A Alma do Abismo (4)
O fogo corria desesperado pelo salão de festas, enquanto Morigana caminhava calmamente atrás dele, como se estivesse apenas participando de um banquete. Mas a foice em suas mãos não era nada amigável: deslizava silenciosa pelo ar, sem encontrar resistência, como se viesse de outra dimensão para atacar o Fogo Ardente.
“Crack!” Mais uma vez, Fogo Ardente conseguiu evitar o golpe de Morigana, e a foice cortou o piso de mármore com a mesma facilidade de quem fatiava tofu.
Com um leve sorriso nos lábios e um hálito perfumado, Morigana comentou: “Se você continuar fugindo assim, meu salão de festas vai acabar ficando irreconhecível!”
“Perseguir e atacar os convidados em pleno salão também não é a melhor forma de receber alguém!” gritou Fogo Ardente, enquanto corria.
“Ah, não sabia?” Morigana deu um passo à frente e, num piscar de olhos, estava de novo atrás dele. “Para um demônio, caçar uma presa viva durante um banquete, ouvir seus gritos e contemplar seu desespero, faz parte da verdadeira etiqueta!”
Em seguida, a foice avançou sem piedade.
Vou morrer!
Ao sentir o frio cortante da lâmina e a dor latejando em seu pescoço ferido, Fogo Ardente percebeu um perigo sem precedentes. Não sabia o que realmente significava uma Alma do Abismo, mas sentia claramente o poder de combate de Morigana: aquela foice sufocante sempre o atacava pelo ângulo mais difícil de se defender. Felizmente, sua Armadura Milagrosa era muito superior às armaduras comuns; sem ela, já teria sido ferido há muito tempo. Ainda assim, a armadura já estava cheia de marcas de batalha.
“Continue correndo, rapaz!” Morigana gargalhou, sem demonstrar qualquer misericórdia. O rubi de sua foice reluziu em azul e uma lâmina invisível disparou, cortando com precisão a perna desprotegida de Fogo Ardente.
“Ugh!” Fogo Ardente gemeu, caindo numa pilha de escombros.
“Fugir não vai adiantar!” Morigana se aproximou, sorrindo, e com a foice pressionou o ombro dele contra o chão.
“Você realmente é formidável, senhorita demônio.” Fogo Ardente tentou sorrir, como se não levasse a sério o combate, mas, por dentro, estava devastado. O poder de Morigana superava em muito o do Senhor dos Cavaleiros do Abismo. Se antes ele ainda tinha chance de lutar, agora sequer conseguia encontrar uma brecha para revidar.
“Elogios não vão adiantar!” Morigana abaixou-se, levantando o queixo dele com um dedo. “Mas rapazes bonitos como você não podem morrer de um jeito banal... Deixe-me pensar... Como deveria ser a sua morte?”
“Hehe... Tenho uma dúvida, senhorita demônio.” Apesar da pressão crescente, Fogo Ardente falou com aparente leveza.
“Ah é? Diga, mas não prometo responder.” Morigana olhou para ele com interesse.
“Como se chama mesmo o comandante do exército do Abismo...?” Fogo Ardente franziu a testa, fingindo lembrar.
“Você quer dizer Parava?” Morigana arqueou as sobrancelhas.
“Ah, Parava!” Fogo Ardente assentiu. “Ele era seu pretendente, senhorita demônio?”
“Ha ha... O que está querendo dizer?”
“Você não quer saber como ele morreu?” sorriu Fogo Ardente. “O poderoso e arrogante Senhor do Abismo, diante dos aventureiros que ele desprezava, o que será que disse em seus últimos momentos?”
“E então, o que ele disse?” Morigana manteve o sorriso e apertou a foice com mais força.
“Ele disse...” Fogo Ardente balançou a cabeça com um suspiro, atraindo a atenção dela.
“Ele disse para esperar por você nas profundezas do Abismo, senhorita demônio!” E, num movimento súbito, a adaga de prata avançou de baixo para cima, mirando o rosto de Morigana!
