01 Tulipa Negra e a Fera Humana
Ao amanhecer, Isabella saiu do seu acampamento. No tempo real, eram cinco e meia da tarde na França, mas o tempo do jogo era geralmente invertido em doze horas em relação ao local, ou seja, no mundo virtual marcava cinco e meia da manhã. Essa configuração permitia que a maioria das pessoas não tivesse seus horários de sono prejudicados: quando os habitantes locais encerravam o trabalho e os estudos e começavam a vida noturna, o outro mundo estava prestes a iniciar um novo dia. Naturalmente, se algum jogador local preferisse criar seu personagem em uma região do hemisfério oposto, poderia sincronizar o tempo do jogo exatamente com o horário de sua cidade.
Isabella, como estudante da Universidade de Bordéus, deveria estar em alguma cafeteria, aguardando o início da vida noturna. Suas amigas estavam exatamente assim naquele momento: preferiam se encontrar com rapazes igualmente despreocupados, degustar alguma iguaria, abrir uma garrafa de champanhe e, se possível, acender um charuto especial. Após algumas horas de diversão, terminavam a noite em um carro, no cinema ou mesmo em alguma floresta isolada, entregando-se a um momento romântico.
Desde que conheceu o VRI, Isabella nunca mais participou desses encontros. A jovem de cabelos ruivos, que antes desprezava os rapazes aficionados por jogos, agora fazia como eles: ao fim das aulas, ia direto para o apartamento, preparava uma massa, pedia uma pizza ou, às vezes, recorria ao frango apimentado agridoce do restaurante chinês. Comia às pressas e não via a hora de mergulhar no mundo de Illusion Arms.
Ela amava esse novo universo.
Amava também seus companheiros. Eles não eram como os nerds que ela imaginava, especialmente o líder do grupo. Se o comandante quisesse algo mais do que amizade, Isabella não hesitaria, afinal, estava na terra do romance. Mas, por ora, ela já não sentia tanto interesse ou paixão por essas questões: diante dos olhares calorosos de alguns membros do grupo, ignorava-os. Agora, queria ser uma boa garota.
Tudo isso mudou quando se apaixonou pelo misterioso novo mundo. Desde que começou a jogar, aprendia algo novo a cada dia. Comparando sua vida atual, repleta de descobertas, com a anterior, sentia-se como se tivesse vivido num chiqueiro! Ser apenas uma fêmea entregue ao instinto ou uma exploradora de um novo mundo? A escolha era óbvia.
— Menthe! Boa... digo, bom dia! — saudou uma voz animada atrás dela.
Menthe era seu nome de batalha, mas seus companheiros franceses a chamavam pelo nome francês. Isabella virou-se e viu Lucas, o batedor do grupo, um garoto de dezesseis anos vindo de Bruxelas, que havia se juntado ao grupo de franceses. Sempre a olhava tímido, chamando seu nome com entusiasmo. Antes, talvez tivesse vontade de experimentar aquele rapaz envergonhado, mas agora não era mais uma criatura movida por desejos; era uma guerreira forte.
— Lucas — respondeu Isabella, com o habitual tom sedutor e brincalhão —, espero que hoje você não fique para trás.
O rosto de Lucas ficou vermelho, ele gaguejou e, antes que conseguisse responder, saiu disparado.
Isabella deu uma risada e não se preocupou mais.
Jogava em modo panorâmico, controlando seu corpo virtual para inspecionar as linhas de defesa e armadilhas montadas no dia anterior, enquanto jantava. Em meio ano, aprendera a dividir a atenção entre dois corpos.
Era incrível pensar que, alguns anos antes, controlar dois corpos era coisa de filme de Hollywood. Agora, o VRI fazia parte da rotina. Afinal, ferramentas controladas pela mente eram antes associadas apenas à magia ou superpoderes!
Isabella, enquanto recolhia os restos da cozinha, circulava pelo acampamento. Ainda não era hora da reunião, mas, para ela, era essencial que um bom guerreiro arrumasse tudo antes dos companheiros.
