Volume Um: Destruição e Renascimento Capítulo 21: Você realmente me menospreza assim?
Após a última rodada de treinamento de resistência, o corpo de Han Jianfei não apresentou hematomas como antes, o que o fez admirar a incrível eficácia daquela poção estranha.
Yuan Zhizi explicou-lhe que, da última vez, apesar do sabor e da sensação serem idênticos, a bebida não surtiu efeito algum; seu corpo apenas já havia se adaptado ao impacto externo.
Apesar de sempre ter achado peculiar a ideia de fortalecer-se recebendo golpes, a rapidez com que se adaptou ao ambiente de gravidade aumentada o surpreendeu profundamente.
No terceiro ciclo de dia e noite desde sua chegada a Haishan, Han Jianfei já estava plenamente habituado a viver como um caçador da tribo Hedong. Agora, sua pele era morena, o corpo firme e musculoso; exceto pela altura acima da média, era indistinguível dos nativos.
De todo modo, o plano de ir até a mina precisava ser colocado em marcha.
Zhizi explicou que a estação quente em Haishan estava prestes a terminar. Quando o sol descesse abaixo da linha central do céu — alinhando-se com aquele gigantesco planeta imóvel acima —, chegaria uma estação fria tão longa quanto a quente. Durante o frio, montanhas inteiras seriam soterradas pela neve, rios congelariam, animais hibernariam e as plantações não sobreviveriam. Restava à comunidade estocar o máximo possível de alimentos e recursos para se aquecer antes da chegada do frio.
Além disso, era preciso estar atento às tribos vizinhas ou distantes. A falta de comida e combustível fazia com que, sem alternativas para sobreviver ao longo inverno, muitos grupos recorressem ao saque e à guerra.
Portanto, se quisessem ir à mina, deveriam retornar antes que a neve isolasse as montanhas. Caso contrário, só restava esperar pela próxima estação quente.
Mas Han Jianfei não podia se dar ao luxo de esperar tanto.
— Este é o caminho para a mina — disse Yuan Zhizi, segurando um mapa rudimentar feito de couro de animal, onde estavam desenhados, de forma tosca, os povoados nas montanhas próximas, trilhas que os ligavam, e a localização da mina além das montanhas. Embora sem precisão, para Han Jianfei aquilo era um tesouro inestimável.
— Certo — respondeu Han Jianfei, guardando o mapa.
— Quero ir com você — declarou Zhizi. — Já estive lá algumas vezes, conheço melhor a região, e o mapa não é tão preciso.
Han Jianfei não encontrou razão para recusar:
— Está bem.
— Tem mais uma coisa — Zhizi hesitou ao vê-lo concordar tão prontamente. — Meu pai pediu para vê-lo antes de partirmos.
— O chefe? — Han Jianfei ficou surpreso.
Desde que chegara, nunca havia tratado diretamente com o chefe, que, a julgar pelas aparências, parecia um bom homem. Tudo o que sabia sobre ele vinha das conversas com Zhizi.
Ao entrar, pela primeira vez, no pátio do chefe da aldeia Hedong, Han Jianfei notou que, exceto pelo tamanho, não diferia muito das demais casas dos aldeões.
Nos últimos dias, acostumara-se a acompanhar Zhizi para todo lado e, dessa vez, não foi diferente. Seguiu a jovem de pés descalços até a entrada do domo cônico, mais alto e limpo que os outros.
Quando viu a filha e o forasteiro entrarem juntos, Yuan Chongling acenou e gesticulou para que se sentassem.
A “primeira família” da tribo Hedong não desfrutava de grandes privilégios. O velho chefe preparava pessoalmente uma sopa de carne no fogão suspenso no meio da casa.
O aroma logo se espalhou, e Han Jianfei soube que havia sal na sopa — um item raro para o povo da tribo.
— Zhizi, sirva uma tigela de sopa para Han Jianfei — disse o chefe, sorridente, após os dois se acomodarem ao redor do fogo.
Neste tempo, Han Jianfei já compreendia facilmente o dialeto local de Haishan, e o chefe falava tão claramente quanto Zhizi, tornando a conversa compreensível.
Ao receber a sopa, Han Jianfei agradeceu.
— Ouvi dizer que querem ir à mina — o chefe foi direto ao ponto.
— Sim — respondeu Han Jianfei. — Quero ver se encontro alguma pista… talvez… sobre como vim parar aqui.
Yuan Chongling olhou para Zhizi, que fixava o olhar na tigela, sorvendo a sopa em pequenos goles.
O chefe suspirou:
— Só tenho essa filha. A mãe dela morreu cedo.
Han Jianfei hesitou, sem entender o motivo daquela confidência repentina.
Zhizi mantinha-se concentrada na sopa, como se não ouvisse a conversa entre os dois homens.
— Ela tem vinte e um anos. Sempre pensei em torná-la a futura chefe da tribo — continuou Yuan Chongling. — Mas ela só tem olhos para o que está no céu, não quer saber de liderar.
Han Jianfei pousou a tigela e elogiou:
— Sua filha é brilhante. Certamente será uma grande líder.
O chefe abanou a mão:
— Depois pensei: se ela não quer ser chefe, tudo bem. Arranjarei um bom genro, ele vem morar conosco, e o cargo de chefe passa para ele — desde que me deem um ou dois netos, ainda será da família Yuan!
