Capítulo 61: O Ataque dos Espíritos Sombrios à Cidade!
A suspensão do toque de recolher em Xiaodu foi naturalmente revogada após a execução do fantasma sombrio. Lanternas pendiam altas, iluminando o mercado noturno vibrante e repleto de vida. Entre as luzes, Xiang Yuan caminhava sozinho, vestindo um traje azul-acinzentado justo ao corpo e botas altas de sola grossa com arabescos prateados.
Já fazia muito tempo desde sua última caminhada solitária.
Ao longo da rua principal, pavimentada com pedras perfeitamente alinhadas, diversas barracas alinhavam-se dos dois lados. Os pregões e chamados, inovadores em suas formas, ecoavam no ar acima de toda a rua.
No centro da via, um grande círculo de pessoas chamava a atenção de Xiang Yuan.
Aproximando-se da borda da multidão, com seu porte imponente de quase dois metros de altura, Xiang Yuan avançou sem esforço. Os que notaram sua presença abriram espaço instintivamente.
Em pouco tempo, ele já se encontrava no centro do círculo.
— Senhores e senhoras, meus irmãos e eu chegamos agora a esta distinta cidade, e pensamos em ganhar o sustento com nosso ofício — bradava um dos dois homens no centro, ambos vestidos com coletes de couro, pele escura e rostos marcados pelas andanças, as mãos erguidas em saudação e sorrisos largos.
— Se acharem que nosso esforço merece, peço-lhes que nos deem uma moeda. Desde já, agradecemos.
O mais alto dos dois deitou-se num banco de quase dois metros de comprimento, enquanto o outro, rosto ruborizado pelo esforço, erguia uma pesada laje de pedra, colocando-a com cuidado sobre o peito do companheiro.
— Vejam só, vão quebrar a pedra no peito! — exclamou alguém.
— Isso é impressionante, isso sim é habilidade de verdade! Olhem só o tamanho da pedra, deve pesar uns quarenta quilos ou mais. Quem aguentaria isso no peito?
— É verdade, esses dois sabem mesmo o que fazem.
Com a cena montada, os comentários começaram a surgir na multidão, ávida por entretenimento em um mundo carente de distrações.
Depois de posicionar a pedra, o homem em pé cuspiu nas palmas das mãos e pegou um enorme martelo de cabeça redonda, que reluzia sob a luz, visivelmente pesado.
— Atenção, senhores! Agora verão a especialidade dos irmãos: quebrar a pedra no peito! — anunciou alto, erguendo o martelo e golpeando a pedra com força.
Um baque surdo ecoou, e a pedra se quebrou ao meio.
O homem deitado levantou-se de um salto, como se nada tivesse acontecido.
— Bravo! — gritou alguém.
— Espetacular!
— Uma verdadeira demonstração!
O entusiasmo se espalhou, e o homem do martelo virou o gongo para recolher as gorjetas.
Ao se deparar com Xiang Yuan, tão alto que superava em duas cabeças, seu sorriso vacilou. Xiang Yuan, olhando de cima para o magro artista, jogou algumas moedas e afastou-se em meio à multidão.
Essas habilidades de rua eram, na verdade, mais truque que verdade. Com seu olhar experiente, Xiang Yuan percebera que a pedra era apenas uma placa oca de gesso, e o martelo, assustador à primeira vista, não passava de uma carcaça de ferro. Os dois eram claramente veteranos, com fala e atuação impecáveis. Mas para quem realmente entende do ofício, a diferença entre força real e encenação é abissal.
Ainda assim, mesmo percebendo o embuste, não desmascarou os homens e lhes deu o merecido. A vida dos artistas de rua nunca foi fácil.
Às vezes, uma palavra pode garantir ou destruir o sustento de alguém. Esses homens viajavam ao sabor do vento e da chuva; suas peles e rostos desgastados testemunhavam uma existência nada tranquila. Xiang Yuan, como qualquer outro, sentia compaixão.
Percorrendo a longa rua do mercado noturno, chegou próximo à muralha da cidade. No escuro, a muralha erguia-se como um gigante sentado, guardando fielmente a cidade.
— Que barulho é esse?
Caminhando pela estrada interna junto à muralha, seus ouvidos captaram um sussurro rastejante.
Seguindo o som, Xiang Yuan olhou para o alto. Viu uma figura estranha, de quatro patas, contorcendo-se, cabelos desgrenhados, fitando-o com um sorriso grotesco.
O que era aquilo?
Um calafrio percorreu-lhe a nuca. Xiang Yuan tentou distinguir melhor o ser, mas, num piscar de olhos, ele desapareceu misteriosamente.
Olhando em volta, Xiang Yuan saltou com precisão, cravando os dedos nos vãos da muralha e, em poucos movimentos, alcançou o topo, a mais de dez metros de altura.
