10 Torre da Prisão, Andar Superior
A torre da prisão era dividida em dois níveis: o inferior e o superior. O nível inferior abrigava masmorras e celas inundadas, destinadas aos criminosos mais perigosos. O ambiente do nível superior era consideravelmente melhor, normalmente servindo como escritório e dormitório do diretor da prisão, além de lugar destinado ao encarceramento de nobres. Cem anos atrás, durante a invasão do exército do Abismo, a sólida torre da prisão se tornou o último reduto de resistência no castelo do Conde de Balzac. Por fim, os descendentes do conde trancaram o andar superior da torre e aproveitaram para saltar pelas janelas até o lago, escapando por pouco.
Por isso, o andar inferior da torre ficou infestado de fantasmas e criaturas, enquanto o andar superior, selado, permaneceu em condições muito melhores. Se o Bando da Tulipa Negra conseguisse tomar o andar superior, poderiam limpar o caminho bloqueado e acessar diretamente o andar nobre do castelo, sem precisar cruzar todo o pátio interno e enfrentar as criaturas do castelo — o que equivaleria a declarar guerra a todos os fantasmas e aos senhores gárgulas, um ato de pura insanidade.
Assim, para cumprir a missão encomendada pelo Visconde Elios, a maneira menos arriscada era invadir e ocupar rapidamente a torre da prisão.
Como era esperado, sem a proteção de muitos zumbis e ghouls, os fantasmas do andar inferior não eram mais fortes do que os jogadores. Gárgulas detestavam aquele ambiente. Depois de derrotar o único cavaleiro negro, outrora um carcereiro, abriram caminho para o andar superior da torre.
Curien retirou um pergaminho entregue pelo Visconde Elios, verificou as marcações secretas e removeu alguns tijolos da parede, revelando um buraco escuro com ranhuras em espiral. Então, um sujeito corpulento pegou das costas uma barra de ferro em forma de T e começou a encaixá-la nas ranhuras. Foi quando Fogo Vivo entendeu por que aquele jogador ficara tanto tempo apenas carregando aquele objeto de um lado para o outro — era para isso!
— Este é um bastão giratório, réplica feita pelo Visconde Elios com base nos registros antigos — explicou Curien a Fogo Vivo. — O original era de madeira, mas, após tantos anos, apodreceu. Por isso, ele pediu a um ferreiro que fizesse um de ferro. Parece simples, mas as roscas não são algo que qualquer ferreiro consiga reproduzir.
— Parece interessante. Deixe-me tentar girar isso? — Fogo Vivo arregaçou as mangas.
— Nem pensar! — Curien interveio suando frio. — Essa coisa não é usada há cem anos! Ninguém sabe o que pode acontecer. Deixe que eles cuidem disso; se algo der errado, ainda há como resolver. Mas se você for, e girar demais, quem vai responder por isso?
Mint, ao lado, riu discretamente. Fogo Vivo, contrariado, apenas recolheu a mão e observou os guerreiros de escudo em ação.
— Preparado! — anunciou um dos guerreiros após confirmar que o mecanismo ainda funcionava. — No três, todos juntos! Um, dois, três!
— Vamos! — bradaram em uníssono enquanto giravam o bastão lentamente. O mecanismo rangeu por dentro da espessa parede, o som lembrando uma bicicleta velha sendo posta em movimento após anos ao relento. Ficava claro, só de ouvir, que estava completamente enferrujado.
Conforme o mecanismo girava, o som deslocava-se das paredes para o teto, ascendendo a alturas desconhecidas. O fato de ainda funcionar depois de cem anos inspirava respeito nos jogadores. De repente, uma fenda se abriu no teto, e todos se aproximaram, ansiosos para ver o que aconteceria.
Mas… com um estrondo ensurdecedor, o teto apodrecido explodiu! Uma torrente de substância negra e indefinida, parecida com algum tipo de dejeto, caiu sobre todos, deixando-os cobertos da cabeça aos pés.
— Cof, cof, cof! — Fogo Vivo, que estava mais perto, foi intoxicado pelo fedor nauseante e profundo daquilo, cambaleando para fora enquanto puxava Mint consigo. A pobre francesa quase desmaiou com o cheiro.
— O que é isso, pelo amor de Deus? — perguntou Fogo Vivo, fazendo uma careta.
— Cof, cof! — Curien também tossia, mal conseguindo respirar. — Desculpem, desculpem, eu esqueci… depois de tantos anos, tudo no duto devia ter apodrecido completamente...
