Capítulo 4: Sentado em casa, o infortúnio cai como um raio do céu!
— Então era um pequeno praticante de artes marciais, não me admira que tenha um vigor tão intenso. — Com um gesto casual, afastou os criados que tentavam impedi-lo, e uma expressão gélida e sombria surgiu no rosto de Pei Qing.
Diante dos dois estranhos que se postavam à sua frente, uma centelha de alerta brilhou no rosto de Xiang Yuan, que recuou alguns passos e perguntou:
— Quem são vocês?
Enquanto isso, Xiang Munan já havia conduzido os criados, os guardas e Wang Chong até o local, colocando-se diante de Xiang Yuan para protegê-lo.
— Senhores, por que invadem hoje a casa dos Xiang? A que vieram afinal? — Ao reconhecer que os invasores eram os irmãos Pei Yong e Pei Qing, Xiang Munan sentiu o coração apertar, e avançou com passos firmes para questioná-los.
— Então aqui é a residência do velho senhor Xiang? Perdoe-nos por incomodar. Eu e meu irmão viemos pedir um favor a esse jovem rapaz. — Disse Pei Yong com um sorriso, apontando para Xiang Yuan.
Ao perceber que Pei Yong apontava justamente para seu neto, Xiang Munan sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, pressentindo o pior.
— Senhor Pei, está enganado. Meu neto é apenas uma criança, que favor poderia prestar-lhes?
— Não estou brincando. O motivo de nossa visita a Guangling, o senhor Xiang bem conhece. Precisamos que esse jovem nos ajude a atrair o criminoso que vem cometendo seus delitos por aqui. Quando ele for capturado, sua família também receberá parte dos méritos.
Antes que Pei Yong concluísse, Pei Qing já dera um passo à frente, estendendo a mão para agarrar Xiang Yuan.
— Com apenas algumas palavras deseja levar meu jovem senhor? Não está sendo excessivamente autoritário? — Wang Chong semicerrava os olhos de tigre, avançando para se colocar diante de Xiang Yuan.
Diante da mão de Pei Qing, o chefe dos guardas ergueu o cotovelo, afastando o ataque com um golpe firme, fazendo a mão de Pei Qing recuar.
Impulsionado pela resistência de Wang Chong, Pei Qing crispou os lábios, sua expressão se tornou furiosa e uma aura gélida emanou dele; seus cabelos negros começaram a ficar grisalhos desde a raiz.
— Pei Qing! — Da retaguarda, Pei Yong segurou o irmão, e sua voz grave tirou-o do transe da ira, fazendo os cabelos voltarem ao normal.
— Senhor Xiang, viemos a mando do governo em missão oficial, com direito de requisitar a ajuda de civis. Se o senhor insistir em recusar, não nos culpe pela falta de consideração. — A ameaça direta fez o semblante de Xiang Munan mudar drasticamente.
O rosto de Xiang Munan oscilou entre várias emoções; por fim, ergueu as pálpebras caídas e fitou Pei Yong:
— Poderiam ao menos dizer que serviço esperam de meu neto?
— Como disse, só precisamos que ele nos ajude a atrair o criminoso que tem causado problemas em Guangling. — Pei Yong falava com leveza, como se não percebesse o semblante sombrio da família Xiang.
— Isso não é usar o menino como isca?! — Wang Chong protestou, rosto fechado, claramente descontente.
— É mais ou menos isso, mas fiquem tranquilos: garantimos a segurança do garoto. — Pei Yong olhou firme para todos, e sua voz não admitia recusa.
— Pai... — O pai de Xiang Yuan, Xiang Leshan, aproximou-se de Xiang Munan, implorando em silêncio por ajuda.
A mão que segurava a bengala apertava com força tamanha que as veias saltavam. Xiang Munan ponderou mil vezes em sua mente. O alerta de Meng Hongjun, dizendo para jamais ofender esses homens, ecoava repetidamente em seus ouvidos.
Olhando para a família reunida atrás de si, Xiang Munan pareceu envelhecer vários anos de repente e, desalentado, murmurou:
— Espero que os senhores cumpram sua palavra e garantam a segurança do meu neto.
Ao verem a aceitação de Xiang Munan, os irmãos Pei sorriram e assentiram.
— Jovem, venha conosco. — Pei Yong aproximou-se sorrindo de Xiang Yuan, baixando-se para encarar o olhar assustado do menino. Para ele, aquela isca era perfeita.
Com os punhos cerrados, Xiang Yuan sentia-se tomado pelo medo e repulsa, mas só pôde aceitar resignado. Pela atitude de Xiang Munan, percebia-se que aqueles homens eram de posição altíssima.
Se até seu avô, chefe da família Xiang, era impotente para recusar-lhes, quanto menos ele, uma criança de seis anos, poderia se opor.
Antes de ser levado, Xiang Yuan voltou-se e olhou para sua família, os olhos de tigre marejados.
Xiang Leshan lutou com todas as forças para impedir que levassem seu filho, mas Wang Chong o deteve com energia. Sabendo que nem o patriarca da família fora capaz de recusar, Wang Chong, compreendendo que não havia mais nada a fazer, apenas cerrou os dentes e segurou Xiang Leshan com firmeza, mesmo que suas mãos fossem riscadas de sangue pelas tentativas desesperadas do outro...
Xiang Yuan foi levado pelos irmãos Pei.
Xiang Leshan desabou, exausto, no chão, o olhar vazio e desesperado. Não sabia como sua esposa reagiria ao saber daquilo, se conseguiria suportar tamanha dor...
