mais curioso sobre produtos do mundo exterior.
Han Jianfei sorriu, mas não respondeu.
Motoko colocou as mãos para trás, agarrou firmemente as duas alças na base da caixa e puxou com força. Sob tração dos músculos de metal com memória, a caixa foi desmontada instantaneamente e se vestiu automaticamente em seu corpo, formando uma armadura composta completamente vedada.
Ao ver a pequena líder tribal transformar-se, como por magia, em uma daquelas figuras de aço vindas das minas, todos na sala ficaram boquiabertos de espanto.
“O que é isso?”, repetiu Modo, perguntando pela segunda vez em poucos segundos.
“Podem chamá-la de armadura Ceifadora,” explicou Han Jianfei, batendo no casco duro e leve do traje. “É o uniforme que preparei para os cinquenta primeiros guerreiros. No nosso mundo, as guerras são ferozes, e isso pode lhes oferecer a máxima proteção.”
Motoko puxou novamente as alças. Ao perceber sua intenção, o computador interno recolheu os músculos de metal com memória, dobrando a armadura até que ela voltasse a ser uma caixa nas costas.
“Por enquanto, só temos esta unidade. Os cinquenta vão precisar revezar, até dominar o uso. Quando todos aprenderem, levarei vocês para resgatar os prisioneiros — e, então, cada um receberá sua própria armadura.”
Era esse o método de combate de alta mobilidade especialmente desenvolvido por Han Jianfei para os habitantes de Haishan. Esses superguerreiros, capazes de suportar cargas de quase 20G apenas com o corpo, tornavam-se pesadelos para qualquer infantaria leve ao vestir uma armadura capaz de deter armas de calibre médio para baixo.
Na verdade, se bem coordenados, poderiam até transformar-se no terror de grandes naves estelares.
A única condição era: conseguir ensinar esses nativos, vindos de tribos primitivas, a compreender as intenções táticas de um comandante.
Felizmente, isso não era tarefa impossível. No inverno anterior, Han Jianfei já havia liderado trinta e oito caçadores da tribo Ébano, numa floresta próxima, para derrotar inimigos dezenas de vezes mais fortes.
Com o ensino direto de Motoko, os cinquenta escolhidos para serem os primeiros Ceifadores passaram noites em claro aprendendo a vestir e remover a armadura, além de manusear as lâminas de fogo azul e as potentes granadas magnéticas.
Ao fim de um ciclo, Han Jianfei acordou e viu Motoko já de volta às roupas de antes da partida, pés descalços, com os cabelos trançados em finos cordões.
De volta à sua antiga aparência, Motoko orientava um guerreiro da tribo Ferro sobre como sacar a lâmina rapidamente. Ao notar Han Jianfei, pediu ao guerreiro que parasse.
Han Jianfei, instintivamente, tocou uma das tranças dela: “Não descansou um pouco?”
Motoko piscou os olhos cansados: “Dormi um pouco, acabei de acordar.”
“E aí, como estão indo?”, perguntou Han Jianfei.
“A parte de vestir e remover a armadura está praticamente dominada, mas coordenação dos propulsores ainda deixa a desejar. Para muitos, é a primeira vez lidando com algo assim — não entendem bem o que é a força auxiliar.”
Han Jianfei sorriu, vendo a garota falar tão sério, esquecendo-se de que, um ano atrás, ele próprio não era muito melhor que eles.
“Ah, lembrei de uma coisa,” disse Motoko. “A armadura já está pronta, mas as armas de combate corpo a corpo talvez precisem de ajustes.”
Han Jianfei bocejou e ouviu com atenção.
“Eles, como Kuriya, estão acostumados a lanças, dardos e arcos. Essas adagas curtas podem não ser ideais para eles. E, se possível, seria ótimo equipá-los também com arcos.”
Han Jianfei refletiu e reconheceu a razão dela.
“Certo, quando voltarmos, providencio lanças e arcos para todos,” respondeu, resmungando em seguida: “Vai dar trabalho pro Qi Qiang agora.”
No distante Centro de Pesquisas 307 do Planeta Xinsong, a mais de cem anos-luz dali, Qi Qiang espirrou sonoramente.
“Está tudo bem, engenheiro Qi?”, perguntou um colega. “Com essa onda de frio, melhor cuidar da saúde.”
“Tudo certo, só lembrei do sonho de ontem — meu nariz coçou.”
“E sonhou com o quê? Não me diga que se casou de novo?”, brincou o engenheiro.
“Besteira!” riu Qi Qiang. “Nada demais. Deve ser por causa dessas armaduras antigas. Sonhei que o chefe mandava fazer lanças de plasma e arcos eletromagnéticos!”
O laboratório explodiu em gargalhadas.
Em Haishan, Han Jianfei nada soube desse episódio, pois os caçadores enviados por Kuriya para espionar haviam retornado, trazendo notícias dos piratas conhecidos como Flamingos.
“Eles abriram uma mina nas Montanhas do Norte, extraindo aquelas pedras verdes também,” informou um dos caçadores. “Fica perto do antigo território da tribo Tigrada, subindo um riacho, passando por uma cachoeira não muito alta. Depois da cachoeira, vire à esquerda, há uma grande árvore. Suba mais um pouco, seguindo o curso d’água, e verá a máquina de ferro deles — igual àquela do portão.”
