Capítulo 23: Uma epifania, dominando dragões e tigres!
Com a mão apertando o peito, observando o casal de branco à sua frente, Xiang Yuan sentiu seu coração tremer. Instantes antes, aquele homem e mulher avançaram com uma destreza sobre-humana, rápidos como dois feixes de luz branca. Aquilo não era algo que humanos pudessem realizar!
Seriam eles membros de uma família nobre ou discípulos de uma seita? Quando se aproximaram correndo de longe, ele nem conseguiu ver claramente, mas, a julgar pela ausência de características físicas extraordinárias, talvez fossem mesmo discípulos de alguma seita.
Enquanto Xiang Yuan se sentia abalado pelo poder dos irmãos da família Hu e se questionava sobre sua origem, os irmãos, já tendo aprisionado o espírito sombrio no saco purificador, vinham em sua direção.
— Está tudo bem? — indagou Hu Kang ao se aproximar, avaliando de cima a baixo o robusto homem à sua frente. Corpo vigoroso, sangue pulsante, assentiu discretamente; de fato, um excelente material para um criado.
Xiang Yuan balançou a cabeça. Apesar de estar seriamente ferido, graças ao anel restaurador, parte de suas forças retornara.
— Já que você viu tudo, não vamos esconder. Aquilo que enfrentou não era um ser vivo comum, mas sim uma entidade chamada espírito sombrio. Nós somos membros da família Hu de Ziyang. Meu irmão notou que você tem boa constituição e alguma habilidade marcial. Quer tomar você como seu servo pessoal. Aceita? — disse Hu Lin, com voz suave e olhar indiferente.
Servo pessoal? Xiang Yuan franziu o cenho ao ouvir aquilo. Embora a posição tivesse o nome de guarda-costas, na prática não passava de um escravo. Submeter-se à servidão, ele jamais aceitaria!
Ao perceber hesitação e até certo repúdio no rosto de Xiang Yuan, a fúria reluziu nos belos olhos de Hu Lin. Com um estrondo, ela ergueu a perna e golpeou o abdômen de Xiang Yuan, lançando seu corpo de quase dois metros pelos ares.
— Ingrato! Meu irmão quer fazer de você um servo, e isso é uma bênção imensa para si. Um simples mortal, que direito tem de recusar? — resmungou Hu Lin friamente.
O chute de Hu Lin foi como uma lâmina cravada em seu ventre, revolvendo suas entranhas com uma dor tão lancinante que o rosto de Xiang Yuan ficou lívido, suor escorrendo sem controle de cada poro. Que força aterradora! Aquela mulher, de aparência frágil, tinha um golpe de facilmente duzentos quilos.
Esse é o poder de uma família nobre... Xiang Yuan baixou levemente a cabeça, olhos cheios de intenção assassina, enquanto seus caninos afiados começavam a se alongar. O corpo de um zumbi verde era mais forte que qualquer ser humano. Se atacasse de surpresa, poderia garantir a morte de ao menos um dos dois!
Não podia, porém. Eram membros legítimos de uma família poderosa; matar um deles traria desgraça. Poderia matar um, mas se o outro escapasse, a família certamente buscaria vingança. Por ele, pouco importava, mas e seu pai? Sua família? Seriam obrigados a fugir com ele?
— Irmã, precisa domar esse seu gênio. Antes de sairmos, o terceiro tio avisou várias vezes: não cause problemas durante esta viagem. Olhe o que você fez... Ah, deixa pra lá, esse rapaz depois desse chute já está acabado para o resto da vida — murmurou Hu Kang, lançando um olhar de pena, resignação e até um pouco de compaixão para Xiang Yuan caído no chão. Apenas não havia traço de remorso.
Com frieza, Hu Lin também lançou um último olhar e, junto do irmão, partiu. Naquela noite, muitos espíritos sombrios apareceram na cidade, e até houve mortes. Os irmãos precisavam agir rápido para capturá-los antes que mais pessoas morressem — não tanto pelos inocentes, mas pela reputação da família Hu.
Quando os irmãos Hu se afastaram, quase meia hora depois Xiang Yuan conseguiu se levantar do chão. Ofegante, massageava o abdômen. O golpe de Hu Lin fora cruel e preciso. Suas entranhas estavam parcialmente rompidas, razão pela qual Hu Kang dissera que ele estava acabado.
Cerrando os punhos, Xiang Yuan olhou impassível na direção por onde os irmãos Hu haviam partido. A vida é cheia de reencontros... ainda nos veremos.
***
Na manhã seguinte, graças à intervenção dos irmãos Hu, quase todos os espíritos sombrios da cidade de Zhuyang foram capturados. Xie Tianxiong, satisfeito, organizou um grande banquete para celebrar a vitória dos dois.
Dias depois, os irmãos Hu partiram, e a cidade voltou a sua paz de sempre.
No templo Guan Yi, Xiang Yuan arqueou levemente as costas, girou a cintura e, num movimento fluido, desferiu um soco contra uma laje de pedra à sua frente. O vento do golpe era feroz, como o rugido de um tigre!
Com um estalo, a pedra atingida por Xiang Yuan apresentou apenas algumas fissuras superficiais, mas sua parte posterior explodiu, abrindo um buraco.
— Consegui! — exclamou, o olhar iluminado de alegria. Ao contemplar o próprio punho, respirou aliviado. Finalmente compreendera o que significava subjugar o dragão e o tigre, como dizia seu mestre!