“Clang!” O semblante de Morigana não mudou; ela deteve a lâmina apenas com a ponta dos dedos! A adaga, famosa por sua penetração, ficou parada, incapaz de avançar sequer um centímetro!
“Você é mesmo travesso, rapaz.” Morigana olhou para ele como quem observa uma formiga tentando escapar.
“Parava morreu sob esta lâmina, senhorita. Não quer sentir o cheiro do seu admirador?” Fogo Ardente semicerrava os olhos, dando seu último esforço.
“Nem um pouco, rapaz!” Morigana apertou um pouco mais os dedos, movendo a lâmina. “Você aponta essa faquinha para mim... Será que vai atacar aqui...” Ela passou a língua pelos lábios roxos, “...ou aqui?” A adaga deslizou até o laço sobre o peito dela e, com um leve toque, estava prestes a cortar o nó, deixando à mostra o que reluzia sob o tecido.
“O alvo é seu pescoço, senhorita demônio!” No coração de Fogo Ardente só restava o desespero; ele não conseguia mais se abalar com as provocações dela.
“Crack!” A ponta da adaga de prata foi partida em dois dedos de Morigana, que, parecendo já ter perdido o interesse, voltou a pressioná-lo com a foice contra o chão.
“Os preparativos terminaram, rapaz!” Morigana acenou para ele com um gesto de despedida. “Este é o fogo dos mortos. Espero que se divirta!”
‘Chamas dos Mortos’
Assim que as palavras foram ditas, chamas azuladas e negras irromperam da foice. Em cada língua de fogo, pareciam ecoar lamentos de almas penadas. Fogo Ardente foi engolido pelas chamas e, tomado por uma dor que parecia devorar sua alma, não conseguiu conter um grito agônico.
Morigana recolheu a foice, saindo sem olhar para trás, caminhando pelo salão.
No entanto, Fogo Ardente, envolto pelas chamas azul-negras, não estava tão incapacitado quanto ela imaginava.
‘Resistência Mágica!’
O efeito especial da Armadura Milagrosa salvou sua vida!
Não dava. Aquela demônio do Abismo era impossível de vencer — pelo menos, não para os jogadores de agora! Enquanto gritava, Fogo Ardente acompanhava Morigana se distanciando. Não sabia quanto tempo, em média, um jogador resistia às Chamas dos Mortos, mas se demorasse demais e ela percebesse que ainda estava vivo, até um tolo descobriria o truque. Ele precisava fugir no momento certo.
Através do fogo azul-negro, Fogo Ardente viu a varanda iluminada pelo luar. Lembrou-se do mapa que vira na Irmandade da Tulipa Negra: logo abaixo daquela varanda havia um lago artificial, parte do cenário do salão. Embora, após um século, o lago estivesse infestado de criaturas estranhas, ainda era um lago de água corrente — e poderia ser a única chance de sobrevivência!
Passo a passo, Morigana se afastava na escuridão, até que de repente parou.
Agora! O coração de Fogo Ardente bateu forte. Ativou os efeitos de ‘Resistência Mágica’ e ‘Leveza’ simultaneamente e disparou em corrida! As chamas foram extintas pela armadura milagrosa num instante. Fogo Ardente concentrou-se apenas na distância até a varanda.
Cinquenta metros!
Vinte metros!
Dez metros!
Estava quase lá!
De repente, uma foice surgiu em seu campo de visão! Morigana apareceu diante dele, golpeando de lado!
Mas já era o suficiente!
“Haaa!” Fogo Ardente gritou, abaixou-se e, num movimento rápido, deslizou por baixo da foice, quebrando com o pé a grade apodrecida da varanda, e escorregou para baixo. Em um instante, com um “plash”, sua figura envolta em armadura branca desapareceu sob as águas do lago.
Morigana, furiosa, aproximou-se da borda da varanda e olhou para a superfície ondulante do lago, mas só viu as águas agitadas.
“Interessante, rapaz...” Morigana resmungou com um sorriso frio e virou-se, afastando-se dali.