02 O Dilema do Retorno ao País e o Estratagema do Líder

Armas do Mundo Fantástico Fogo Escarlate Ardente 5364 palavras 2026-02-08 16:54:13

Imo sentia uma dor nos dentes e ainda não compreendia direito o que havia acontecido.

Por que, de repente, tinha sido espancado? Não, talvez não fosse exatamente isso. Ele sabia que tinha apanhado por "assédio", mas... como assim? Aquilo não era apenas um boneco? Por que seria agredido por ter mexido num boneco? E por que a Mestra do Jogo fingia ser um boneco imóvel? Mas, mais importante… por que ela lutava tão bem? Era difícil de acreditar que aquela moça delicada pudesse espancá-lo sem que ele sequer conseguisse reagir!

Mais importante ainda… onde estava ele agora? E quão longe ficava da Cidade dos Oito Desertos? Pensando bem, ele nem sequer tinha dito àquela suposta Mestra do Jogo para onde pretendia ir. Esperava que ela não o tivesse largado muito longe… mas era improvável.

Enquanto Imo permanecia atordoado, percebeu alguns jogadores se aproximando. Sem precisar ouvir, ele já sabia: eram estrangeiros. Isso fez com que fechasse os olhos de dor; subestimara a raiva da Mestra do Jogo.

Era certo que ela o havia largado na área reservada aos jogadores estrangeiros! Imo sentiu uma vontade súbita de bater com a cabeça na parede, mas estava com fome e sede. Após usar as últimas forças para derrotar aquela criatura de focinho pontudo e cauda longa, só lhe restou sentar-se junto ao muro, sem energia nem para se debater. Sua intenção era esperar ali até morrer de fome, na esperança de que, ao ressuscitar, voltasse para a área dos jogadores. Mas, já que encontrou outros jogadores, não precisava mais morrer.

De fato, o jogo fazia jus à propaganda da Companhia dos Escolhidos: 99% de realidade virtual, até comer e beber eram experiências realistas. Normalmente, quando um jogador entrava pela primeira vez ou ressuscitava no Templo da Reencarnação, o índice de saciedade do novo corpo era inferior a 30%, mas havia sempre uma ração básica de provisões. No caso de Imo, só podia culpar a má sorte.

Os jogadores estrangeiros mostraram-se amigáveis. Não sabia exatamente de que país eram, mas falavam inglês, e Imo conseguiu comida e água. Comeu e bebeu com voracidade até saciar-se. Nunca imaginara que a fome pudesse ser tão cruel; por um instante, pensou até em devorar a criatura que acabara de abater!

...

— Ei! Você me entende agora? — Imo falou assim que ativou o tradutor.

— Olá, você é chinês? — perguntou uma bela garota de cabelos ruivos.

— Sim, sou — respondeu Imo, bebendo água enquanto conversava. — Quem são vocês? Onde estamos?

— Somos do bando Tulipa Negra. Aqui é o Castelo do Conde Balzac — explicou ela, curiosa. — Você não sabe onde está? De onde veio?

— Tulipa Negra… Castelo do Conde Balzac… hum, de que país vocês são? — Imo ainda tentava se situar.

A garota ruiva pareceu surpresa, mas respondeu com sinceridade:

— Somos franceses, mas nosso grupo tem gente de vários países. Você não sabia que aqui é a área dos jogadores franceses? Este é o Reino da Cavalaria de Javia, uma das áreas de concentração dos jogadores da França!

Diante da revelação, Imo bateu na testa com amargura. Não queria mais papo. França! Este mundo era ainda maior que a própria Terra; quanto tempo levaria até voltar para a Terra dos Jogadores Chineses, o Leste?

— Eu… por motivos especiais, reencarnei aqui, largado neste ermo — suspirou Imo, sem saber o que fazer.

— Reencarnar no meio do nada? Que coisa absurda… — a francesa levou a mão à boca, perplexa, enquanto os outros espiões se entreolhavam. — Mas, espera… foi você quem matou esse gárgula? Com as próprias mãos?

Deus do céu! Os franceses mal podiam acreditar. Reencarnar e já matar um gárgula à mão limpa? Os estudantes chineses eram todos monstros?

— Ah! Sim, foi ainda de madrugada, havia vários mortos-vivos e esqueletos, fiquei apavorado… eu tenho medo de fantasmas… — Imo coçou a nuca, sorrindo sem jeito.

Era verdade! Os jogadores estavam abismados. Sabiam bem o quão difíceis eram os gárgulas — nada comparados às projeções de gárgula das masmorras; cada um deles era um oponente formidável, e derrotar um sozinho já era quase impossível, imagine então à mão limpa, e ainda com fome!

Se soubessem que Imo era um novato de verdade, talvez desistissem do jogo por completo.

Agora, os franceses olhavam para Imo com respeito, tratando-o como um mestre lendário. Decidiram levá-lo ao chefe do grupo, na esperança de recrutar um verdadeiro prodígio.