Então, satisfeita, largou o VRI, despiu-se e foi tomar banho.
...
Quando Isabella voltou ao jogo, os companheiros já estavam ao redor da fogueira, tomando o café da manhã. Era curioso: apesar de terem acabado de jantar na vida real, ao entrar no jogo logo preparavam o desjejum. Afinal, os corpos virtuais haviam ficado uma noite inteira — o equivalente a um dia inteiro para os jogadores — sem comer, e era preciso energia para a missão.
No mundo real, Isabella já estava deitada, vestindo roupas largas. Usava o modo de imersão, que deixava o corpo mais ágil e a audição mais apurada, por isso ouviu, de longe, o que os outros conversavam.
— Ei, adivinhem o que ela disse? — era Trigger, o americano, segundo estrangeiro do grupo, sempre alto e espalhafatoso.
Os homens riam enquanto comiam torradas, especialmente Fernand, o grandalhão barbudo de Clermont-Ferrand, que ria tanto que quase parecia ter uma crise de asma enquanto despejava cerveja pelo chão.
— Ela me empurrou, jogou a camisinha na minha cara e, segurando a barriga, ameaçou: ‘Da próxima vez que usar esse sabor de menta, corto seu brinquedinho fora!’
A gargalhada foi geral, com todos batendo os pés, especialmente Fernand, ajoelhado, golpeando o chão de tanto rir.
Isabella sorriu friamente, sacou uma das três flechas de cristal de gelo, armou o arco, mirou e disparou! A flecha atravessou as nádegas de Trigger e saiu pelo abdômen, pregando-o no chão enquanto uma camada de gelo ia congelando sua metade inferior. Ele não morreu de imediato e ainda ouviu a voz fria de Isabella:
— Não se preocupe, vai doer só um pouco. O tio Fernand vai cuidar do seu equipamento.
O gelo subiu até o tronco, mas, em vez de gritar de dor, Trigger virou-se, fez continência e assobiou:
— Saúdo você, senhorita Menthe! De qualquer forma, sempre vou te amar!
E, assim, congelado em pose de continência, virou uma bela estátua de gelo.
Os homens riram ainda mais, brindaram, enquanto Fernand, sem forças para segurar o copo, ajoelhado, ria descontrolado.
— Cof, senhorita Menthe, agora perdemos um atirador de elite — disse o comandante Curien, o único que não participara das piadas, tomando sua tigela de mingau de aveia. — Ele vai ter que renascer no Templo de Colônia, não poderemos contar com ele hoje.
— Ainda tenho dois atiradores de elite aqui — Isabella exibiu as duas flechas restantes, erguendo a sobrancelha e falando com voz sedutora —, e disparar com elas dá um prazer incrível...
Curien desviou o olhar, sem saber o que fazer com ela. No fim das contas, perder um atirador antes da batalha não seria um problema. O castelo do Conde de Balzac não guardava adversários tão perigosos — os únicos incômodos seriam os gárgulas. Se Menthe usasse suas flechas de gelo, não haveria problema.
O grupo terminou o café, e Curien ordenou a partida.
...
A Irmandade da Tulipa Negra era uma das mais fortes e ativas nos ermos. Enquanto a maioria dos jogadores precisava explorar masmorras para obter recursos, eles cruzavam as terras selvagens infestadas de monstros, provando sua força. Não precisavam mais marcar seus nomes na Pedra dos Escolhidos; negociavam diretamente com nobres NPCs e conseguiam tudo que precisavam para forjar armas poderosas do outro mundo.
Na verdade, as flechas de cristal de gelo de Menthe eram prova disso: capazes de abater Trigger com um único disparo, demonstravam bem o poder do armamento do mundo ilusório — ainda que o ataque tivesse sido uma surpresa, não havia dúvidas sobre sua força.
Neste jogo, eliminar alguém não era fácil. NPCs e jogadores eram igualmente inteligentes, e ninguém ficava parado esperando ser morto. Para derrotar completamente um adversário, fosse jogador ou não, só havia dois caminhos: ter um poder esmagador ou possuir uma arma do mundo ilusório.
