05 Em Nome do Fogo (3)
Essa súbita reviravolta pegou Fogo Ardente completamente desprevenido.
Ele sabia que, neste jogo, os NPCs possuíam uma inteligência elevada e uma astúcia notável em combate, mas jamais imaginara que eles poderiam preparar armadilhas à espera dos jogadores. Aquela lagarto demoníaca, não se sabe por quanto tempo ficou à espreita, estava ali, aguardando por ele; e mesmo que não demonstrasse fraquezas, aquele grande demônio certamente criaria uma oportunidade para pegá-lo.
No entanto, não era hora de refletir sobre isso. Se não encontrasse logo uma solução, os demônios triunfariam.
Fogo Ardente respirou fundo, ajustou forçosamente sua postura para liberar energia e, num movimento rápido, brandiu sua espada contra a língua que o envolvia.
O golpe produziu um sulco profundo na carne, mas não trouxe o resultado esperado. A estrutura da língua da lagarto demoníaca era inexplicável, completamente imune ao corte de armas afiadas. Talvez a força do movimento e a grama amortecessem o impacto, mas o fato era que, por mais que tentasse, não conseguiria separá-la. Era inútil insistir.
"Maldição!" Fogo Ardente desferiu golpes consecutivos, mas a posição dificultava o ataque; aquela língua era impossível de vencer. Por fim, ele foi erguido e jogado ao chão com brutalidade, quase perdendo a arma.
Enquanto isso, os grandes demônios não estavam parados. Suas garras atingiram repetidamente Fogo Ardente, abrindo buracos profundos em seu ombro esquerdo e no abdômen. Ele pensou que ali seria seu fim; na vida real, ferimentos assim comprometeriam gravemente sua mobilidade, mesmo com sua constituição vigorosa. Felizmente, talvez por privilégio dos jogadores, as dores não eram tão intensas quanto imaginara, e os movimentos do braço e da cintura não pareciam afetados. Apenas o sangue escorrendo era de assustar.
Não percebeu que era graças a si mesmo: pessoas comuns, mesmo com a dor reduzida a um décimo, ainda ficariam incapacitadas; mas Fogo Ardente conseguia ignorar esse nível de dor com pura força de vontade.
Enfim, ele encontrou uma brecha. Quando a lagarto demoníaca o arrastou por um terreno firme, Fogo Ardente, com velocidade relâmpago, cortou a língua com a espada, penetrando finalmente a carne! Quanto mais resistente algo é por fora, mais frágil se mostra por dentro. A língua da lagarto não era diferente. A dor lancinante fez a criatura soltar um grito, liberando seu corpo e recolhendo rapidamente a língua ferida para a boca.
Mas havia um problema: a espada ficou presa na língua e foi arrastada junto! O movimento foi tão rápido que Fogo Ardente nem teve tempo de reagir. Agora, embora tivesse recuperado a liberdade, estava sem armas, e a situação não era menos perigosa.
Os grandes demônios estavam atrás dele; assim que se soltou, atacaram sem hesitar.
"xEl, tha‘La Mo no Dro!" O demônio proferiu palavras demoníacas, seu sorriso grotesco o tornava ainda mais aterrorizante, exalando um hálito de enxofre enquanto suas garras se lançavam contra as costas de Fogo Ardente.
Sem ter como evitar, Fogo Ardente girou o corpo e ergueu o antebraço esquerdo, protegendo-se com a armadura. O demônio rasgou a proteção, e as garras penetraram sua carne. A outra garra veio direto para seu pescoço.
Os jogadores geralmente enfrentavam demônios à distância; devido à força física dos demônios, se eles alcançassem o corpo a corpo, era um massacre. Nenhum jogador resistiria numa luta próxima, pois os demônios eram armas vivas.
Mas Fogo Ardente era diferente. Seu corpo, no mundo real, fora treinado até o limite humano. Ele era um mestre das artes marciais.
Neste momento, lembrou-se de que não era apenas um guerreiro no mundo do jogo; recordou-se de sua própria disciplina marcial.
'Explosão!' Sua mão direita começou a pulsar com um movimento misterioso. Se o jogo realmente simula a realidade em 99%, então essa técnica de energia deveria funcionar!
A mão direita de Fogo Ardente acelerou de repente, e, num golpe retardado mas preciso, atingiu os ossos dos dedos da garra esquerda do demônio. Para surpresa do monstro, os dedos, resistentes até contra espadas e facas, cederam completamente diante do punho daquele humano, fragmentando-se em pedaços! Com um único soco, o demônio perdeu sua garra esquerda invencível! A força destrutiva percorreu o braço, inutilizando-o por completo.
O demônio, em agonia, segurou o braço ferido. Não conseguia aceitar o que acontecera, tampouco entender o que aquele humano fizera; só podia uivar, tentando parecer ameaçador.
"Ha ha ha!" Fogo Ardente deixou cair o braço direito, trêmulo. Em meio ao desespero, usara uma técnica que também lhe causava dano severo; era uma estratégia de alto risco, sacrificar-se para destruir o inimigo. Sentia que, se usasse esse golpe mais uma vez, perderia o uso da mão; só se atrevia a fazê-lo no jogo.
Não havia tempo para recuperar-se; outro demônio avançou, rugindo de fúria. Era preciso eliminar rapidamente aquele que estava à sua frente!
Sem poder usar a mão, restava-lhe o pé.
