Capítulo 117: Os mortais observam a forma, os mestres contemplam o espírito!
Vale de Gejia
O vento cortante soprava com intensidade, o vento do último mês do inverno era como pequenas facas afiadas; mesmo vestindo um casaco acolchoado, podia-se sentir o frio penetrante até os ossos.
— Senhor Yuan, está tomando sol.
Na velha cadeira reclinável desgastada na entrada da vila, Yuan Xinwu mantinha os olhos semicerrados, segurando uma xícara de chá recém-preparado. Vestia seu habitual manto cinza fino, deitado confortavelmente, desfrutando da tranquilidade da manhã.
Com um facão de lenhador à mão, os irmãos Gejia sorriam enquanto cumprimentavam o guardião da vila.
Yuan Xinwu abriu um pouco os olhos e olhou para o céu límpido com o sol brilhando: — Tenham cuidado com o tempo ao cortar lenha, devem voltar antes da tarde.
— Sim, senhor Yuan — responderam os irmãos, apertando seus casacos surrados e apressando o passo em direção à montanha.
Ao deixar a vila, eles seguiam com a cabeça baixa contra o vento gélido.
De repente, uma sombra imponente surgiu diante deles.
— Com licença, este é o Vale de Gejia? — uma voz profunda e grave, abafando até mesmo o som do vento, soou para os aldeões atônitos.
Olhando para o homem corpulento que parecia uma pequena montanha, os irmãos Gejia engoliram em seco: — S-sim, é aqui.
— Obrigado.
Com um aceno, o homem chamado Xiang Yuan avançou passando pelos irmãos Gejia, caminhando em grandes passos rumo à vila.
— Esse sujeito... é realmente assustador — trocaram um olhar, a figura massiva de Xiang Yuan exalava uma leve pressão que causava um impacto visual profundo.
Olhando para as costas largas e fortes daquele homem que emanava um poder impressionante a cada passo e movimento, os irmãos Gejia desistiram de cortar lenha e o seguiram de longe para dentro da vila.
Ao se aproximar da entrada do Vale de Gejia, o olhar de Xiang Yuan recaiu naturalmente sobre o velho reclinado na cadeira, com os olhos semicerrados.
— Hm? — como se tivesse percebido algo, Yuan Xinwu abriu lentamente os olhos e virou a cabeça, encontrando o olhar de Xiang Yuan.
Um choque de olhares entre dois mestres supremos da arte marcial, uma energia quase audível ressoou no vazio, e uma pressão aterradora se espalhou de repente.
A poeira no chão se levantou levemente, todos os aldeões do Vale de Gejia pararam suas tarefas e observavam de longe os dois homens, mas nenhum ousava se aproximar a menos de cem metros.
Era um instinto de sobrevivência diante de um perigo potencial tão grande.
Yuan Xinwu era magro e parecia um velho frágil com olhos turvos, deitado na cadeira como se fosse apenas um ancião senil.
Mas para Xiang Yuan, ele era como um tigre adormecido, sem qualquer traço de ferocidade explícita, com uma energia contida que escondia uma vontade selvagem capaz de fazer toda a floresta recuar.
Uma vez despertado, o rugido do tigre e sua fúria dominariam a floresta em um instante!
Realmente, um mestre!
Os mortais olham a forma, os mestres olham a essência.
Só pelo olhar, Xiang Yuan tinha certeza de que aquele velho comum era o Tigre de Face Amarela que ele procurava — Yuan Xinwu!
Enquanto Xiang Yuan se animava por ter encontrado seu alvo, Yuan Xinwu também avaliava o homem que surgira repentinamente.
Sua energia era forte e densa como um forno de fundição, corpo ereto e músculos firmes, o sangue circulava claramente em direção ao seu campo interno; ele também tinha compreendido a técnica do Dan Tian?
Os olhos turvos do velho revelaram um brilho espiritual. Yuan Xinwu percebeu que Xiang Yuan já havia rompido a barreira da transformação da energia e entrado no Reino Dan Tian.
— Sou o jovem Xiang Yuan, saúdo o senhor Yuan — disse Xiang Yuan, levantando o braço e fazendo uma reverência.
