Parece... que encontrei um fantasma?
Após as aulas da tarde, Imor conseguiu se livrar sozinho da insistência de Hou Xuan e dirigiu-se ao pequeno jardim junto ao rio. Naquele dia, Tong Junwen não estava, como de costume, lendo na biblioteca; acompanhou a mãe para resolver assuntos na prefeitura, o que fez com que Imor não precisasse esperar para levá-la de bicicleta até em casa.
Imor estacionou a bicicleta e tirou o uniforme escolar, revelando um corpo atlético, sem músculos salientes, mas que, a cada movimento, deixava transparecer uma força muito além da média. Só quando o sol quase se punha, ele terminou o treino do dia. Ao arrumar seus pertences para ir embora, sentiu de repente uma palpitação estranha no peito.
— O quê?! — Ergueu o olhar ao redor, percebendo que a atmosfera mudara. O jardim, antes vibrante à beira do rio, mergulhara num silêncio absoluto, as árvores pareciam perder as cores. O ar tornara-se espesso, exalando um odor pútrido, e a própria sensação de realidade se desvanecia.
Imor, tomado pelo pânico, olhou em volta tentando entender o que acontecia. Subitamente, próximo a um pavilhão junto à água, o ar se retorceu e, de repente, uma figura apareceu no mundo real: o tronco sólido, as pernas enevoadas. Era... um fantasma? Imor foi invadido por um terror profundo. A cabeça da aparição lembrava um cadáver ressequido, pele colada ao crânio, a boca desdentada abrindo e fechando-se de maneira horrenda. Vestia uma longa túnica, adornada com pequenos crânios de bebês, e motivos repugnantes e malignos ondulavam e flutuavam em seu corpo etéreo. Aquilo, definitivamente, não pertencia a este mundo!
Imor não queria acreditar no que via. Esfregou os olhos e olhou novamente. Não era ilusão! O simples aparecimento daquela entidade já alterava o ambiente de forma impossível para uma alucinação. A náusea, provocada pela presença, fez com que se engasgasse com ânsia. Era... era mesmo um fantasma!
Estariam gravando um filme? Imor olhou ao redor, desorientado. Nada! Não havia equipe de filmagem, câmeras, nem qualquer pessoa. Não havia fios ou suportes visíveis, nem como alguém pudesse estar ali suspenso. E, além disso, filmagem nenhuma causaria aquela sensação viscosa e repulsiva.
A trilha à beira do rio estava quase deserta, apenas uma funcionária de limpeza empurrava o carrinho de lixo. O jardim, normalmente tranquilo, agora inspirava um medo insondável.
Aquela senhora! Imor, tomado de urgência, tentou avisar para que não se aproximasse. Mas, ao dar alguns passos, ela foi sugada como se toda a vitalidade lhe fosse arrancada; num instante, a pele e a carne sumiram, e um esqueleto desabou no chão!
— Ah... ah! — Imor arregalou os olhos, incrédulo, sentindo o terror crescer em seu peito. Olhou para o vulto flutuante, apontando com o dedo trêmulo, sentindo o frio subir pela espinha e o corpo todo tremer sem controle. Era... era realmente um fantasma! Imor não era alguém facilmente assustado, mas jamais imaginara que encontraria algo assim de verdade!
Ao encarar a figura distorcida e assustadora, viu todo seu entendimento de mundo desmoronar diante de si.
Então, a mão da aparição brilhou intensamente. Não era luz branca, nem cor que se pudesse descrever. O ambiente tornou-se ainda mais pegajoso, o cheiro nauseante quase o impediu de respirar, e a linha entre real e irreal se diluía cada vez mais. Por um instante, Imor perdeu até a percepção da própria existência! Então, o espaço ao redor do fantasma se distorceu e, num piscar de olhos, tudo desapareceu. A sensação de realidade voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido.
O ar voltou a ser fresco, o canto dos insetos e dos sapos enchia o ambiente, as árvores balançavam ao vento. Ao olhar de novo, a funcionária jazia apenas desmaiada à beira do caminho — nada de esqueletos.
Imor, com o pescoço rígido, olhou ao redor e fixou o olhar no ponto onde a aparição sumira, incapaz de acreditar no que acabara de presenciar.
O corpo ainda sentia o efeito paralisante do fantasma, apesar de já ter desaparecido. Era como se tivesse encontrado seu maior predador: tremia sem conseguir controlar. Por um momento, sentiu todo o mundo se afastar, sem espaço nem tempo, sem alma ou memória, apenas um vazio absoluto.
