Juventude aos Dezessete Anos
Ao meio-dia, como de costume, foi almoçar fora da escola com Tong Junwen. Com o calor que fazia, ninguém queria encarar o refeitório da escola, onde só havia ventiladores — uma verdadeira tortura.
E não era só o refeitório. Já estávamos no primeiro terço do século XXI e, inacreditavelmente, apenas algumas poucas salas essenciais do colégio possuíam ar-condicionado; todas as salas de aula, escritórios dos professores, refeitório, ginásio interno, nada de refrigeração! A única instalação aberta aos estudantes com ar-condicionado era a biblioteca, e mesmo assim, só funcionava à tarde. Restava aos pobres alunos buscar alternativas por conta própria.
A maioria preferia ir para casa descansar após o almoço. Apenas alunos como Imo e Tong Junwen, que moravam longe da escola, acabavam ficando por lá nesse horário.
No restaurante onde almoçavam normalmente, encontraram uma mesa. Tong Junwen sentou-se e tirou um livro, mergulhando na leitura em silêncio. Coube naturalmente a Imo o papel de escudeiro: foi até o balcão, pediu as refeições para ambos e voltou à mesa com duas bebidas geladas.
Enquanto um lia, o outro mexia no telefone, ambos saboreando as bebidas e aguardando a comida.
— Imo, por que Hou Xuan anda te procurando? — perguntou Tong Junwen sem desviar os olhos do livro.
Imo sorriu levemente. — Nada demais. Aquela empresa Escolhidos lançou um jogo qualquer que bateu a marca de cem milhões de usuários online. Parece impressionante.
— Empresa Escolhidos… — Pela primeira vez, Tong Junwen ergueu a cabeça, pensativa. — Essa empresa é realmente notável. A tecnologia VRI deles está cinquenta anos à frente do que existe hoje. Gostaria de conhecer a equipe de pesquisa deles.
Era o típico interesse profissional de Tong Junwen. Seu conhecimento já superava o da maioria de seus colegas, e só pesquisas e tecnologias de ponta ainda lhe despertavam o interesse. Não à toa, ainda no ensino fundamental, um professor da Universidade Imperial, que comandava um laboratório próprio, já havia cogitado recomendá-la para o programa juvenil da instituição.
— Sim, é esse tal de VRI. — Imo coçou o nariz. — Ele disse que me daria um aparelho, se eu entrasse para a equipe dele. Mas eu nem gosto de jogos.
— Se você tiver curiosidade, podemos comprar um depois das provas finais. Também quero descobrir o que é essa tal “fantasia fantasma” de que tanto falam — disse Tong Junwen, visivelmente interessada. — Mas até lá, trate de não perder o foco por causa dessas coisas.
Imo deu de ombros. — Recusei, claro. Não tenho interesse e não vou jogar. Mas, se você quiser experimentar, depois eu compro.
— Certo — respondeu ela, suavemente.
O restaurante estava lotado ao meio-dia. Como a comida ainda não havia chegado, Imo continuou mexendo no celular.
Procurava na internet relatos de experiências sobrenaturais parecidas com a sua. De repente, lembrou que havia publicado algo durante a aula. Abriu o fórum e viu que seu post já tinha inúmeros comentários.
“Se o autor não estiver jogando RPG, eu como o meu chapéu.”
“Quero só ver esse aí comer o chapéu. Acho que o autor está falando a verdade, sempre achei a cidade Long misteriosa.”
“Seja RPG ou não, o autor só pode ter tido uma alucinação para achar que viu um fantasma.”
A maioria das respostas eram discussões e piadas sem relevância. Alguns, porém, levavam a sério e sugeriam que ele fosse a um templo ou igreja buscar um amuleto de proteção — quem já viu fantasmas, diziam, ficava mais suscetível a coisas ruins, então era melhor se prevenir do que se arrepender depois.
Criado em um ambiente materialista, Imo não acreditava que uma estátua abençoada ou um crucifixo pudessem realmente proteger alguém. Mesmo assim, os comentários começaram a mexer com seu psicológico. Talvez não fizesse mal buscar um amuleto, só por precaução? Sentiu sua convicção materialista balançar.
Havia também quem, só para causar, postasse fotos assustadoras — algumas realmente repulsivas, mas, para Imo, a maioria era montagem exagerada. Reportou os piores casos e reparou que vários usuários já estavam silenciados.
Sem encontrar nada de útil, pensou: será que deveria mesmo buscar um amuleto?
Estava prestes a sair do fórum quando apareceu uma nova notificação. Não era resposta ao tópico, mas uma mensagem privada — alguém queria conversar diretamente com ele! Imo sentiu um fio de esperança. Talvez alguém que também tivesse passado por algo parecido? Empolgado, clicou no link.
“Não procure, não questione. Esqueça o que viu. Pense em sua família, não só em si mesmo. Saber demais nem sempre é bom. Cuide-se.”
A mensagem não exibia um usuário normal, apenas uma sequência de caracteres aleatórios, claramente não se tratava de um perfil comum. O coração de Imo disparou. Alguém conhecia a verdade! Sabia o que era aquele fantasma, sabia tudo sobre o caso! Sua visão de mundo materialista estava prestes a ser reconstruída ou desmoronar de vez, dependendo do que viesse a seguir. Imo ficou excitado e começou a digitar ansiosamente.
