Capítulo 87: Colaboração!
— Parece que não foi um erro deixá-lo partir naquela época.
No lago, folhas secas e amareladas de lótus permaneciam imóveis sobre a superfície da água. À beira d’água, em um pequeno pavilhão de telhas verdes e pilares vermelhos, Xiang Yuan e Wang Chong estavam sentados diante de uma mesa hexagonal de pedra. Sobre a mesa, um bule de chá exalava volutas de fumaça branca, espalhando uma fragrância sutil e elegante.
Ao servir chá a Wang Chong, o corpulento Xiang Yuan permanecia com o torso nu. Seu físico, agora muito além do comum, impedia-o de encontrar roupas adequadas; era preciso mandar costurar algo sob medida, o que ainda não havia sido entregue.
Apesar de o inverno já se anunciar, Xiang Yuan não sentia qualquer frio, mesmo estando seminu, irradiando uma energia ardente por todo o corpo. O acréscimo de vinte pontos de constituição pelo Coração Imortal já havia elevado sua força física a um patamar inimaginável. Não era apenas o frio: mesmo sob nevasca cerrada, nada mudaria para ele.
— De fato, esses anos fora trouxeram grandes aprendizados.
Quando Xiang Yuan deixou o lar, ainda não tinha vinte anos. Durante os quatro anos em que esteve ausente, excetuando-se o período relativamente tranquilo no Portão da Unidade, passou quase todos os dias do último ano à beira da morte, lutando pela sobrevivência. Um descuido e o fim seria inevitável.
— Ainda pratica artes marciais? — perguntou Wang Chong de repente, ao erguer a xícara aos lábios.
O sorriso de Xiang Yuan denunciava que compreendia bem o significado oculto das palavras de seu mestre.
Ele então ergueu a xícara diante de si e, de repente, despejou o chá na palma da mão. Em um instante, uma energia sutil espalhou-se como uma teia pela mão, mantendo o líquido coeso, transformando-o numa esfera translúcida e giratória.
Com um estalo, a xícara caiu ao chão e se despedaçou. Wang Chong olhava surpreso para a esfera de água flutuando na mão de Xiang Yuan.
— A energia circula como uma grande rede por todos os meridianos! Mestre de primeiro nível, energia transformada! Jovem mestre, você...
Xiang Yuan lançou a esfera de água, que se chocou com um baque surdo contra a parede de pedra próxima, deixando ali uma concavidade do tamanho de uma bacia.
Um mestre de primeiro nível, capaz de manipular a energia com tal delicadeza, poderia perfurar rochas com gotas d’água, cortar folhas ao vento.
— Quanto ao nosso caminho marcial, cheguei ao limite. Se há outro caminho adiante, desconheço — disse Xiang Yuan, balançando a cabeça, ligeiramente perdido.
No caminho das artes marciais, a energia transformada é o ápice. Pelo menos dentro do que Xiang Yuan conhecia, esse era o fim da estrada; se existia algo além, ele ignorava.
— O mais jovem mestre de energia transformada que já vi foi Qiu San Ye, o chefe de Liang, que dominava os Cinco Grandes Rios do Sul. Na época, ele já tinha cinquenta e dois anos.
Wang Chong olhava para Xiang Yuan com orgulho discreto. Um mestre de primeiro nível com pouco mais de vinte anos era algo inédito — e ele fora o guia de Xiang Yuan nesse caminho.
— Naquela época, minha visão era curta demais, quase provoquei o fim do seu caminho marcial. Hoje, envergonho-me só de lembrar.
— Tio Wang, não diga isso. Sei que tudo o que fez foi pensando em mim e na família Xiang. Jamais guardei ressentimento por tão pouco, não precisa se preocupar.
O riso dos dois logo ecoava pelo pavilhão...
...
Noite profunda.
