Romper do casulo!

Armas do Mundo Fantástico Fogo Escarlate Ardente 4816 palavras 2026-02-08 16:53:41

“Prezado usuário, por favor, mantenha-se calmo e siga minhas instruções para realizar uma série de movimentos.” Palavras flutuavam na escuridão enquanto Imar movia levemente o pescoço, percebendo que as letras piscavam bem diante de seus olhos, imóveis, tão claras como se alguém as tivesse escrito numa parede invisível.

“Primeiramente, precisamos registrar os sinais nervosos do seu braço e mão esquerdos.” Uma mão apareceu na escuridão; Imar pensou que fosse a sua, mas ao mexer os dedos percebeu que era apenas uma projeção.

Em seguida, surgiu um diagrama mostrando alguns movimentos.

“Por favor, realize com seu braço e mão esquerdos os movimentos indicados no diagrama.” Imar levantou a mão esquerda e seguiu o modelo. Um a um, os diagramas ficaram verdes.

“Obrigado pela sua colaboração.”

“A partir de agora, você pode controlar o membro virtual com os movimentos da sua mão esquerda.”

“Repita lentamente cada movimento até que o membro virtual consiga imitá-los.”

Imar hesitou ao levantar a mão esquerda, mas logo percebeu que a mão na escuridão tremeu levemente, assustando-o.

“Mantenha a calma e repita pacientemente os movimentos.”

Imar se recompôs e começou a movimentar a mão devagar, conforme o diagrama. No início, o membro virtual apenas tremia, mas, aos poucos, foi realizando os movimentos com mais amplitude e fluidez. Logo, ele já o controlava com facilidade. Curioso, ergueu a mão esquerda e trouxe o membro virtual diante de seus olhos. Apesar dos detalhes grosseiros, não havia dúvida de que era ele quem o controlava.

“Parabéns, você concluiu o primeiro exercício.”

“Os próximos passos exigirão ainda mais paciência. Mantenha-se tranquilo.”

“Agora, sem mover o braço real, tente movimentar o membro virtual apenas com sinais nervosos.”

“É hora de usar a sua imaginação!”

Imar ficou momentaneamente sem palavras, mas entendeu o objetivo: mover objetos com o pensamento. No mundo real, impossível; mas com o equipamento de VRI, isso era realidade no virtual.

Essa etapa levou mais tempo. Imar precisou de cinco minutos para controlar o membro virtual com a mente. Ver o braço dançando sob seu comando mental o deixou maravilhado. A tecnologia já havia chegado a esse ponto?

O que ele não sabia era que, normalmente, as pessoas levavam de dez a quinze minutos para concluir esse passo. Cinco minutos era simplesmente extraordinário.

O sistema também se surpreendeu.

“Muito bem! Você é um gênio! Uma sincronia divina!”

“Agora, é a vez da sua mão direita.”

“...”

Seguindo as instruções, Imar repetiu o processo para o braço direito, a perna esquerda e a perna direita.

“Parabéns, você dominou as operações básicas do VRI.”

“Agora, utilize seus membros virtuais para realizar as seguintes tarefas.”

“Tarefa um: teste de corrida cruzada. Use a mão esquerda para segurar o tornozelo direito e a mão direita para segurar o tornozelo esquerdo. Corra cinquenta metros no cenário virtual.”

A tarefa era estranha e, ao cruzar as mãos, facilmente se confundia nos comandos. Mas Imar logo se adaptou e completou rapidamente os cinquenta metros.

“Excelente, você já domina completamente o uso dos membros virtuais!”

“Tarefa dois: teste de agarrar bolas coloridas. Seus membros virtuais mudarão de cor aleatoriamente; não agarre bolas da mesma cor. Erros resultam em três segundos de paralisia. Pegue mais de quatrocentas em sessenta segundos.”

Imar quase entrou em desespero. Mesmo sem a troca de cores, o padrão comum era pouco mais de trezentas. Agora pediam quatrocentas! Seriam todos jogadores desse jogo monstros? E ainda havia a armadilha mental de evitar cores iguais. Não era apenas eliminar uma de sete, pois o tempo de evitar é maior que o de escolher. Um experimento mental simples mostraria isso: é mais rápido dizer “vermelho, vermelho, azul, verde” ou “não vermelho, não azul, não verde”? A lógica é evidente.

Imar rangeu os dentes e começou.

Primeira tentativa: paralisia em dez segundos, outra aos vinte e três, fracasso.