“Espera aí,” Han Jianfei coçou a cabeça, confuso. “Que tribo Tigrada, que cachoeira, que árvore? Vocês entenderam?”
Olhou ao redor e viu que, exceto por ele mesmo, todos, inclusive Motoko, assentiram.
Coçando a cabeça, ativou o terminal pessoal no pulso, projetando um mapa holográfico da região do grande lago: “Sabem ler mapas?”
Caçadores de Haishan são predadores das selvas divinas; o caçador espião logo percebeu que as formas e relevos correspondiam a toda aquela região.
“Aqui,” ele indicou, “siga por aqui, até ali, então vi a máquina de ferro deles. Não me aproximei muito.”
Han Jianfei tocou o ponto indicado no holograma, registrando as coordenadas.
“Entendido, vamos.” Desligou o terminal.
“Pra onde?”, perguntou Kuriya, surpreso.
“Resgatar os prisioneiros,” respondeu Han Jianfei. “E, de quebra, mostrar um pouco do que podemos fazer. Não foi o que combinamos ontem?”
“Vou chamar o pessoal,” disse Kuriya, agora entendendo.
“Não precisa,” Han Jianfei o interrompeu. “Chame só seus trinta e sete irmãos, vamos direto.”
“Não, assim não vai dar certo,” objetou Kuriya. “As armas deles são muito poderosas. Mandar esse pessoal seria suicídio.”
O plano de Kuriya era esperar que os invasores se separassem, atacando-os de surpresa, torcendo para que pudessem capturar ou matar algum pirata antes que eles matassem mais caçadores.
Por isso, ao ouvir Han Jianfei sugerir levar apenas seus trinta e oito irmãos para enfrentar os piratas de frente, Kuriya balançou a cabeça, mesmo tendo visto a armadura de Motoko — uma só não protegeria todos.
“Por que essa teimosia? Você não era assim, lembra?” fingiu indignação Han Jianfei. “Finalmente vou poder mostrar o lobo em pele de cordeiro! Não estrague meu momento. Só fiquem atentos e aprendam.”
Kuriya ainda tentou argumentar, mas vendo que Motoko não se opunha, calou-se.
Trinta e oito caçadores, mais Han Jianfei e Motoko carregando sua armadura dobrada — quarenta ao todo. Seguindo o conselho de Han Jianfei, foram levemente equipados, sem armas, e logo chegaram ao local indicado.
Vendo dezenas de nativos entrando despreocupados em sua mina, alguns piratas Flamingos fortemente armados vieram barrar-lhes o caminho.
Atrás deles, uma armadura militar de combate, obtida sabe-se lá como, apontava sua metralhadora rotativa para os caçadores.
“Não admira que sejam tão arrogantes — têm mesmo alguma coisa,” murmurou Han Jianfei para Motoko.
“O que foi, pensou melhor?”, um pirata obeso, vestido com exoesqueleto metálico, aproximou-se lentamente de Kuriya, falando num dialeto de Haishan mal articulado. “Esses são os que veio nos vender?”
Kuriya permaneceu calado, expressão sombria.
Han Jianfei se encolheu entre a multidão.
O pirata estalou a língua, examinando os caçadores com um olhar de aprovação: “São bons. Mas falta gente. Volte e traga mais, desse mesmo tipo.”
Han Jianfei consultou discretamente seu terminal.
Nem mesmo o exoesqueleto conseguia ajudar o pirata gordo a suportar a supergravidade do satélite Xiazhi — logo estava ofegante.
Parecia apreciar o ódio nos olhos dos caçadores. Como dizia o ditado: “Adoro quando alguém me odeia, mas não pode fazer nada contra mim.”
Seus olhos percorreram os caçadores até pousarem na figura de Motoko, destacando-se como uma garça entre patos.
Em comparação aos habitantes locais, Motoko possuía uma beleza fora do comum e, após um ano no mundo exterior, exalava uma aura refinada que atiçava o desejo de qualquer homem.
“Olha só, que preciosidade temos aqui!” O pirata sorriu maliciosamente, acenando para Motoko. “Venha cá, deixa eu ver você.”
Motoko, com a armadura dobrada às costas, deu um passo à frente.
“Moça, nada mal!” Apesar de atraído pela beleza, o pirata não era tolo: notou que o objeto nas costas dela não era algo que um nativo de Haishan pudesse fabricar. “O que você está carregando aí?”
Han Jianfei ergueu os olhos e viu dezenas de pontos brancos cruzando o céu, deixando rastros.
Motoko permaneceu calada.
“Estou falando com você, o que está levando aí?”, o pirata apontou a arma para sua testa.
Motoko lançou um olhar glacial, como quem encara um cadáver.
“Já pode começar.” Ela ouviu a voz de Han Jianfei.
“Ceifadora,” respondeu ela, puxando a alça. “A coisa que vai te matar.”
Um clarão azul riscou o ar, e junto com ele voou a cabeça redonda do pirata.