Volume II: A Sombra da Morte Capítulo 1: O Cemitério das Estrelas
Planeta ACPM47, território da Aliança.
De modo geral, no sistema administrativo da Aliança, corpos celestes que possuem apenas uma identificação numérica e não um nome oficial costumam ser ambientes hostis, quase impossíveis para a sobrevivência humana.
O planeta conhecido simplesmente como 47 não foge à regra.
Com um diâmetro de pouco mais de quatro mil quilômetros, é uma anã planetária de gravidade tênue e atmosfera rarefeita, onde praticamente não existe um traço de umidade natural.
Apesar disso, a temperatura ali é extremamente estável, e raramente há movimentos atmosféricos intensos.
Por esses motivos, o local foi escolhido oficialmente pela Aliança como depósito natural para armas e equipamentos fora de uso.
Desde a épica batalha contra a Santa Ordem Σ na outra metade do setor Oasis, no auge da Aliança, cerca de 75% das naves estelares e um número imenso de armas desativadas foram armazenadas ali, exceto por algumas que foram desmontadas ou adaptadas. A maioria repousa intacta no planeta 47.
Aquelas máquinas colossais, incapazes de deixar a atmosfera dos planetas habitáveis, conseguem decolar e pousar facilmente nesse mundo de gravidade reduzida. Por isso, com o passar dos anos, cada vez mais naves e armas foram organizadas nesse lugar.
Por isso, passou a ser chamado de “Cemitério das Naves”.
Embora seja impróprio para habitação humana, ainda há residentes permanentes: antigos criminosos condenados ao trabalho forçado pela Aliança. Devido à falta de recursos para manter um exército de grande porte, a Aliança permitiu que esses prisioneiros desmontassem e mantivessem as naves obsoletas, recuperando peças e materiais reaproveitáveis.
Localizado na fronteira do território, de frente para Nova Rosson através de todo o espaço da Aliança, distante dos planetas administrativos, sem portais nem rotas comerciais, apenas as naves de transporte da Aliança circulam entre ali e o planeta mais próximo, Osmai.
As naves armazenadas carecem de combustível e munição, eliminando o risco de rebelião entre os condenados exilados. No entanto, muitos sistemas de suporte das naves permanecem funcionais, especialmente as naves de controle regional, enormes como cidades, possibilitando a sobrevivência prolongada dos prisioneiros.
Décadas se passaram. Os antigos condenados envelheceram, mas seus descendentes herdaram seus ofícios, vivendo de cortar e organizar peças e recursos no cemitério das naves.
Chamam-se “Catadores”.
Periodicamente, os catadores do planeta 47 entregam o que coletaram às naves da Aliança em troca de suprimentos.
— Esta é a vida de todos neste planeta — disse um jovem, guiando uma picape montada com peças de naves de combate descartadas, acompanhado por uma garota de idade semelhante.
No cockpit, que mal mantinha o oxigênio, um velho tocador, possivelmente de algum tripulante de nave, tocava rock de meio século atrás.
O rapaz dançava ao ritmo da música, olhando para a garota ao seu lado.
— Já fomos longe o bastante, não é? — disse a garota, menos animada que ele, em sua primeira vez fora da “cidade”. Parecia apreensiva. — Dizem que há tripulantes fantasmas nas naves...
— Aqui por perto já vasculharam tudo. Para encontrar algo realmente valioso, é preciso arriscar! — O rapaz olhou o marcador de combustível da picape: ainda havia mais da metade, suficiente para seguir adiante.
No planeta 47, qualquer reator de tório ou nuclear era absolutamente proibido, mas a Aliança não parecia regular o combustível químico abundante localmente. Por isso, veículos movidos a óleo sintético dominavam ali.
Percorriam uma trilha pouco usada, seguindo para oeste. Em meio dia de viagem, chegariam a um planalto. No fundo de um vale oculto, havia um imenso cemitério de naves ainda inexplorado.
A picape parou junto a algumas naves alinhadas. Da cabine, pareciam uma horda de feras de aço silenciosas, aguardando o fim dos tempos.
— Ponha o traje de proteção, chegamos — disse o rapaz, puxando o freio de mão. — Foi aqui que vi algo brilhando. Se for tório esquecido pela Aliança, teremos sorte!
— Se meu pai souber, vai quebrar minhas pernas... — murmurou a garota, ainda receosa.
— Se eu mostrar um pedaço de tório puro para ele, será que não vai me pedir para casar com você? — brincou o rapaz. — Coloque o capacete!
A garota, nervosa, ajustou o capacete. O rapaz apertou um botão, esvaziando rapidamente a cabine para igualar a pressão externa.
Após estabilizar, abriu a porta e saltou.