Han Jianfei concordou, mas pensou consigo: será que o velho quer que eu me case com a filha dele?
O chefe prosseguiu:
— Mas essa menina parece enfeitiçada, só pensa em sair para o mundo e nem quer me deixar um neto antes… Fico pensando: minha vida inteira foi planejada pela família — nascimento, crescimento, casamento, virar chefe. Com minha filha, se ela não gosta de viver presa neste pântano de Haishan, quem sou eu para decidir por ela?
Han Jianfei escutou em silêncio.
— Antes, ela sonhava em ir para o mundo, mas não tinha oportunidade. Desde sua chegada, ela ficou obcecada. Sei que talvez seja sua única chance. Por isso, embora a velha xamã tenha me alertado várias vezes sobre as profecias a seu respeito, não a impedi.
— O senhor não precisa se preocupar — Han Jianfei sentiu-se repentinamente culpado. — Nunca faria nada que prejudicasse a tribo.
— Não é isso que quero dizer… Onde estava mesmo? Ah, sim, vocês vão à mina, Zhizi vai junto, e ouvi dizer que prometeu levá-la embora, se houver chance. Quero, então, pedir-lhe três coisas, caso vocês partam. Por favor, prometa-me.
Agora Han Jianfei compreendeu: o velho chefe queria proteger a filha, que partiria para um mundo desconhecido junto de um estrangeiro, e desejava garantir sua segurança.
Ele já fizera de tudo na vida: matou, traiu, nunca prometeu em vão, mas sempre cumpriu o que prometia.
Sentou-se ereto:
— Pode dizer.
Zhizi também largou a tigela, escutando atentamente ao pai.
— Bem, não é nada demais — o chefe também largou a tigela. — Primeiro: se houver chance, traga Zhizi de volta para uma visita. Pelas minhas contas, devo viver mais uns dez anos; depois, não sei. Gostaria de ver minha filha mais uma vez antes de morrer.
Han Jianfei assentiu:
— Está bem.
— Segundo — o chefe afagou os cabelos trançados da filha — seja bom para Zhizi. Não permita que ela morra antes de você.
— …Está bem. — Han Jianfei percebeu o mal-entendido sobre a relação entre ele e Zhizi, mas, refletindo um instante, concordou.
Os olhos de Zhizi começaram a se umedecer.
— Por fim — o chefe sorriu —, meu maior desejo: se vocês tiverem um filho, tragam para eu conhecer, nem que seja só uma vez.
Han Jianfei, meio sem graça, olhou para a jovem ao seu lado, tantos anos mais nova que ele. Sempre vira nela força e serenidade, mas agora seu rosto estava ruborizado, tomada de uma tímida vergonha.
— Não quero decepcioná-lo — Han Jianfei esforçou-se para ser sincero —, mas talvez tenha entendido mal. Zhizi e eu somos grandes amigos. Mesmo que a leve comigo, respeitarei suas escolhas. Talvez, no mundo lá fora, ela encontre alguém melhor, mais jovem, e viva um grande amor.
Yuan Chongling pareceu não se surpreender com a negativa e replicou, impassível:
— O amor é um luxo, na maior parte das vezes. Só digo: se um dia acontecer, lembre-se de trazê-lo para mim.
Após pensar, acrescentou:
— Basta ser meu neto.
Han Jianfei assentiu:
— Está bem.
Depois, completou:
— Mas, desta vez, talvez nem partamos; só vamos até a mina dar uma olhada.
O chefe fez um gesto:
— Partam ou não, já deixo dito. Assim, se forem, não faltará tempo para eu me despedir.
Han Jianfei levantou-se e fez uma reverência solene ao velho chefe da tribo:
— O senhor é um verdadeiro pai e um sábio.
O chefe sorriu:
— Quando tiver uma filha, entenderá como é difícil deixá-la partir.
Zhizi também se ergueu, divertida com a brincadeira do pai, embora seus olhos brilhassem com lágrimas.
— Vão — disse o chefe, colocando a mão por cima da da filha, batendo levemente, e dirigindo-se a Han Jianfei —. Entrego minha filha a você, agora é sua responsabilidade.
Han Jianfei apenas sorriu, resignado, e assentiu.
— Ah, sim — o chefe pareceu lembrar de algo, levantou-se do lado do fogo e, de algum lugar, tirou uma pequena caixa, entregando-a solenemente a Han Jianfei: — Este é um artefato sagrado, passado de geração em geração em nossa família. Ninguém soube usá-lo. Talvez você saiba.
Ao receber a caixa, Han Jianfei sentiu o peso familiar e o cheiro sutilmente reconhecível. Ao abri-la, deparou-se com uma antiga pistola de pólvora e duas caixas de munição expansiva de 9mm.
— Sim — disse, fechando a caixa —, isso é comum entre nós. É uma arma.
Yuan Chongling murmurou:
— Então levem com vocês, se for útil.
Saindo do pátio do chefe, os dois seguiram em silêncio de volta à casa de Han Jianfei. Desta vez, ele foi à frente, enquanto Zhizi, descalça, o acompanhou calada.
Enquanto Han Jianfei arrumava o que levaria para a mina, Zhizi, que estava em silêncio desde que saíram de casa, falou de repente atrás dele:
— Então, você realmente não me acha interessante?
— O quê? — Han Jianfei se sobressaltou.
— Nada — respondeu Zhizi.