Segunda: paralisia aos dezenove, trezentos e setenta bolas, fracasso.

Na terceira, concentrando-se ao máximo, conseguiu: quatrocentas e trinta e quatro! Finalmente, sucesso!

Se um teste já era tão difícil, por que tanta gente buscava esse jogo? Imar não pôde deixar de se perguntar.

“Parabéns, excelente desempenho!”

“Tarefa três: teste de escalada e salto. Agora seu corpo ignora as leis da física. O espaço será preenchido por blocos; suba pelos blocos que surgirem nas laterais e alcance a plataforma a seiscentos metros em sessenta segundos.”

Na primeira tentativa, Imar ficou preso entre dois blocos a duzentos metros. Por sorte, com a “trapaça” das leis ignoradas, conseguiu na segunda tentativa, por um triz.

“Tarefa quatro: este é um labirinto tridimensional. Você pode girá-lo e movê-lo com os membros virtuais. Trace a rota de fuga.”

Imar pensou que realmente era um produto de alta tecnologia. Conseguir o direito de uso não era simples. O labirinto era difícil; transformá-lo de duas para três dimensões aumentava a complexidade exponencialmente. Foram quase dez minutos de tentativas até concluir.

“Tarefas finalizadas, ótimo desempenho!”

“Fim desta etapa.”

“Relaxe, a próxima imagem servirá para acalmar seu sistema nervoso.”

A escuridão desapareceu, dando lugar ao brilho de luzes fluindo, distantes e próximas ao mesmo tempo, até que tudo se tornou nítido. Imar sentiu-se avançando devagar. Inúmeros pontos de luz começaram a brilhar, formando padrões misteriosos: poliedros que mudavam de tamanho, garrafas de Klein girando, e outras estruturas que Imar nunca vira. Ele apenas observava enquanto tudo girava ao redor e sumia atrás de si.

As luzes aumentavam, formando uma galáxia esplêndida diante de seus olhos. A magnífica cena fez Imar esquecer de respirar.

Aos poucos, os pontos de luz se dispersaram, formando um espaço branco sem limites.

“Agora, realizaremos a última etapa da inicialização.”

“Como uma borboleta que rompe o casulo, um novo mundo está próximo.”

“Você pode sentir algum desconforto ou dor agora, mas não se preocupe. É apenas uma ilusão causada pela integração neural do membro fantasma.”

“A integração começará em dez segundos.”

“Dez.”

“Nove.”

“Oito.”

“Começar!”

Antes que pudesse reclamar, Imar foi subitamente envolvido por uma sensação avassaladora, como se um trem bala esmagasse sua cabeça com um estrondo. Uma dor explosiva quase o fez gritar, mas, no instante seguinte, tudo desapareceu, restando apenas o vazio, como se a dor nunca existira.

“Membro fantasma carregado!” Uma luz suave e intensa varreu tudo.

A última coisa que viu foi esse aviso antes de perder a consciência.

...

Ninguém sabe quanto tempo passou até que Imar recobrasse a consciência. Sentia-se deitado no chão, mas não sentia mãos, pés, nariz, boca ou ouvidos. Ao se dar conta disso, sentiu medo, sem saber o que tinha acontecido. Então, uma voz de origem indefinida soou.

Era um contralto feminino, suave.

“Olá, caro cliente. Parabéns, você concluiu a inicialização do equipamento VRI. Siga minhas orientações e estenda seu membro fantasma.”

“É normal sentir-se desconfortável agora. Por favor, relembre os exercícios anteriores e imagine-se encolhendo em um corpo sólido. Pode imaginar-se como um slime, uma água-viva, ou qualquer outro ser mole que conheça.”

Imar, ao entender o que acontecia, ficou sem palavras. Queria reclamar, mas sem boca, restava-lhe apenas se recompor. Pensou em slime ou água-viva, mas rejeitou ambas. Então lembrou-se de um personagem de uma obra-prima do século passado, que via quando criança: um ser de força descomunal, ainda que não fosse o ideal de beleza... Mas serviria! Majin Boo!

Concentrando-se, Imar sentiu sua forma tomando consistência: de um estado caótico, tornou-se líquido; depois, viscoso; até que uma figura humanoide ergueu-se, com braços, pernas, tronco, cabeça e, por fim, feições. Quando não restava mais nenhum traço líquido, lá estava Majin Boo completo no espaço.

Imar abriu os olhos devagar, examinou braços, corpo, pés, tocou a cabeça. Sim! A transformação fora um sucesso.