No alto, a floresta do lado de fora agitava-se sob o vento noturno, as sombras das árvores formando um manto escuro.
Xiang Yuan vasculhou o entorno, procurando sinal da criatura, mas não encontrou nada. Sabia que não fora ilusão — vira claramente o monstro de quatro patas e sorriso macabro.
Seria um fantasma sombrio?
Com o semblante carregado, preparava-se para voltar e perguntar a Fan Guchun, quando de repente percebeu que a criatura já havia entrado na cidade.
Girando o pescoço de forma dura como um boneco de madeira, o fantasma sombrio fixou os olhos em Xiang Yuan, o sorriso ainda mais aterrador.
Xiang Yuan saltou do alto da muralha, avançando direto sobre a criatura.
Ágil, o fantasma desviou e, com movimentos que lembravam uma aranha, rastejou rapidamente pelo chão.
Desviando da mão comprida da criatura, Xiang Yuan desferiu um chute.
O golpe, forte o suficiente para derrubar uma parede de terra, atravessou o corpo do fantasma sem causar dano algum.
Num movimento inesperado, o braço do fantasma acertou Xiang Yuan, lançando-o contra o muro.
— Não tem corpo físico? — murmurou, encarando o fantasma que ria com um som agudo. Xiang Yuan mordeu a própria mão até sangrar. O sangue rubro escorreu e, esfregando-o nas palmas, ele avançou com fúria.
Com todo o vigor, Xiang Yuan agarrou a cabeça do fantasma com a mão banhada em sangue.
Um grito lancinante e fumaça branca emergiram ao mesmo tempo. O fantasma, tentando se libertar, era corroído pelo sangue quente, puro como ácido.
Em segundos, restava apenas um punhado de cinzas brancas no chão.
Olhando para o resto, Xiang Yuan sorriu de lado:
— Sangue de jovem puro guardado por mais de vinte anos… Bom, não?
Quando se abaixava para colher as cinzas e levar para Fan Guchun examinar, um arrepio gelado percorreu-lhe as costas.
Rolando para frente por instinto, Xiang Yuan virou-se em choque.
No exato local onde estava, dois outros fantasmas, idênticos ao primeiro, retraíam seus longos braços.
E o pior: na muralha, dezenas e dezenas dessas criaturas agora se acumulavam, não menos que cinquenta ou sessenta.
— Um ataque de fantasmas?! — Xiang Yuan praguejou, mergulhando numa viela e, orientando-se rapidamente, saltou por sobre o muro para escapar.
Assim que Xiang Yuan fugiu, as criaturas giraram os pescoços rígidos em direção ao mercado noturno, os olhos esbranquiçados e saltados.
…
Correndo sem parar, Xiang Yuan voltou à delegacia.
Lá, Song Ning ensinava Fan Guchun e Niu Da técnicas básicas de defesa.
— Temos um grande problema! — exclamou, narrando detalhadamente o ataque dos fantasmas.
Ao terminar, Fan Guchun e Niu Da empalideceram.
— Não fiquem aí parados! O que fazemos agora? — Xiang Yuan sacudiu Fan Guchun, já que ele e Song Ning, embora fortes, não tinham experiência contra fantasmas.
Esses fantasmas, sem corpo físico, eram difíceis de enfrentar, e em tal quantidade, a cidade logo estaria dominada pelo caos.
— São fantasmas etéreos. Existem dois tipos: os sólidos, que já vimos antes, e esses, etéreos, quase intangíveis. Só podem ser feridos com o Elixir Purgador. Lembro que o velho Sun trouxe um pouco há dois anos. Vou buscar — disse Fan Guchun, correndo para o interior.
Após barulho de gavetas e caixas, voltou com dois potes de barro selados com argila amarela.
— Aqui está o Elixir Purgador. Usem nas armas para ferir os fantasmas. Niu Da, leve um pote ao magistrado Zhao; mande mobilizar todos os guardas e carcereiros.
Entregando o pote a Niu Da, Fan Guchun falava com urgência.
— Entendido — respondeu Niu Da, partindo às pressas.
— Sem o velho Sun e Tian Xue, só nós três não daremos conta de todos. Mas faremos o possível.
Distribuiu o elixir em três tubos de bambu entre Xiang Yuan, Song Ning e ele próprio, o nervosismo evidente no olhar.
…
No mercado noturno de Xiaodu
A rua antes cheia de alegria agora era um parque de horrores, dominada por gritos e pavor.
Os fantasmas etéreos invadiam em massa, mergulhando o local num caos absoluto. Pessoas tropeçavam, gritavam, xingavam e se empurravam, tentando escapar.
Xiang Yuan, ao chegar, franziu o cenho e afastou alguns desesperados que corriam em sua direção.
A cerca de vinte metros à frente, um fantasma de pescoço rígido já havia derrubado uma jovem ao chão, o terror estampado em seu rosto.
…