Desta vez, a Tulipa Negra aceitara a missão do Visconde Elios de Colônia: explorar o castelo do Conde de Balzac, tomado por monstros há mais de um século, e recuperar o brasão de centáurea perdido por seus ancestrais. Era um artefato valioso: com ele, o visconde poderia recuperar o título de conde. Para os jogadores, porém, não tinha utilidade. Se fosse de algum valor para eles, os nobres não contratariam aventureiros para essas tarefas.
O grupo desmontou o acampamento, carregou tudo em quatro carroças e seguiu pela estrada de terra em direção ao destino.
...
Duas horas depois, avistaram ao longe o castelo antigo. Era uma fortaleza de nobre comum, mas de dimensões consideráveis, parecendo uma pequena montanha cercada por muros baixos. Esses muros, porém, eram suficientemente altos para deter escadas de cerco, revelando a verdadeira grandiosidade do castelo. Mesmo assim, há cem anos os monstros o invadiram, e suas torres agora serviam de ninho para gárgulas.
No carro da frente, Curien ergueu a mão, ordenando parada.
— Atenção! Vamos montar acampamento aqui. Equipe de apoio, prepare as defesas. Os outros, fiquem atentos!
Com a ordem, todos se puseram a trabalhar. Fernand liderou o grupo de apoio para erguer defesas temporárias, enquanto os demais vigiavam e os batedores armavam armadilhas e fios de alarme mais adiante. Prudência e prevenção eram as regras de ouro da Tulipa Negra.
Curien vestira sua armadura de combate: couro preto, capa negra, chapéu com plumas escuras e, na cintura, a espada de rapieira Mendel, uma arma do mundo ilusório. Era claramente um combatente formidável. Subiu um pequeno morro com alguns membros e observou o castelo com binóculos.
Menthe o seguiu, seus olhos afiados dispensando o binóculo. Também estava em trajes de combate: uma roupa colada ao corpo, deixando o abdômen à mostra, short, botas, e por cima, uma capa de arqueira feita por elfos do vento, conquistada a alto custo. Nas costas, o arco longo e a aljava, ambos de fabricação élfica. As flechas de gelo, sua principal arma, ficavam em uma pequena aljava azul presa à cintura — tão pequena que parecia uma bainha de espada. Era ali que, todos os dias, surgiam três flechas mágicas do artefato Rainha do Gelo.
Curien observou por um tempo, depois ordenou ao chefe dos batedores:
— Zorro, leve dois contigo e investigue naquela direção, especialmente perto do cemitério. Sinto algo estranho por lá.
Menthe também olhou para o cemitério, mas não notou nada.
— Só vejo ossos espalhados. Durante o dia, não representam ameaça.
— Não é o cemitério, mas as árvores mortas e as ruínas da vila diante do castelo — explicou Curien.
— Estão todas danificadas, mas… ora, este lugar é um ninho de monstros, não é normal estar em ruínas? — retrucou Menthe, levando a mão à testa.
— Não, querida Menthe — continuou Curien, sem tirar os olhos do binóculo —, primeiro, são danos recentes. Segundo, só alguém com força muito acima do comum poderia causar certos estragos. Em alguns pontos há buracos enormes, mas as paredes não desabaram. O que isso indica?
— Que algum monstro gosta de cavar buracos? — sugeriu Menthe, sem entender.
Curien sorriu.
— Já jogou Jenga? Quando você puxa uma peça, como faz força?
— Quer dizer que, por ser uma força excessiva, só abriu buracos sem derrubar tudo? — Menthe finalmente compreendeu.
— Exatamente. Prepare-se para o pior. Se é uma criatura nova, pode nos surpreender. Precisamos de informações certas de Zorro.
Menthe calou-se, olhando para o comandante com olhos brilhantes, como uma fã encantada. Depois de algum tempo, ela saltou, pegou o arco e correu atrás de Zorro.