“Pa-parabéns, caro cliente... você aprendeu a operar seu... seu membro fantasma.” Não sabia se era problema do sistema auditivo, mas Imar achou a voz entrecortada.

“Como se sente? Algum desconforto?”, perguntou a voz feminina.

“Sinto-me... ótimo!” Imar sorriu, mas no rosto de Majin Boo o sorriso parecia grotesco e assustador. “Sinto como se tivesse sido libertado de algemas; nunca estive tão leve e livre!”

Movimentando braços e pernas, abaixou-se e saltou: subiu mais de dez metros! Ao cair, agachou-se e disparou correndo, tão rápido que deixou rastros no ar. Animado, testou socos e movimentos de luta. Fazia muito tempo que não liberava sua força. Muitos gestos jamais seriam possíveis no mundo real, mas ali, no virtual, sentiu-se completamente livre, quase onipotente.

Vendo Imar brincar, a instrutora invisível pareceu assustada: “Se-senhor, pare um instante, por favor!”

Imar obedeceu, envergonhado, coçando a cabeça: “Primeira vez nesse novo mundo, acabei exagerando, desculpe.” Mas, na pele de Majin Boo, até esse gesto era assustador.

A instrutora se recompôs e continuou: “Parabéns por concluir a primeira compactação do membro fantasma. Essa forma é instável e não pode ser usada no jogo. Agora, siga minhas instruções para realizar a segunda compactação.” A voz feminina lia como se seguisse um roteiro; o resto só Deus saberia.

“Geramos uma projeção do seu corpo escaneado. Agora, realize a segunda compactação dentro da projeção.” Ao terminar de falar, a silhueta de Imar foi projetada à sua frente.

Imar observou, curioso: todos os seus detalhes haviam sido escaneados para o mundo virtual. Seguindo as orientações, guiou o corpo de Majin Boo até a silhueta e iniciou a segunda compactação. Dessa vez, o processo foi rápido. Imar sentiu o corpo solidificar, não precisando mais se concentrar para manter a forma. Contudo, ao final, perdeu a sensação de onipotência da primeira forma, apesar de ainda ser muito mais forte que no mundo real.

“Agora, essa forma pode ser usada diretamente no jogo, na loja virtual ou em outros centros sociais. Parabéns, as portas do novo mundo estão abertas para você.”

Sentindo esse novo corpo e mundo, Imar se encheu de alegria, percebendo uma transformação interna.

“Deseja ver o mundo exterior por vídeo?” perguntou a instrutora.

Imar lembrou-se do que vira outros clientes fazerem e achou interessante, então assentiu.

Uma tela se abriu à sua frente. Após uma fração de segundo, apareceu o mundo exterior. Logo viu Hou Xuan acenando e retribuiu. Pensou: ali estava ele no mundo virtual, Hou Xuan no real. Com uma pitada de humor, gritou no alto-falante: “Ei! Amigos aí fora, tudo bem com vocês?!”

Hou Xuan fez cara de quem não queria papo: “Deixa de brincadeira, sai logo daí, vamos embora!”

Imar riu, fechou a tela e perguntou: “Como faço para sair?”

“No canto da sua visão, onde a tela fecha, há um ponto. Todas as operações do sistema podem ser acessadas ali: monitoramento corporal, PDA, etc. Esse ponto está na sua zona cega; se não olhar direto, não o verá.”

“Existe ponto cego na realidade virtual?” Imar perguntou, curioso.

“Claro! O mundo da VRI simula 99% do real.”

O tal ponto cego é onde os nervos da retina se cruzam e não captam imagem. Imar se espantou ao saber que a VRI simulava até isso. Métodos para identificar o ponto cego abundam na internet; quem quiser, pode experimentar.

Tateando, Imar encontrou o ponto, abriu o menu da VRI, localizou o botão de saída e ordenou: “Sair!”

No instante seguinte, Imar acordou na cadeira em forma de ovo; as lentes voltaram a ser semitransparentes. Soltou o cinto de segurança e a cadeira voltou à posição vertical.

Retirou o VRI, massageou a cabeça, mexeu mãos e pés e se levantou. Sentia algo estranho na mente, como se tivesse algo a mais ou a menos – talvez a sensação de perder um braço. Sabia o que faltava: o “membro fantasma”, este órgão invisível que só podia ser usado na VRI. Quando não o usava, sentia-se incompleto.

Imar balançou a cabeça, sorriu e, pegando o VRI, dirigiu-se para a saída.