“Quem é você, ou vocês, afinal?”
Aguardou, recarregando a página sem parar.
“A curiosidade não é uma boa companheira, garoto. Não quero que acabe perdendo a vida por isso.”
“O que quer dizer? Pode ser mais claro? Só quero saber a verdade!” Assim que enviou, a mensagem falhou.
#Aviso: usuário não encontrado#
Apareceu o alerta na tela. Imo estremeceu. Como assim? Haviam acabado de conversar e, de repente, o usuário não existia mais? Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. O interlocutor parecia dominar não só o sobrenatural, mas também poderes bem reais e palpáveis. Se quisessem silenciá-lo... O medo apertou, não por si, mas por Tong Junwen.
Rapidamente, reabriu seu post e editou, removendo toda a descrição do ocorrido. Escreveu:
“Desculpem, pessoal. Estava entediado na aula e resolvi inventar uma história só para divertir. Para não confundir ninguém, apaguei o conteúdo. Afinal, vivemos num mundo racional, fantasmas e superstições não existem. Desculpem aí, podem dispersar!”
Após enviar e ver o post vazio, finalmente sentiu alívio.
Tong Junwen, percebendo algo estranho, ergueu a cabeça, intrigada.
— Imo? Aconteceu alguma coisa?
— O quê? Não, nada. Só estava lendo um desses relatos sobrenaturais, me assustei um pouco — disfarçou com um sorriso envergonhado.
Ela franziu o nariz delicadamente. — Pare de ler bobagens, vai acabar assustando a si mesmo.
De fato, era isso mesmo. Imo refletiu e, de repente, se acalmou. Se a intenção do remetente era avisar, e não agir diretamente, talvez não houvesse tanta maldade envolvida — do contrário, nem teria perdido tempo conversando. Tentou se tranquilizar: não devia ser uma organização cruel. Mas, pensando bem, tudo aquilo não confirmava a existência do sobrenatural? Será que fantasmas existiam mesmo?
Imo sentiu uma leve dor de cabeça. De qualquer forma, sua situação era desconfortável. Talvez, quem sabe, buscar aquele amuleto bento não fosse má ideia. Se não para ele, ao menos para proteger Tong Junwen. Resignando-se a aceitar um mundo menos racional do que gostaria, viu-se sem opções. Os amuletos religiosos talvez fossem a única maneira de protegê-la.
Com isso na cabeça, falou:
— Wenwen, depois da aula, vamos ao templo?
— Ao templo? — Ela olhou surpresa, sem entender a ideia repentina.
— Sim. Falta só um mês para as provas finais, queria pedir um oráculo de sorte. Muitos colegas já foram, dizem que o templo distribui amuletos do Imperador Wen Chang para quem presta provas. São milagrosos!
O Imperador Wen Chang, o lendário deus dos estudos, era tradicionalmente cultuado por estudantes antes de exames importantes. Não era invenção de Imo: a mãe de Hou Xuan, por exemplo, sempre pedia um oráculo para o filho antes das provas e lhe dava um amuleto. Claro, as boas notas de Hou Xuan vinham não do amuleto, mas dos resumos que Imo conseguia com Tong Junwen na véspera das provas. Imo não tinha familiaridade com objetos religiosos, mas se havia amuleto do deus dos estudos, certamente haveria também do caçador de demônios ou até do Rei Macaco. O importante era proteger Tong Junwen do mal.
O templo em questão era taoista. Restava apenas um sacerdote de meia-idade, pois o ancião, de quem diziam possuir verdadeiros poderes, havia morrido alguns anos antes. O novo responsável vivia do legado do predecessor, que ainda rendia algum sustento. Talvez conseguisse comprar algum amuleto antigo do tempo do velho sacerdote.
— Tudo bem — respondeu ela, sem objeções. Se era o desejo de Imo, ela o acompanharia.
…
Após o almoço, seguiram aproveitando o ar-condicionado do restaurante até o último instante antes da aula. Nem mesmo Tong Junwen, a garota prodígio, suportava a mesquinharia da escola.
— Se soubesse que o Colégio Yiyun não tinha ar-condicionado, nem teria vindo estudar aqui! — reclamou, tomada pelo calor, algo raro para ela. Afinal, poderia estudar em qualquer escola de destaque da cidade e seria recebida de braços abertos.
À tarde, suportaram mais uma sequência de aulas sob ventiladores girando loucamente. O cansaço da noite mal dormida cobrou seu preço: Imo dormiu na primeira metade da aula e, como punição, teve que passar a segunda aula em pé no fundo da sala. No fim do dia, ainda limpou sozinho a sala dos professores.
Quase às seis da tarde, Imo, exausto e coberto de pó, encontrou Tong Junwen lendo tranquilamente sob o ar-condicionado da biblioteca. Ao vê-lo naquele estado, não conteve o riso.
— Bobinho — disse ela, puxando-o para sentar, e começou a limpar o suor e a poeira de seu rosto com lenços de papel.
Depois de beber metade de uma garrafa de refrigerante que ela havia trazido, Imo sentiu-se revigorado.
Já eram seis horas. Como iam ao templo, ligaram para avisar que não jantariam em casa, comeram em outro restaurante e, após o jantar, Imo levou Tong Junwen de bicicleta em direção ao templo.