A lua brilhava no céu. Exceto por alguns guardas patrulhando os arredores, todos na Mansão Xiang já dormiam. Lanternas penduradas nos beirais lançavam uma luz cálida, suavizando o frio cortante da noite.
No quarto de uma pequena construção isolada, Xiang Yuan permanecia diante da janela, a luz prateada da lua derramando-se sobre ele, projetando sua sombra no chão.
Com as mãos às costas, brincava distraído com um pardal de pedra violeta, o olhar perdido ao longe, absorto em pensamentos.
Após algum tempo em silêncio junto à janela, a figura de mais de dois metros virou-se e caminhou para o canto onde um leito improvisado o aguardava.
No lugar onde estivera, entre fragmentos de pedra esmagada, via-se o que restava do bico do pardal...
...
No entardecer do dia seguinte
Após o jantar, Xiang Yuan conversava com alguns dos mais velhos sobre suas experiências nos anos longe de casa.
No salão principal, ele narrava com riqueza de detalhes tudo o que vivera: famílias aristocráticas, seitas, fantasmas sombrios...
A leve pressão emanada de seus gestos fazia com que, além dos três irmãos Xiang Wendong, todos os presentes, inclusive Xiang Chuan, se levantassem inconscientemente.
No meio da conversa, Xiang Yuan moveu levemente a orelha, como se escutasse algo.
Levantou-se, disse que tinha assuntos a tratar, e deixou o salão, atravessando corredores e pátios até chegar à sua edícula, onde avistou uma figura de vermelho já à sua espera.
Entrou, fechou a porta e, observando a visitante que admirava os enfeites do quarto, disse em tom suave:
— Chegou rápido.
A mulher, segurando alguns bonecos esculpidos por Xiang Yuan na infância, sorriu e se virou:
— Não imaginei que tivesse talento para trabalhos manuais.
— Apenas passatempo de criança — respondeu ele, sentando-se e servindo duas xícaras de chá. — Aceita um pouco?
— Não, obrigada. Chamou-me porque já tomou uma decisão?
Abraçando um gato preto, a Mulher dos Remédios sentou-se à sua frente, erguendo o véu e revelando lábios vermelhos, dentes alvos e o queixo delicado.
— Pode-se dizer que sim — respondeu ele, enchendo sua própria xícara. — Posso cooperar com você uma vez, mas precisam manter sigilo.
— Naturalmente. Nossa seita sempre honra a palavra com os amigos.
— Além disso, preciso de informações detalhadas sobre o sistema de poder das famílias aristocráticas e das seitas. Isso não deve ser difícil para vocês, certo?
Ela sorriu, encantadora, e assentiu:
— Sem problemas, é algo simples. Mais alguma coisa?
— Por ora, é só.
Xiang Yuan cogitara pedir à Mulher dos Remédios um lugar seguro para se esconder, já que estava em conflito com o Tribunal dos Hereges e não poderia mais permanecer em Guangling. Mas, por não confiar totalmente nela e na Seita da Prata, preferiu não tocar no assunto.
— Certo, trarei o que pediu em breve. Quanto à nossa colaboração...
— Quando precisarem que eu aja, avisem com antecedência.
Bebeu todo o chá da xícara de uma vez, repousou-a no prato e, ao erguer novamente os olhos, a líder da Seita da Prata já havia desaparecido.
No lugar onde ela estivera sentada, restavam apenas uma pedra gravada com símbolos misteriosos e um bilhete de caligrafia elegante, com um ritmo poético singular.
“Primeira colaboração, este é o seu presente.
Após memorizar o símbolo espiritual da superfície, o texto no verso se tornará compreensível.”
Símbolo espiritual?
Xiang Yuan pegou a pedra. Os sinais na superfície pareciam rabiscos aleatórios, tortuosos, mas não complexos.
No verso, letras minúsculas, menores que cabeças de formiga, cobriam o espaço.
Definitivamente, era coisa de seita herege — tudo o que ofereciam exalava um quê de mistério...
...