— A propósito, não nos apresentamos. Eu sou Hortelã, este é o nosso chefe de espiões, Zorro, e eles são Lince e Ana, nossos olheiros. E você? — a ruiva perguntou, animada.

— Senhorita Hortelã, prazer. Meu nome é... bem, no jogo sou chamado Chama Ardente — respondeu Imo, sorrindo.

— Senhor Chama Ardente, você é mesmo um poderoso aventureiro — disse Hortelã, piscando os olhos.

Imo apenas sorriu, sem dar importância ao elogio.

...

Quando Curien recebeu o relato, pensou que seus espiões haviam enlouquecido. Estava certo de que havia uma fera terrível na vila, mas os espiões voltaram dizendo que era uma pessoa? Um chinês? Um estudante chinês? Ele se chamava Mestre Dragão? Não, seu nome era Chama Ardente, nada fora do comum.

Os membros relataram que esse tal Chama Ardente estava faminto e era atendido pelo grupo de apoio. Curien, então, decidiu ir pessoalmente. Conhecia todos os aventureiros do Reino da Cavalaria de Javia, e nunca ouvira falar de um chinês chamado Chama Ardente, o que lhe aguçou a curiosidade.

Aventureiro era o nome dado na Terra de Xenia para os solitários que aceitavam missões de NPCs. Enquanto a maioria dos grupos temia sair para o ermo, o bando Tulipa Negra já era um dos mais fortes, e Curien e Hortelã ainda tinham conseguido armamentos místicos, o que lhes dava vantagem nas terras selvagens. Diziam que alguns aventureiros lendários podiam transitar livremente por aquelas terras mesmo sem armas mágicas, ignorando fantasmas e monstros. Curien, que conhecia bem o perigo das terras áridas, sempre achou que isso era exagero, mas agora parecia ter diante de si um desses aventureiros lendários.

Ao ver Imo, sentiu-se um pouco decepcionado. O chinês não era forte, vestia apenas umas calças esfarrapadas — cortesia do Templo da Reencarnação —, estava sem camisa, não tinha músculos aparentes e nem uma arma sequer. Não parecia em nada com o aventureiro lendário que imaginara.

Imo, por sua vez, estava muito satisfeito com o churrasqueiro Fernand. Nunca havia comido uma carne tão saborosa. Claro, não sabia que o paladar do corpo recém-criado ainda era mais sensível. Só pensava em comer. As rações não bastaram; só o churrasco perfeito de Fernand, sempre no ponto, poderia saciá-lo.

Antes de encher a barriga, ignorava os franceses curiosos ao redor.

— Tio Fernand! Você é um anjo! — Imo devorava a carne, sentindo um prazer indescritível. Se existisse paraíso, seria o forno de Fernand.

Fernand ria com gosto, limitando-se a assar mais carne dourada e suculenta, colocando diante de Imo, e batendo de leve em seu ombro, incentivando-o a comer.

Os franceses riam ao ouvir Imo chamar Fernand de anjo: um anjo gordo, de barbas longas? Só se Deus tivesse criado um anjo enquanto limpava o nariz.

Curien quase riu ao ouvir Imo; nunca vira alguém alternar entre a fome extrema e uma comilança desenfreada. Já valia como experiência de vida.

Foi quando Hortelã, sentada ao lado, viu Curien chegar e avisou Imo discretamente. Imo levantou a cabeça. Curien, com sua capa negra, impunha respeito, o que explicava sua liderança.

Curien aproximou-se, estendeu a mão calorosamente:

— Aventureiro Chama Ardente, prazer. Sou Curien, chefe do bando Tulipa Negra. Já ouvi falar de sua façanha: derrotar um gárgula à mão limpa é mesmo incrível!

Imo limpou as mãos e apertou a de Curien.

— Prazer, chefe Curien. Agradeço aos seus espiões e ao tio Fernand, senão eu teria morrido de fome logo após reencarnar.

— Não foi nada — Curien sorriu, e mandou que todos voltassem aos seus postos, deixando apenas Hortelã e Zorro. Pediu ao grupo de apoio para trazer roupas e um abrigo para Imo, e só então começou a conversar.

— Desculpe perguntar, mas por que você reencarnou aqui? — Curien estava intrigado.

Imo hesitou, mas respondeu sinceramente:

— Para ser honesto, hoje entrei pela primeira vez neste mundo. Queria nascer na área dos jogadores chineses, mas por certos motivos, acabei vindo parar aqui, no ermo.

— Hoje… você é um novato? — Curien ficou surpreso; Hortelã e Zorro nem conseguiam falar. Já o tinham em alta conta, mas a verdade era ainda mais impressionante. Existia mesmo esse tipo de gênio no mundo?

— É, mais ou menos. Não sou nenhum mestre, só caí aqui por engano — Imo deu de ombros, resignado.

Não, isso o fazia ainda mais impressionante! Os três franceses pensaram juntos.

— Só para confirmar: você começou o jogo hoje, entrou e já derrotou um gárgula à mão limpa?