"Ha!" Fogo Ardente avançou com um passo firme e, num golpe de joelho, atingiu o rosto do demônio. Chutes consecutivos o fizeram recuar; nunca antes enfrentara ataques assim, e ficou atordoado, incapaz de reagir. Fogo Ardente aproveitou a vantagem, sem piedade, desferindo um chute feroz na garganta do monstro, que rolou os olhos e caiu ao chão.
"Argh!" Fogo Ardente cuspiu sangue, virou-se para encarar o último grande demônio, sacou lentamente a espada curta de prata mística, sorrindo com carinho, "Preparado para morrer?"
O demônio sabia que, com todas as suas estratégias falhas, só lhe restava a morte. Desesperado, uivou alto.
"MenRa Tha! Hur anh'En Tha!" O lamento do derrotado ecoou longe, ressoando na escuridão, "MenRa no Mo!"
Então, o demônio avançou. Sabia que não sobreviveria, mas queria ao menos causar algum dano a Fogo Ardente.
Mas era inútil; suas garras, outrora orgulhosas, nada podiam contra a espada sagrada de prata mística. Ele viu suas garras sendo cortadas como tofu, e, em seguida, teve a cabeça decapitada com um só golpe.
Com a morte do grande demônio, as demais criaturas perderam o ímpeto. Eliminá-las era apenas questão de tempo. Fogo Ardente pensou nisso e sentou-se pesadamente num pequeno aclive. Sua espada não fora levada tão longe, logo a recuperou e deixou de lado; restava-lhe pouca água sagrada, apenas oito frascos concedidos por Curien. O melhor era usá-la em si mesmo.
Fogo Ardente segurou o frasco de água sagrada, abriu-o com o polegar e, lentamente, começou a pingar o líquido sobre seus ferimentos.
"Cura meu corpo, protege meu espírito, afasta as trevas, Deus salva os homens!" A luz sagrada se transformou numa força quente e suave, aquecendo suas feridas, que logo começariam a cicatrizar.
A água sagrada era um elemento misterioso, um líquido criado pelos seguidores da luz sagrada. Por conter poder divino, podia manifestar diferentes habilidades conforme as preces dos usuários durante o combate. Tornava armas mais afiadas, fortalecia poderes, acelerava movimentos, mas sua função principal era combater o mal. Embora não fosse tão destrutiva quanto o elixir demoníaco, nem tão curativa quanto a poção de restauração, sua capacidade de responder a diferentes pedidos tornava-a o item mais consumido pelos jogadores, indispensável em qualquer jornada.
Os jogadores não compreendiam bem o funcionamento da água sagrada, mas isso não os impedia de utilizá-la. Talvez estivesse relacionada ao verdadeiro deus do mundo do jogo.
Sentindo seu corpo se recuperar aos poucos, Fogo Ardente olhou para a linha de frente do grupo da Tulipa Negra.
Sem a liderança do grande demônio, embora os monstros ainda fossem numerosos como uma maré, já não conseguiam abalar a defesa dos jogadores. Só podiam se lançar, como mariposas ao fogo, sendo exterminados pelos combatentes. Parecia perigoso, mas a situação estava sob controle.
No primeiro dia neste mundo, vivenciara tantas experiências... Que lugar incrível. Fogo Ardente apertou a mão direita, deitou-se confortavelmente na relva. Embora só pudesse ver uma lua pálida em forma de arco, nada lhe tirava a satisfação.
Quando Fogo Ardente pensava que tudo estava resolvido, passos ecoaram na escuridão.
"Clack, clack, clack..." Parecia o som de botas de aço, avançando com calma, passo a passo.
Fogo Ardente ficou alerta, saltou de pé, pegou os últimos dois frascos de água sagrada e começou a abençoá-los. Enquanto fazia isso, uma silhueta emergiu da névoa escura.
Asas brancas? Um anjo? Por um instante, Fogo Ardente hesitou, interrompendo o movimento das mãos.
Não! Não era! Ao olhar atentamente, sentiu um profundo repúdio. Aquela criatura era uma profanação dos anjos!
O visitante ostentava um par de asas mutiladas, cobertas com bandagens. Diferente da pureza dos anjos, essas asas inspiravam repulsa e aversão. O corpo era esguio, com quatro braços: dois cruzados no peito, segurando espadas finas em forma de cruz, imitando o gesto angelical; mas os outros dois estavam cobertos de músculos retorcidos, como se derretidos, formando uma massa grotesca. O corpo inclinado, pois a cabeça era a de uma besta sem olhos, incapaz de se erguer como um ser humano, apenas projetando-se para frente. Onde deveriam estar os olhos, havia dois tumores; a boca, cheia de dentes afiados, estava costurada, respirando pesadamente. Vestia uma armadura de ferro nas pernas, longas e retas, caminhando com elegância; as botas de aço marcavam o chão com passos lentos e constantes, até parar diante de Fogo Ardente.
Era um tipo de criatura que ele jamais vira ou imaginara; havia duas delas, irradiando perigo por todo o corpo.
Os monstros pararam, descruzaram as mãos, apontando as espadas para o solo.
"Nós, anjos da morte do Senhor dos Cavaleiros de Valgralar, viemos cumprir seu decreto: tomar-lhe a vida." A voz estranha e rouca pronunciou palavras humanas.
Fogo Ardente ergueu sua espada abençoada, soltou um suspiro pesado. Apesar de estar neste mundo há poucas horas, já se encantara profundamente com a sensação de liberar sua força sem restrições. Aqui era o seu campo de batalha! Pensou ele.
"Venham! Não importa que tipo de monstros vocês sejam!" Fogo Ardente já estava no limite, mas seu espírito de luta permanecia intenso, "Em nome de Fogo Ardente! Vou destruir vocês!"