Colocando a chaleira de chá de lado, Yuan Xinwu levantou-se lentamente, observando o intenso Xiang Yuan e assentindo levemente: — O mundo lá fora realmente está cheio de talentos, tão jovem e já rompendo a transformação da energia, é admirável.
— Jovem senhor Xiang, o que o traz a estas montanhas remotas para encontrar um velho como eu?
— Vim aqui de forma inesperada por um único motivo — Xiang Yuan deu um passo à frente, sua aura mudou radicalmente, deixando de ser um homem imponente para se tornar um rei que governa o reino da morte.
Sob essa energia, tudo desapareceu, restando apenas ele sentado em um trono decadente, olhando indiferente para as criaturas abaixo.
Os irmãos Gejia, que espiavam na entrada da vila, foram atingidos pela mudança de aura, seus rostos empalideceram e desmaiaram imediatamente.
Essa transformação na energia era misteriosa e profunda; só mestres do mesmo nível que Xiang Yuan podiam sentir e resistir; qualquer um que se aproximasse demais perderia a consciência.
Percebendo a mudança, o rosto de Yuan Xinwu ficou sério.
— O caminho à frente está bloqueado, imploro que o senhor me ajude a romper minhas limitações!
Ao ouvir a intenção de Xiang Yuan, o olhar de Yuan Xinwu mudou; viu nos olhos claros e sinceros do rapaz a verdadeira busca pelo conhecimento.
Olhando para o homem que aparentava pouco mais de vinte anos, o semblante rígido de Yuan Xinwu relaxou, e um sorriso surgiu: — Venha, conte-me tudo em minha casa.
— Sim — Xiang Yuan respondeu sem hesitar, sua aura se dissipou instantaneamente, voltando à de um homem comum e robusto.
Seguiu silenciosamente Yuan Xinwu para dentro da vila, mantendo postura ereta e olhar firme. Todos os aldeões que cruzavam seu caminho abaixavam a cabeça, tomados por um medo instintivo.
Parecia que não era Xiang Yuan quem estava na vila, mas sim os aldeões que haviam invadido sua residência.
Seguiram até uma simples casa de barro com a porta aberta, que parecia um mero enfeite. Ninguém roubava um velho pobre como Yuan Xinwu, e ninguém ousava desafiar o guardião da vila.
— Minha casa é simples, fique à vontade — convidou Yuan Xinwu enquanto pegava uma chaleira de cobre que já estava queimada no fundo, provavelmente para ferver água.
Observando o quarto com apenas uma mesa de madeira quadrada e um banco, Xiang Yuan sentou-se diretamente no chão, sua altura tornando o ato confortável diante da mesa.
Após alguns minutos, Yuan Xinwu retornou com água fervente e duas xícaras de cerâmica.
— Peço desculpas pela simplicidade, não tenho chá especial, apenas este chá comum que cultivo — disse ele, despejando cuidadosamente o chá nas xícaras, o aroma suave e delicado se espalhando.
— Obrigado — Xiang Yuan segurou a xícara com as duas mãos, aproximou do nariz e inalou o leve aroma amargo que revigorava.
O chá quente desceu pela garganta, aquecendo todo o corpo.
Após três goles, Yuan Xinwu repousou sua xícara: — Conte-me com detalhes o que deseja.
Indo direto ao ponto, Xiang Yuan endireitou-se e pousou a xícara.
Do lado de fora, dezenas de aldeões do Vale de Gejia se aglomeravam ao redor, curiosos e cautelosos com o estranho visitante num vilarejo isolado nas montanhas.
Eles sentiam que aquele homem era como um deus da mitologia, e cada movimento seu exalava uma pressão aterrorizante.
— Será que esse homem quer fazer algum mal ao senhor Yuan? Vamos ver o que está acontecendo.
— Está muito longe, não ouvimos nada — alguns moradores coçavam a cabeça, desconfiados.
— Não se mexam, vocês sabem da habilidade do senhor Yuan. Se o incomodarmos, só atrapalharemos. Vamos esperar aqui e agir somente se algo estranho acontecer — aconselharam os mais sensatos.
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Capítulo 117: Os mortais veem a forma, os mestres veem a essência