— Chefe, você nos deixou numa roubada! — reclamou um jogador com vontade de chorar.
— Urgh! — Alguns jogadores se curvaram, vomitando no local.
O cheiro era realmente insuportável, repelindo física e psicologicamente todos ali.
Quando o odor se dissipou um pouco, Fogo Vivo voltou com Curien à torre. Ainda podiam sentir um leve cheiro, mas nada comparado ao anterior. Olhando para cima, viram que a fenda aberta era, originalmente, um acesso por onde se subia uma escada de madeira, retrátil por mecanismo — útil em casos como a invasão do Abismo, cem anos atrás. Agora, qualquer vestígio de escada havia desaparecido, restando apenas o buraco escuro.
— Como vamos subir? — Fogo Vivo mediu a distância com a mão, achando impossível saltar até lá.
— Fácil! — Curien observou e mandou trazer varas de ferro finas, amarradas com fios de rede de pesca, que arqueiros lançaram para cima. Para pessoas comuns, seria impossível escalar, mas para os batedores, bastava. Zorro e alguns companheiros logo subiram.
Depois de alguns minutos de trabalho, baixaram uma escada de corda. Os demais a fixaram e começaram a subir.
O andar superior da torre era bem mais agradável. Apesar dos corredores bloqueados, era fácil limpá-los por dentro. De um lado, havia janelas, cobertas de plantas estranhas, mas que, uma vez removidas, não impediam o uso. Os móveis estavam todos podres — era necessário uma grande faxina.
— Senhores — Curien bateu palmas para chamar atenção. — Todos viram a situação aqui. Antes de lutarmos, precisamos limpar tudo...
— Ah, não! — lamentaram os jogadores, lembrando do sofrimento que foi cavar zumbis na vila. Agora, mesmo sem precisar lidar com corpos, essas massas apodrecidas não pareciam melhores.
— Vamos, mãos à obra! — Curien incitou o grupo, que provavelmente, na vida real, dormiria em canis de tão preguiçosos.
Fogo Vivo também ajudava a limpar as substâncias negras, usando sua espada como pá, já que faltavam ferramentas. Felizmente, era um jogo: as armas não se danificavam fora de combate. Caso contrário, sua espada choraria. Os outros jogadores, igualmente contrariados, sacaram suas armas para retirar entulhos dos quartos e arrancar as vinhas sobrenaturais das janelas, queimando-as depois. Assim, pouco a pouco, o andar superior da torre foi se transformando, ganhando vida e tornando-se habitável.
O maior dos cômodos, o antigo escritório do diretor, foi eleito como sala de operações do Bando da Tulipa Negra. Quando Fogo Vivo foi até Curien, eles improvisavam uma mesa de reuniões com suportes e espalhavam mapas e plantas do castelo sobre ela.
— Ei, Curien! — saudou Fogo Vivo.
— Ei, bom trabalho! — Curien respondeu.
— Fogo Vivo, venha experimentar isto — disse Mint com um sorriso, entregando-lhe uma bebida colorida. Como mulher, ela tinha o privilégio de evitar os trabalhos pesados.
— Ah, senhorita Hortelã, muito obrigado! — Fogo Vivo tomou metade de um gole só. Era deliciosa, com um frescor peculiar que acalmava o espírito. — Está realmente ótima!
— É hidromel dos elfos do vento, uma bebida muito rara — disse Mint, piscando. — Só ofereço porque é você, Fogo Vivo.
— Ah… fico até sem jeito — respondeu ele, coçando o nariz, sem saber lidar com o charme da francesa. Mudando de assunto, falou com Curien: — Chefe, vou precisar sair do jogo, só vim avisar vocês.
— Oh, já está na hora? — Curien olhou o relógio instintivamente. — Então não perca tempo, pode sair naquele quarto. Era o dormitório do diretor — serve como abrigo seguro.
— Certo, então vou indo! — disse Fogo Vivo, devolvendo o copo vazio a Mint. — Senhorita Hortelã, obrigado pela gentileza! Até amanhã!
— Não se atrase para entrar amanhã, hein? — Mint lambeu os lábios com voz sedutora.
— Cof! — Fogo Vivo não aguentou. — Sim, sim, até amanhã, senhorita Hortelã! — E quase fugindo, entrou no quarto, ouvindo a risada satisfeita de Mint atrás de si.
Já no quarto, Fogo Vivo balançou a cabeça, suspirou e, acalmando-se, buscou o comando no menu e disse em voz alta: — Sair!
Um clarão brilhou e o avatar de Fogo Vivo deixou aquele mundo.