O dragão representa a coluna, o tigre, a cintura! O dragão no corpo humano é a espinha dorsal. Com o tempo, o treinamento torna a coluna sensível, cada vértebra transmitindo força, conectando-se em cadeia. A energia parte da coluna, movimentando músculos e ossos dos membros. Assim, ela se torna o “grande dragão” do corpo; dominá-la é adquirir a força dracônica.
E o tigre? O tigre é a cintura e o quadril — o dantian. Os músculos dessa região são sutis e, normalmente, imperceptíveis. Mas, quando treinados, revelam a força mais primitiva e poderosa do corpo — a força bestial, o verdadeiro instinto! A velocidade, força e coordenação de um tigre ou leopardo ao caçar surgem desses pontos.
Ao subjugar o dragão e o tigre, a energia, outrora dispersa, pode ser recolhida e dirigida conforme a técnica do pugilismo, unificando corpo e espírito. Quando Xiang Yuan golpeou a pedra, a superfície permaneceu quase intacta, mas o interior explodiu — uma das características da energia oculta!
Golpear como quem enfia uma linha por um buraco de agulha: o mestre da energia oculta condensa toda a força espalhada nos músculos, disparando-a pelos poros. O golpe, fino como uma linha, penetra diretamente no corpo do adversário, causando danos internos sem marcas externas.
Xiang Yuan acabara de dominar o dragão e o tigre, sentindo o poder da energia oculta, mas ainda não a dominava por completo — por isso a laje exibiu fissuras superficiais. Quando dominasse de fato, nem sequer deixaria traços na pedra.
Flexionando os músculos, Xiang Yuan esboçou um sorriso frio. Ter alcançado a energia oculta devia-se, ironicamente, àquela mulher desprezível. Não fosse por seu chute, talvez jamais tivesse compreendido a técnica do dragão e do tigre!
O golpe de Hu Lin, que lhe partiu os intestinos, foi justamente aplicado com energia oculta. Depois daquela noite, Xiang Yuan retornou ao templo Guan Yi e passou a rememorar, obsessivamente, a sensação daquele chute: a postura, o ângulo, a dor de ter as entranhas dilaceradas pela energia interna. Assim, encontrou a porta de entrada para o domínio dessa força.
Após lavar o suor do corpo com água fria, Xiang Yuan vestiu-se e foi visitar seu mestre, Yang Jing, para lhe contar a novidade.
Ao ouvir que Xiang Yuan já dominava a energia oculta, Yang Jing ficou surpreso. Ele próprio levara quase dez anos para atingir tal nível. Xiang Yuan, em apenas alguns anos no templo, já havia conseguido.
— Wang Chong, de fato, não se enganou com você. Tão pouco tempo para alcançar a energia oculta — isso é inédito em nosso templo. Como você conseguiu? — perguntou Yang Jing, o olhar afiado.
— Bem... como posso explicar? — Xiang Yuan hesitou, sem saber como responder. Não podia contar que só atingiu tal nível de energia ao sobreviver a um golpe capaz de torná-lo um inválido? E como explicaria estar tão cheio de vida, ao invés de aleijado?
Vendo o discípulo confuso, Yang Jing sorriu e disse: — Deixe isso para depois, quando conseguir organizar seus pensamentos. Agora que já dominou a energia oculta, amanhã pedirei ao mestre do templo para promovê-lo aos altos escalões.
No templo Guan Yi, incluindo Yang Jing, havia cinco altos membros. Excluindo o senhor Ge, que não era um artista marcial, os outros quatro, incluindo o mestre do templo, eram lutadores de energia oculta. Agora, Xiang Yuan preenchia o requisito.
— Obrigado, mestre — disse Xiang Yuan, sinceramente feliz com a possibilidade de ascensão. Entre os altos membros e os discípulos comuns, havia uma diferença abissal em privilégio.
Ao se tornar um lutador de energia oculta, Xiang Yuan finalmente podia relaxar um pouco. Para ele, esse era o limite possível no momento. O próximo estágio, chamado de Reino da Transformação — equivalente a um mestre de primeira classe —, era raríssimo até mesmo em todo o condado de Bazhong. A passagem da energia manifesta para a energia oculta exigia iluminação, um momento de epifania; mas da energia oculta para a transformação, só se alcançava com décadas de prática incessante. Ele sabia que, por pelo menos dez anos, não teria esperança de atingir esse patamar. Além disso, acabara de dominar a energia oculta e precisava de tempo para sedimentar o aprendizado. A partir daí, o progresso deveria ser mais lento e constante.
***
No pequeno pátio de Xiang Yuan
Wang Bai, exausto e ofegante após quase meia hora de treino, encarou Xiang Yuan, que permanecia sereno e relaxado, seus movimentos suaves e aparentemente sem força, mas capazes de neutralizar facilmente os ataques poderosos de Wang Bai.
Num toque leve, Xiang Yuan o fez recuar como se tivesse levado um choque, caindo sentado no chão, surpreso:
— Você realmente dominou a energia oculta? Quantos anos você tem?
— Talvez eu seja um gênio, como dizem as lendas — respondeu Xiang Yuan, rindo e ajudando o amigo a se levantar. — Ao romper o nível da energia manifesta, os músculos ficam relaxados quase todo o tempo. Por isso, quem domina a energia oculta sempre leva vantagem em resistência.
Wang Bai levantou-se, limpando a poeira das roupas e assentiu, pensativo:
— Parece que preciso me esforçar mais.
Apesar da inveja, Wang Bai não sentia ciúmes. Todos sabiam que o empenho de Xiang Yuan no templo era quase autodestrutivo, digno de quem perdera o juízo. Seus resultados eram fruto de muito trabalho e dedicação. Quem invejava, só podia culpar a própria falta de perseverança.
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