44 O Compromisso de Leila (2)

Armas do Mundo Fantástico Fogo Escarlate Ardente 2419 palavras 2026-02-08 17:00:48

A luz da alvorada espalhava-se sobre o telhado da igreja. Chama e Leila estavam sentados ali, sentindo a brisa da manhã, com os cabelos e as golas das roupas balançando suavemente.

Leila contava sua história.

“Fui uma criança encontrada, a madre do orfanato me achou à beira d’água.” Leila narrava com simplicidade o fato de ser órfã.

“A madre disse que, quando me encontrou, eu estava envolta em folhas de árvore, um cervo me protegia e pequenas fadas cuidavam para que nenhum mal me acontecesse. A caravana da igreja passou por perto, atraída pelo bramido do cervo, e assim a madre me localizou. Cresci no orfanato até os seis anos, quando tive a sorte de ser escolhida para o noviciado das freiras, e demonstrei afinidade com a Luz Sagrada. Não imaginei que, a partir daí, minha vida se tornaria um interminável túnel escuro...” A voz de Leila tornou-se um pouco mais baixa.

Chama, cativado pelo relato, preparava palavras de consolo.

“Você tem ideia?! Dormir às nove! Acordar às quatro! Se desobedecer, leva palmada! O dia inteiro é programado sem descanso! Só cinco minutos pra comer! Cinco minutos! Olha esse meu braço magro! Nem consigo engordar!” — Não! Nada magra! — pensou Chama, um tanto perdido, protestando em silêncio.

“Todo dia ao amanhecer, já começamos com cânticos sagrados! Depois, estudar a Língua Divina! Aprender milagres! E o pior: todas as outras freiras podem sair pra brincar! Só eu não posso!” Leila, quase enlouquecida, abraçou a cabeça. “Seja a madre, o sumo sacerdote ou o bispo, nenhum deles me deixa sair! Vivem me assustando com histórias de demônios devoradores de gente! Me tratam como uma criança!”

De repente, Leila se voltou para Chama, que não sabia que expressão fazer, encarando-o com insistência. “Diz você! Não é um absurdo? Não é demais?”

“Ah... Bem... Deixe-me me acalmar...” Ao ver o olhar devorador de Leila, Chama logo exclamou mais alto: “É isso mesmo! É um absurdo!”

“Pois é! Só porque não tenho pai nem mãe, não posso sair? Também sou uma jovem, quero passear, fazer excursão!” Satisfeita com a reação de Chama, Leila continuou: “Sabe de uma coisa? Desde que saí do orfanato, nunca mais pus os pés fora da igreja! Estudo na igreja, como na igreja, durmo na igreja, trabalho na igreja! Todos podem sair, por que só eu não posso?” Leila descontou a frustração esmurrando o telhado.

“Estou prestes a completar dezoito anos! Nunca fui às compras! Também quero roupas bonitas, bolsas! Quero doces!” Enquanto falava, Leila começou a chorar, de partir o coração de quem ouvia.

Chama sentiu vontade de rir, mas, pensando bem, era mesmo uma situação triste, e acabou sentindo pena dela.

“Senhorita Leila, tenho a mesma idade que você, e além disso, você já me ajudou tanto. Então diga, como posso ajudá-la? Prometo que vou ajudar!” Chama bateu no peito, confiante.

“É verdade?” Leila olhou para ele com os olhos marejados.

Chama ergueu o polegar, com um sorriso radiante como o sol. “Deixe comigo, confie em mim!”

“Que maravilha! Eu sabia que você ia me ajudar!” Leila, sem tempo de limpar lágrimas e nariz, virou-se e o abraçou, emocionada.

Sentindo o suave perfume de Leila, Chama ficou um tanto envergonhado.

“Senhorita Leila, conte, qual é o plano?” perguntou Chama.

Leila enxugou as lágrimas e começou a explicar: “Daqui a cinco dias será meu aniversário de dezoito anos. Então, quero fugir da igreja em segredo e aproveitar um dia inteiro lá fora!”

“Mas... como você vai sair sem ser vista?” Chama, que já frequentava a igreja muitas vezes, sabia bem como era difícil escapar.

“Hum hum! É claro que é por aqui!” Leila sacudiu a corda que tinha nas mãos.

“Então você já estava preparada...” Chama enxugou o suor da testa.

“Estou há um ano planejando isso! Treinei todos os dias! Não vou fracassar no meio do caminho!” Leila pôs as mãos na cintura, orgulhosa.

“Certo...” Chama avaliou a distância do telhado, começando a dar instruções: “Para não sermos descobertos, não podemos descer direto no pátio. Primeiro, precisamos deslizar até o telhado ao lado, dar a volta e só então descer pelo outro lado do muro — mas você tem certeza de que consegue usar um roldana?”

Leila arregalou os olhos, surpresa: “Hã? O que é roldana?”

Chama colocou a mão na testa: “Você não sabe mesmo de nada! Então, para que trouxe essa corda?”

“Ouvi dizer que com isso dá para escalar muros! Não dá?” Leila piscou, confusa.

Chama desistiu de argumentar e começou do zero a explicar como usar a corda.

Depois da explicação, Leila parecia entender um pouco: “Ah... então é preciso se pendurar e deslizar até o outro lado...”

“E então? Acha que consegue?”

“Parece um pouco perigoso...” Leila olhou para a altura do beiral, imaginou-se suspensa no ar e estremeceu. “Não sei se vou conseguir!”

Chama suspirou, consolando-a: “Não se preocupe com o equipamento, vou pedir ajuda à senhorita Hortelã — aquela moça que veio comigo — ela sabe arranjar os aparatos certos. Quando chegar a hora, é só fechar os olhos que a gente te leva.”

“Certo, está bem...” A jovem sacerdotisa, que nunca saíra nem para o portão, finalmente percebeu a dificuldade de fugir. “Eu... vou tentar superar o medo!”

Vendo Leila um tanto nervosa, Chama a tranquilizou: “Não se preocupe, senhorita Leila, vou garantir que você saia em segurança!”

Talvez o sorriso contagiante de Chama lhe desse confiança, pois Leila pareceu mais tranquila e retribuiu com um sorriso. “Sim!”

“Senhorita Leila, quer passear dentro da cidade ou fora dela?”

“Quero ir até a ‘Fonte das Plumas Caídas’!” Leila olhou na direção desejada, os olhos brilhando.

“Hã? Onde é isso?”

“É uma nascente celestial, a água desce de uma ilha flutuante entre as nuvens, formando uma cachoeira magnífica, um lugar abençoado pela Luz Sagrada,” explicou Leila, cheia de expectativa. “Foi também onde fui encontrada.”

“Entendi...” Chama assentiu.

“Quero voltar lá no meu aniversário de dezoito anos. Talvez tenha sido ali que nasci, claro... talvez meus pais tenham me abandonado lá mesmo.” Leila fungou e limpou uma lágrima quase caindo.

“Senhorita Leila...” Chama hesitou, apoiou levemente os ombros delicados dela e lhe ofereceu um lenço.

“Obrigada...” Leila cobriu o rosto com o lenço, acalmando-se um pouco.

“Não quero procurar meus pais nem nada disso...” Leila olhou ao longe, fungou outra vez e continuou: “Só quero, neste dia em que me torno adulta, voltar ao lugar do meu nascimento — do meu abandono — e dizer aos meus pais de dezoito anos atrás... que cresci saudável, e... que estou bem!”

Leila virou-se levemente e sorriu para Chama.

Ao nascer do sol, aquele sorriso livre e luminoso, entre lágrimas, era de uma beleza incomparável.