Ainda estavam a certa distância do cemitério oculto, mas já viam as naves gigantescas, algumas janelas emitindo uma fraca luz.
— Que modelo são essas naves? — O rapaz consultou seu terminal pessoal, pesado e adaptado de algum equipamento, mas não encontrou correspondência entre os modelos conhecidos.
Fitando os monstros silenciosos, respirou fundo.
— Talvez devêssemos voltar — sugeriu a garota, puxando seu traje.
— Impossível! — respondeu ele. — Vou entrar. Se tiver medo, espere aqui.
Sem olhar para trás, caminhou em direção ao grupo de naves, saltando com facilidade graças à baixa gravidade.
A garota seguiu.
Essas naves pareciam peculiares, mais escuras e envelhecidas que as próximas à cidade.
Chegaram à menor, na borda, e deram a volta sem encontrar uma entrada.
— Estranho — murmurou o rapaz, consultando novamente o terminal. Os dados custaram-lhe cinco rações de proteína, comprados de um cambista, contendo modelos e esquemas de todas as naves da Aliança desde a grande guerra.
Apontou o terminal para a nave estranha, comparando rapidamente milhares de modelos. Nenhuma correspondência.
Apontou para outras naves; nada.
— Achamos ouro! — exclamou o rapaz, animado. — Estas não são naves da Aliança, devem valer bem mais!
— Mas como entramos? — perguntou a garota.
— Sempre há um jeito! — Ele olhou para cima. — Se não der, usamos o método do planeta 47: espere, vou buscar as ferramentas de corte.
A garota não respondeu. Apontou para cima:
— Ali, parece uma porta...
O rapaz olhou:
— Vou conferir.
Fora da cidade, a gravidade era tão baixa que ele subiu facilmente até dez metros de altura.
— É um buraco — avisou pelo rádio. — Espere aí, vou entrar.
Pelo buraco, causado por impacto ou colisão, já via a luz irradiada de dentro.
Saltou para dentro.
A garota esperou dez minutos, mas não houve sinal do rapaz.
Aflita, chamou pelo rádio:
— Edmundo, está aí?
A resposta foi apenas estática.
Assustada, quis pedir ajuda, mas não havia ninguém por perto.
Uma hora se passou, e Edmundo não retornou.
Chamou repetidas vezes, sem resposta. Talvez tivesse desligado o rádio, ou partido, deixando-a sozinha naquele labirinto de aço.
Sabia que o oxigênio no traje duraria no máximo uma hora. Correu de volta ao carro, chorando e chamando.
Mais uma hora se passou. O rapaz não voltava.
Na verdade, não duraria nem dez minutos após acabar o oxigênio.
Desolada, a garota deixou o local, guiando em direção à cidade conforme sua memória.
Um dia depois, uma caravana de dezenas de veículos chegou ao cemitério escondido.
Após retornar chorando à cidade, a garota relatou ao pai — líder de um grupo de catadores — tudo sobre as naves desconhecidas e o brilho misterioso. O desaparecimento do rapaz foi sua maior preocupação, mas acabou sendo ignorado.
Ao saber que havia um cemitério de naves inexplorado a menos de um dia de viagem, o pai, antes furioso por ela ter fugido com um pobre rapaz sem raízes, ficou eufórico, perdoando sua imprudência.
Quando soube que as naves não eram da Aliança e talvez contivessem tório puro, decidiu não esconder nada, após fumar um cigarro caseiro, reunindo toda mão-de-obra possível para explorar o tesouro antes que outros grupos soubessem.
Guiados pela garota, os catadores logo encontraram o cemitério de naves.
O local era extremamente oculto, num canyon erodido do planalto, invisível até mesmo ao olhar aéreo. Não é de se admirar que a Aliança e os catadores anteriores o tivessem ignorado.
Desceram dos veículos, celebrando pelo rádio. Quanto ao pobre rapaz desaparecido, já fazia um dia; sua sorte ou destino não importava mais.
Talvez tivesse morrido acidentalmente dentro da nave.
Pegando suas ferramentas, correram em direção às naves.
Logo pararam, pois, adiante, estava uma pessoa — ou um corpo.
Um catador corajoso se aproximou, virou o corpo e disse, com a sobrancelha franzida:
— Está morto. É o Edmundo, aquele garoto do setor oeste.
Os outros se aproximaram. O cadáver parecia comum, exceto pela pele azulada e brilhante, talvez envenenado.
A garota chorou compulsivamente.
Os catadores não demonstraram emoção. Por conhecerem o morto, talvez levassem o corpo de volta ao sair.
Dois catadores vieram levantar o corpo.
Nesse instante, o rapaz de pele azulada abriu os olhos.