— Comandante, vou ajudar! Minha visão de águia é perfeita para rastrear monstros!
...
Entre as ruínas em torno do castelo, Zorro e sua equipe se espalharam, cautelosos. A vila, construída pelos antigos súditos do conde, era grande e, em outros tempos, devia ser próspera. Hoje, só complicava a exploração.
De repente, um sinal: haviam encontrado algo novo. Aproximaram-se silenciosamente. Ali, sinais de batalha intensa: muitos zumbis e uma gárgula haviam cercado um inimigo poderoso. Nenhum dos quatro seria capaz de enfrentar tal adversário. Zorro sugeriu interromper a busca.
Menthe, porém, lembrou das palavras de Curien. Se o comandante queria informações detalhadas, como poderiam recuar agora? Contar que se assustaram com rastros de luta? Para ela, recuar seria uma vergonha.
Vendo sua determinação, Zorro resignou-se a avançar.
Conforme seguiam, o cenário de destruição tornava-se ainda mais impressionante, a ponto de preocupar até Menthe. Chegaram a uma esquina; o primeiro explorador espreitou, assustou-se e recuou, mas logo olhou de novo e acenou para os outros.
Menthe, ousada, espiou: havia um cadáver de gárgula, pescoço torcido, cabeça ao lado do corpo, membros e asas quebrados, todo despedaçado. Os zumbis estavam mortos há tempos.
Os batedores se entreolharam, apavorados, sem saber que criatura poderia causar aquilo. Avançaram mais e encontraram a fera encoberta pelo corpo da gárgula.
Mas não era uma besta, era um rapaz. Surpresos, os batedores quase não acreditaram: ele era moreno, de olhos escuros, punhos enrolados em panos enegrecidos, sem camisa, usando apenas calças rasgadas, provavelmente as gratuitas do Templo da Reencarnação. O chão estava sujo de sangue negro e restos pútridos. Sentado no meio do massacre, apoiava-se exausto na parede, olhando sem expressão para o céu da manhã.
O barulho do grupo pareceu despertá-lo. Com esforço, acenou e murmurou algo numa língua estranha para os franceses.
Menthe não entendeu, mas reconheceu: era chinês. Naquele continente, não havia NPCs que falassem chinês, logo, só podia ser um jogador. Ainda bem que havia estudantes chineses na sua turma, ou ela não distinguira um chinês de um japonês ou coreano.
Mas o rapaz chinês não ativara o tradutor, e os franceses não compreendiam nada.
O jovem os olhou, confuso, depois percebeu algo e tentou em inglês:
— Água e comida!
Talvez impressionados pelo cadáver da gárgula, os batedores rapidamente lhe deram água e alimento. Menthe se ofereceu para entregar ao rapaz.
— Obrigado! — disse ele, educado, e devorou o pão seco como se jamais tivesse comido, esvaziando a garrafa d’água de um só gole.
Menthe achou graça do “morto de fome” e disse, com sotaque estranho, em chinês:
— Nihao!
O rapaz olhou curioso e respondeu algo.
Infelizmente, o chinês de Menthe não ia além disso. Sabia ainda outra expressão, “Saonima!”, como a maioria dos jogadores europeus, mas sabia que era ofensiva e não convinha naquele momento.
— Desculpe, não falo mandarim — disse ela em inglês, abrindo as mãos. — Poderia ativar o tradutor?
— Ativar o quê? — O rapaz parecia não entender.
— Tradutor! — Menthe repetiu, paciente, fazendo o gesto de pôr um fone de ouvido. Depois, ativou seu próprio tradutor no modo visível; uma luz brilhou e um aparelho semelhante a um fone apareceu em sua orelha. Em um jogo global como aquele, o tradutor era essencial, mas, por privacidade, cada jogador deveria ativá-lo por conta própria.
O rapaz finalmente entendeu, mexeu nas configurações e um fone surgiu em sua orelha.
— Olá! Agora entende o que digo?
Finalmente, a comunicação estava aberta.