— Leshan, eu... ah... — Xiang Munan abriu e fechou os lábios, mas percebeu que não havia palavras capazes de consolar o filho.
...
Fora dos muros da cidade de Guangling, numa cabana abandonada no ermo,
Xiang Yuan olhava, aflito, para os dois homens altos à sua frente, sentindo o coração apertado de ansiedade.
O que pretendiam ao trazê-lo até ali?
— Irmão, confiar só nesse pirralho vai dar certo? — À luz da lua, Pei Qing lançou um olhar frio ao menino.
— Ter sucesso ou não, só nos resta tentar. Aquele demônio é astuto e desconfiado; se nos vir por perto, não aparecerá. — Pei Yong virou-se, agachando-se ao lado de Xiang Yuan. — Garoto, tenho uma tarefa para você. Se cumprir, talvez ainda salve sua vidinha.
Engolindo em seco, Xiang Yuan perguntou:
— O que... o que é?
— Muito simples, — respondeu Pei Yong. — Em breve, eu e meu irmão sairemos. Você ficará aqui. À noite, pode ser que alguém venha procurá-lo, tentando convencê-lo a sair. Mas lembre-se: de jeito nenhum deve segui-lo, não importa o que faça. Se conseguir resistir e não for levado, na noite seguinte aparecerá um tigre de olhos verdes e pêlo branco. Não se preocupe, estaremos por perto; qualquer imprevisto, intervieremos na hora. Se nos ajudar, não só poderá voltar para casa, como ainda receberá um grande presente.
Presente coisa nenhuma! Por que não trocamos de lugar, e eu é que te dou um presente?
Xiang Yuan xingou mentalmente, mas apenas assentiu:
— Está bem.
Vendo que Xiang Yuan compreendia, Pei Yong deixou-lhe um saco de pão seco e uma moringa de água, e partiu com Pei Qing.
...
— Irmão, por que tantas explicações para aquele moleque? Ele tem tão pouca carne que, ao ver o bicho, vai congelar de medo. Melhor eu voltar e quebrar-lhe as pernas, assim não foge. — Pei Qing olhava de relance para a cabana, com um brilho gélido no olhar.
— Não é preciso. — Pei Yong acenou, sorrindo de esguelha ao lembrar-se do menino. — Ele é bom, apesar da idade. Tem olhar vivo, raciocínio rápido, e é raro ver crianças assim tão fortes. Passa por dificuldades sem reclamar, é determinado. Quando o levamos, não chorou nem tentou fugir. Sabe que escapar é impossível. Ao que parece, é precoce para a idade.
— E então?
— O tigre-demônio é desconfiado; diante de uma criança apetitosa, tentará primeiro seduzi-lo com encantamentos. Só se falhar, mostrará a verdadeira face. Sabemos que é uma situação de vida ou morte para o menino. Expliquei tudo para acalmar o garoto. Se sentisse o desespero da morte certa, poderia fazer alguma loucura. — Explicou lentamente Pei Yong.
— Entendo... — Pei Qing lançou um olhar pensativo para a cabana e seguiu o irmão apressadamente...
...
Sozinho na cabana escura e decadente, Xiang Yuan conseguia ouvir claramente o próprio coração no silêncio da noite. Quisera o destino, de um momento para o outro, que sua vida mudasse tão drasticamente.
Antes, vivia no conforto do lar; agora, servia de isca para criaturas sobrenaturais. Que ironia...
Encostado numa mesa coberta de pó e teias, Xiang Yuan pegou o pão seco deixado por Pei Yong. Estava duro e frio, e ao mastigá-lo, sentiu dor nos dentes do fundo. Comeu metade, bebeu um pouco de água fria, e, sentindo o estômago gelado, encolheu-se, apertando as roupas. As noites eram frias naquela estação.
Ontem, tinha tudo; hoje, era isca. O destino, de fato, é incerto...
Suspirou fundo, recostando-se na mesa quebrada.
Então, neste mundo, realmente existem monstros...
Sentia-se atordoado; só de pensar que logo teria de encarar um tigre demoníaco, o coração batia descompassado. Sim, possuía o anel de cura que permitia regenerar ferimentos, mas isso não o tornava imortal. Não sabia quais eram os limites do poder do anel, nem se sobreviveria a ferimentos letais.
Desviando o olhar para o anel de cura no inventário, suspirou novamente.
...
A primeira noite passou em relativa calma. Ansioso demais, só adormeceu de exaustão ao amanhecer.
Quando despertou, já era tarde do segundo dia.
Diante da porta arruinada da cabana, Xiang Yuan olhou para fora, sentindo crescer a vontade de fugir!
Levantou o pé várias vezes, mas o baixou de novo.
Apesar da aparência de seis anos, sua alma somava mais de trinta, contando a vida passada. Por isso sabia que fugir era impossível; era apenas uma criança, e aqueles malditos irmãos Pei provavelmente o vigiavam.
Se tentasse fugir e fosse pego...
Agarrou o batente, mas por fim suspirou, sentando-se no chão para economizar forças para o imprevisto da noite...
O sol poente tingiu o céu de rubro.
A lua pálida ergueu-se entre os galhos, e a noite caiu lentamente.
O calor do dia sumiu com o sol, deixando o ambiente frio e desolado.
Encolhido na cabana, Xiang Yuan mantinha os olhos fixos na porta, aguardando, tenso, a chegada do tal “homem” de que falaram os irmãos Pei.
...