34 Fantasia Toma Forma na Realidade (1)
Línguas de fogo retornou ao Sindicato dos Mercenários com certa melancolia, dirigindo-se ao examinador-chefe da provação.
— Concluiu a provação? — o examinador ergueu os olhos do boletim que lia.
Línguas de fogo assentiu em silêncio e sentou-se na cadeira.
— E o item da missão?
Ele retirou o objeto do saco dobrável, contemplou-o por um instante, suspirou e depositou-o delicadamente sobre a mesa.
Era uma pequena espada em cruz, usada como arma oculta, com um fio de cabelo prateado enrolado ao seu redor.
— Nada mal — avaliou o examinador, colocando a espada e o cabelo juntos num saco.
Enquanto observava o examinador assinando e carimbando o recibo, Línguas de fogo não conteve a pergunta:
— Examinador-chefe, afinal, que tipo de pessoa é o Lobo de Prata?
— Lobo de Prata? — o examinador resmungou, sem erguer a cabeça — E você, quem acha que ele é?
Línguas de fogo refletiu e respondeu:
— Um lobo solitário!
— Lobo solitário? Talvez — o examinador colocou um recibo na pasta, arquivou uma via e entregou outra a Línguas de fogo — Talvez tenha sido um lobo, mas agora não passa de um cão selvagem.
— Cão selvagem... — Línguas de fogo calou-se, guardando o recibo.
— Para ser sincero, há muito tempo ele era notável na Guilda dos Andarilhos, um nome famoso, mas não sei por que acabou assim — continuou o examinador, afundando o rosto no boletim — Se quer saber mais, talvez seu mentor saiba melhor do que eu.
Línguas de fogo levantou-se, agradeceu ao examinador-chefe e saiu.
Já era tarde, ele decidiu voltar ao alojamento e se preparar para desconectar.
Subiu as escadarias, atravessando bairros, apreciando o estilo dos jogadores estrangeiros e a interação dos nativos. Logo chegou ao alojamento.
Mint não estava ali, ninguém sabia onde andava; apenas Martin, de guarda, jogava cartas com outros jogadores.
Línguas de fogo cumprimentou-os e recolheu-se ao bunker para desconectar.
...
Uma manhã rotineira. Imo pedalava à frente, Tong Junwen ia atrás, ambos na bicicleta.
Conversavam sobre trivialidades quando, de repente, Tong Junwen perguntou:
— Imozinho, você tem passado por algo estranho ultimamente?
O coração de Imo deu um salto, mas ele respondeu calmamente:
— Estranho? Como assim?
— Vi num fórum acadêmico, o post era de um famoso professor de física — explicou Tong Junwen.
O Fórum Fronteira era dominado por cientistas de vanguarda. Tong Junwen era apenas um figurante ali.
Imo pegou o celular que ela lhe estendeu e passou rapidamente pelos títulos e imagens:
"Pontuações anômalas estão surgindo com frequência. Estariam relacionadas a bolhas espaciais? A Terra estaria numa fronteira de espaço quadridimensional?"
"14/02 Los Angeles: ponto anômalo surge numa mansão, várias aves domésticas mortas, família desmaia. Testemunha desmaia ao se aproximar três metros. Foto anexa."
"22/02 Vancouver: ponto anômalo aparece no metrô, diversas pessoas desmaiam, duração curta."
"05/03 Houston: ponto anômalo em apartamento, três mortos, vários desmaios, local isolado pela polícia. Foto anexa."
E assim seguia a longa lista, com pontos anômalos surgindo ao redor do mundo: em alguns havia mortes, outros apenas desmaios, outros eram apenas rumores. Línguas de fogo rolava rapidamente, sentindo o peso aumentar no peito com cada foto.
Até que deparou-se com um caso em ChuLong! O coração de Imo apertou e ele leu atentamente:
"03/05 ChuLong: ponto anômalo em uma granja, grande mortandade de galinhas. Foto anexa."
Imo soltou um suspiro, aliviado por não ser nenhum dos dois locais onde estivera. Se fosse o parque que frequentava ou o Monte Baofu, não saberia como explicar para Tong Junwen.
Devolveu o celular com naturalidade e comentou:
— Parece coisa de fenômeno sobrenatural. Cientistas embarcando nisso?
— Só parece sobrenatural, mas tem a ver com espaços de alta dimensão. Muitos cientistas já investigam, mas ainda está tudo em aberto — ela respondeu, guardando o celular — Há muita controvérsia. Cientistas europeus tendem a associar a Deus; os do Leste Asiático preferem a hipótese do espaço de alta dimensão; na América, está uma confusão só, cada um fala uma coisa.
— Alguns cientistas também não são confiáveis, hein! — Imo riu.
— De qualquer modo, se você encontrar algo estranho, não se aproxime, mantenha distância e chame a polícia — ela disse, abraçando-o pela cintura.
— Entendi. Você também, não se arrisque!
— Pode deixar!
Imo sentia-se perturbado. Seriam fenômenos sobrenaturais ou físicos? Espíritos ou ilusões causadas por espaços de alta dimensão? A mente de Imo estava confusa. Sempre suspeitara de uma relação com o jogo "Armas do Mundo Fantasma". As experiências vividas ali pareciam indicar isso. Talvez não fosse só um jogo, mas um mundo verdadeiro.
Claro, nada disso podia ser dito a Tong Junwen. Ela pensaria que Imo enlouqueceu.
Ainda assim, o eremita disse para voltar em três dias. Talvez fosse hora de visitar o Monte Baofu!
...
Após a aula da tarde, Tong Junwen foi à biblioteca e Línguas de fogo partiu sozinho ao Monte Baofu.
Pelo visto, o Templo Baoyuan reabrira, pois muitos devotos subiam a pé. Línguas de fogo pedalou até as escadarias, trancou a bicicleta e subiu os degraus.
O templo estava lotado de fiéis, recendendo a incenso e velas. O cheiro impregnava o ar. O Templo Baoyuan, é claro, não era mantido apenas pelo eremita; havia alguns falsos monges contratados para ajudar nas tarefas e na limpeza.
Perguntou a um dos servidores, que informou que o eremita repousava no pátio dos fundos, então seguiu naquela direção.
Ao longo do caminho, embora à primeira vista nada destoasse, pequenos arranhões e talismãs não removidos sugeriam algo mais.
Encontrou o eremita com o braço esquerdo imobilizado por uma tala pendente ao pescoço, enquanto a mão direita limpava estranhos objetos.
— Mestre, está bem? — Imo perguntou, aflito.
— Ah, você veio — respondeu o eremita, despreocupado — Não é grave, apenas uma luxação.
— Então... o que foi que encontrou? — Imo não se conteve.
O eremita lançou-lhe um olhar e disse:
— Pois bem, você esteve envolvido, e é discípulo de Inverno Ondulado, então é quase um profissional. Vou te mostrar, mas não se assuste.
Dito isso, o eremita entrou na casa e Imo o seguiu apressado.
Foram até um depósito. O eremita empurrou algumas caixas com o pé, revelando uma alça no chão.
— Venha, puxe isso — instruiu. Imo obedeceu e, com força, abriu uma passagem para o porão.
De lá, ouviam-se vozes roucas e uma lufada de frio fez Imo estremecer.
— Parece que o bicho acordou — murmurou o eremita, ligando a luz do porão e descendo.