50 Destruição de Evidências (1)
— O que... é isso? — exclamou Antônia Junqueira, arregalando os olhos e cobrindo a boca com as mãos, incapaz de acreditar no que via à sua frente, uma criatura que desafiava todo o senso comum.
Os olhos esbranquiçados, a pele acinzentada e sem vida, os lábios apodrecidos deixando à mostra presas afiadas, orelhas compridas, mãos com garras pontiagudas que arranhavam incessantemente as grades de ferro repletas de amuletos.
Com a experiência que possuía, Antônia logo percebeu que aquela criatura, jamais vista antes, já estava morta há muito tempo e deveria estar apodrecendo debaixo da terra. No entanto, não estava realmente “morta”: ainda se movia, e, dadas as circunstâncias, teria força suficiente para ferir ou matar alguém vivo.
Sua aparência lembrava muito os zumbis de filmes do início do século, mas era mais forte, mais ágil, muito mais agressiva! E o mais importante — ver aquilo em um filme era completamente diferente do impacto de presenciar tal visão na vida real!
Antônia tremia ao encarar o espectro cadavérico, mas a curiosidade diante do desconhecido a fez dar um passo à frente, quase sem perceber.
— Raaaah! — A criatura, tomada de fúria, tentou agarrá-la com as garras, mas foi impedida pelos amuletos, assustando Antônia.
Imediatamente, Ícaro a puxou para trás, impedindo-a de se aproximar mais:
— Cuidado, esse tipo de monstro é quase impossível de deter com métodos comuns.
— Ícaro... isso... afinal... o que é isso? — Antônia ainda custava a acreditar. Aquela criatura violava todas as leis da natureza!
— É o que chamam de fantasma, moça! — respondeu o Mestre Gui Zhen, já meio entediado.
— Mas... como pode existir um fantasma? Este é um mundo científico! — Antônia balançava a cabeça, como se tentasse rejeitar aquela realidade.
— Ciência? Existem milhares de coisas que a ciência não consegue explicar! Em vez de dizer que vivemos em um mundo científico, deveríamos dizer que é o mundo dos mortais. Os demônios e monstros desapareceram há séculos, mas isso não significa que tenham sumido para sempre! Quanto tempo tem a história da ciência? E já se acha capaz de explicar um mundo que existe há bilhões de anos? Acorde! Os monstros e espíritos só vão se tornar cada vez mais frequentes! — resmungou o mestre, sentando-se em um banco e começando a preparar amuletos com materiais estranhos.
Antônia silenciou. Por mais que a razão fizesse sentido, anos de estudo e conhecimento sobre o mundo objetivo tornavam difícil para ela aceitar aquilo.
— Não é tão grave assim — Ícaro tentou confortá-la, apoiando uma mão em seu ombro —, no fim das contas, a ciência é só uma forma de compreender o mundo. O verdadeiro espírito científico é encarar o desconhecido e buscar respostas com coragem. Agora, nem eu nem o mestre conseguimos entender ou desvendar a verdade. Só podemos contar com o seu conhecimento.
Antônia se deixou amparar por Ícaro, fechou os olhos e só depois de um tempo conseguiu se acalmar. Assentiu para ele.
Quando percebeu que ela já estava melhor, Ícaro pegou o celular e disse:
— Nia, dá uma olhada nisso.
Os olhos de Antônia ficaram imediatamente vidrados na tela. Era um vídeo de combate, baixado por Ícaro na internet, mostrando batalhas — e o alvo eram aquelas criaturas!
Esses espectros pareciam ainda mais ferozes do que o que estava dentro da jaula. Era natural, afinal, o Mestre Gui Zhen não se daria ao trabalho de alimentá-lo, e, além disso, talvez nem existisse aqui na Terra o tipo de energia abissal de que ele precisava.
Antônia ora olhava o vídeo, ora encarava a criatura enjaulada, completamente pasma.
— Isso... por quê...?
— Por que são idênticos, não é? — Ícaro sorriu amargamente e passou a contar tudo o que lhe acontecera ultimamente, incluindo os encontros no mundo real, a entrada acidental no jogo — omitindo, é claro, qualquer brincadeira com o mestre do jogo, sobre a qual ele jamais falaria, nem sob tortura!
— ...Por isso, se quisermos entender o que vi à beira do rio, ou isso aqui — Ícaro apontou para a jaula; o espectro, percebendo o gesto, soltou um urro furioso —, e também a Companhia dos Escolhidos, a VRI, os membros fantasmas ou até mesmo que mundo é aquele, só dentro do jogo conseguiremos desvendar tudo!
Antônia ficou pensando em silêncio, folheando o celular. Por fim, olhou para Faísca, os olhos brilhando de excitação:
— Singularidade!
Ícaro não se surpreendeu, apenas assentiu:
— Também acho que está relacionado. Mas se todos forem singularidades, por que ninguém mais capturou espectros ou outros monstros? O primeiro que encontrei era muito mais forte do que esse, então por que esse ficou e o outro sumiu?
— Existem três explicações. — Antônia cruzou os braços, tamborilando nos cotovelos —. Primeiro, algum tipo de organização — provavelmente a Companhia dos Escolhidos — recolheu os monstros; segundo, os que foram encontrados estão escondidos, como este aqui; terceiro, e para mim o mais provável...
Ela desenhou um círculo no ar com as mãos:
— Todo esse espaço se sobrepôs, naquele período, a algum tipo de entrada. E o diferencial dessa entrada é que, por ela, aqueles monstros — — hesitou —, os monstros do jogo, puderam entrar diretamente no mundo real! Diferente de outras singularidades, que não são verdadeiras passagens; esta, sim, é uma passagem de verdade!
Ao ouvir aquilo, Ícaro prendeu a respiração, olhando nervoso ao redor.
— Não é à toa que você é protegida do Deus da Sabedoria, foi direto ao ponto — disse o Mestre Gui Zhen, rindo enquanto aplicava algo nos amuletos. — Fiquem tranquilos, eu não sou inútil. Esse tal de portal já foi completamente destruído por mim!
Ouvindo aquilo, os dois relaxaram um pouco.
— Agora, todo o meio científico está em polvorosa por causa das singularidades, e logo a primeira pista concreta aparece numa pequena capela dessas — Antônia balançou a cabeça, impressionada.
— Não imaginava que os culpados fossem monstros e espíritos, não é? — Ícaro comentou, com um sorriso malicioso.
Antônia lhe deu um leve tapa:
— Não está claro se são monstros ou visitantes de outro planeta!
— Aí é que você se engana — retrucou Gui Zhen, soprando o amuleto recém-terminado. — Não importa de onde essas coisas vêm: do além-túmulo, de outros planetas, de galáxias distantes, ou de lugares que nem conseguimos imaginar.
Levantando-se, colou o amuleto na jaula e continuou:
— Se se alimentam de humanos, se veem os mortais como gado, para nós são monstros e demônios. São inimigos a serem exterminados, não importa de onde venham!
Ao ouvir isso, Antônia se surpreendeu: quem diria que o velho esotérico via as coisas com tanta clareza.
— Apesar de eu não concordar com todo esse seu papo de magia, você está certo: diante desses invasores mal-intencionados, temos mesmo é que destruir todos! — respondeu Antônia, lançando um olhar à criatura na jaula e perguntando, hesitante: — E esse... será que eu poderia...?
— De jeito nenhum, nem pense nisso — cortou Gui Zhen, categórico. Depois, voltou-se para Ícaro: — Já viram o bastante. Agora, leve sua namoradinha para fora, que eu vou acabar com este monstro e apagar qualquer vestígio.