— Se você está falando daquele monstro de focinho pontudo e cauda longa, então sim. Era forte, mas não tanto; era rápido e voava. É um monstro de elite?

Isso não era um monstro de elite! Era um dos chefes do castelo! Os três pensaram, sem dizer.

— Você usou artes marciais? Kung fu? — Curien fez um gesto típico de filmes de luta.

— Hum, não é bem isso, mas quase! — Imo coçou a cabeça. Sabia que os franceses não entenderiam a diferença entre artes marciais e kung fu; muitos chineses também não. Kung fu no teatro é diferente, são movimentos exagerados para o espetáculo. Já as artes marciais buscam a eficiência do corpo, usando a força com movimentos mínimos, sendo uma técnica de combate que depende muito do talento.

— Oh! Mestre Dragão! — Curien bateu o punho na palma da mão, como quem entende tudo, e Hortelã e Zorro assentiram convictos.

— Se vocês acham… — Imo olhou, sem jeito, para os franceses, que acreditavam ter entendido tudo.

— Então, grande Chama Ardente, quais são seus planos agora? — Hortelã perguntou, reverente e animada. Ela, que antes era uma socialite e agora uma poderosa guerreira, idolatrava os fortes.

Imo ficou constrangido:

— Não me chame de grande, por favor… só use meu nome de jogo.

— Sim, grande mestre, claro! — Hortelã assentiu rápido como um passarinho bicando sementes.

— Hum… Não sei… Existe algum caminho de volta para… a Cidade dos Oito Desertos? — Imo estava desconcertado com aqueles olhares brilhantes.

— Hum… — Curien interveio. — Desculpe, nosso grupo só atua aqui no Reino da Cavalaria de Javia, principalmente nas Terras Áridas de Peir, temos pouco contato com o exterior. Não podemos ajudar com isso.

Ao ver Imo desapontado, acrescentou:

— Mas, embora nós não saibamos, há quem saiba.

— Quem? — Imo reacendeu a esperança.

— Os nobres deste país! Os NPCs certamente sabem! — afirmou Curien. — Toda primavera e outono, caravanas de Javia viajam por todos os cantos, sempre apoiadas pelos nobres. Eles possuem mapas do continente de Xenia! Se conseguir um deles, poderá achar o caminho para o porto de ultramar!

Os olhos de Imo brilharam; fazia sentido, mas sentiu uma dúvida.

— Mas nunca ouvi dizer que nobres deem mapas ou informações aos jogadores! — observou Hortelã. — Eles não confiam em nós, proíbem passagem por certas rotas, e mapas completos só os grandes nobres possuem.

Na verdade, era ainda pior: jogadores que entravam em áreas proibidas eram mortos sem piedade; mapas eram tesouros clandestinos, raramente compartilhados. Em condições normais, Imo dependeria puramente da sorte para voltar à área dos jogadores chineses.

— De fato, em geral só os grandes nobres têm mapas completos e os pequenos não têm poder para isso. Mas, desta vez, surge uma oportunidade única — Curien ajeitou o bigode, sorrindo.

— Diga! — Imo animou-se. — Se for preciso algum pagamento, diga quanto. Se estiver ao meu alcance, está combinado!

— Não falemos de pagamento, mas sim de ajuda. E, na verdade, tem a ver com o seu desejo do mapa — Curien mudou de postura, ficando mais sério.

— Então somos parceiros! — Imo aceitou sem hesitar.

— Vou direto ao ponto — Curien pigarreou. — Este castelo se chama Castelo do Conde Balzac. Há mais de cem anos, a família Balzac era uma das mais nobres do Reino da Cavalaria de Javia, descendente direta dos capitães do grande mestre. Guardavam muitos documentos militares. Com a queda do castelo, os sobreviventes não puderam manter o título, mudando de nome. Uma linhagem tornou-se a família Elios. Graças aos esforços do patriarca anterior, conseguiram o título de visconde, mas ainda almejam restaurar a glória da família. A missão que nos deram é parte dessa tentativa. Se conseguirmos recuperar o símbolo do patriarca Balzac — o Grande Selo do Aciano —, o visconde Elios poderá exigir do grão-mestre a restauração do nome e do título.

— Não é fácil; a família Elios não tem força para entrar no ermo e retomar o castelo. O marquês Sayé, senhor do feudo de Colom, não quer outro grande nobre em sua região e rejeitou o pedido dos Elios, além de ter aniquilado a força mercenária que eles contrataram.

— O visconde Elios está desesperado, gastou suas últimas moedas de ouro — Curien cruzou as pernas, ajeitou o chapéu de plumas e concluiu com segurança — e, neste momento, só nós jogadores podemos ajudá-lo a recuperar o selo. Para isso, ele oferecerá o último tesouro da família Balzac…

Curien levantou-se, fez um gesto amplo e declarou com firmeza:

— Incluindo o mapa de campanha do Reino da Cavalaria de Javia!