Imor saiu correndo, tomado pelo pavor, pegou a bicicleta e fugiu dali na maior velocidade possível, sem se importar com a funcionária caída.
Num local onde Imor não podia ver, uma figura de uniforme cinzento observava tudo de longe, fria, sem intenção de intervir, como se assistisse a um inseto insignificante. Olhou de relance para o local onde o fantasma sumira, soltou um sorriso irônico e guardou displicentemente o objeto que segurava.
Era uma bússola de estilo antigo.
Em seguida, virou-se e desapareceu na escuridão. Antes que sumisse por completo, pôde-se ver as letras em suas costas:
"Esquadrão Especial C1"?!
...
Na manhã seguinte.
— Imor? — Tong Junwen inclinou a cabeça, olhando intrigada para o rapaz à sua frente.
— Aaah... — Imor, sentado na bicicleta, bocejou largamente; mal dormira na noite anterior. — Que foi?
— Olheiras... — a jovem mordeu levemente os lábios, apontando para os olhos dele.
— Nada, só não consegui dormir. — Imor esfregou os olhos ardidos, bateu na garupa da bicicleta. — Vamos logo, senão vamos perder lugar no café da manhã.
Tong Junwen o encarou por um momento e, como se tivesse entendido algo, sorriu de canto e sentou-se de lado na garupa, passando os braços pela cintura do rapaz. — Vamos.
— Uaaah... — Imor seguiu bocejando pelo caminho, sentindo o vento da manhã, enquanto Tong Junwen balançava atrás dele na bicicleta, avançando trôpego pela alameda de plátanos manchados de luz.
...
Ao meio-dia, como de costume, foram almoçar fora da escola. Com o calor, ninguém suportava a cantina com apenas ventiladores — era mesmo uma tortura.
Na verdade, não era apenas o refeitório; já havia se passado um terço do século XXI e, inacreditavelmente, a escola possuía ar-condicionado em pouquíssimos ambientes essenciais. Nenhum dos prédios de aulas, gabinetes de professores, refeitório ou ginásio coberto contava com o aparelho! O único espaço climatizado para os alunos era a biblioteca, que só abria à tarde, então os estudantes precisavam se virar.
A maioria, claro, optava por ir para casa descansar. Só Imor e Tong Junwen, que moravam longe, acabavam ficando na escola ao meio-dia.
Foram ao restaurante de sempre, sentaram-se e Tong Junwen logo tirou um livro e começou a ler em silêncio. Imor, por sua vez, foi até o balcão pedir a comida dos dois e buscou duas bebidas geladas para a mesa.
Enquanto a jovem lia, ele mexia no celular, tomando o refrigerante e esperando a comida.
— Imor, por que Hou Xuan está te incomodando? — Tong Junwen perguntou de repente, sem tirar os olhos do livro.
Imor sorriu. — Nada demais. É aquele jogo da Companhia dos Escolhidos, diz que já passou de cem milhões de jogadores online, parece ser realmente famoso.
— Companhia dos Escolhidos... — Tong Junwen levantou os olhos, pensativa. — Essa empresa é impressionante. A tecnologia VRI deles está cinquenta anos à frente do resto do mundo. Gostaria de conhecer a equipe de pesquisa deles.
Era quase um reflexo de sua vocação: Tong Junwen tinha um conhecimento muito acima dos colegas e só se interessava por avanços científicos de ponta. Não à toa, ainda no ensino fundamental, já chamara a atenção de um professor da Universidade Imperial, que pretendia recomendá-la para o programa especial de jovens talentos.
— Sim, é esse tal VRI. — Imor coçou o nariz. — Ele disse que me daria um aparelho, se eu aceitasse entrar para o time dele. Mas eu nem jogo.
— Se quiser, depois das provas podemos comprar um para testar. Também estou curiosa com esse tal ‘membro fantasma’ de que tanto falam. — Era visível o interesse de Tong Junwen.
— Mas até lá, não deixe que isso te distraia dos estudos. — advertiu, voltando a mergulhar no livro.
Imor deu de ombros. — Claro que recusei, não tenho interesse e não vou jogar. Mas, se você quiser experimentar depois, eu compro.
— Está bem. — murmurou Tong Junwen, assentindo suavemente.