25 O Duelo com Julien
As carruagens passavam uma após a outra pelo portão da base, avançando para o interior, o pátio estava repleto de jogadores curiosos assistindo à movimentação.
— Eu não fazia ideia de que havia tanta gente assim na base! — exclamou Chama Ardente, surpreso ao ver o grande pátio completamente lotado.
— Atualmente, nosso grupo tem pouco mais de duzentos membros aptos para o combate, mas há muitos outros que, apesar de não servirem para lutar, são indispensáveis: ocupações mágicas, profissões de criação e até crianças. Juntando todos, temos cerca de trezentos — explicou Minthe.
— Então o grupo tem umas quinhentas ou seiscentas pessoas? Isso é muita gente!
— Para ser exato, temos seiscentos e treze. Você será o sexcentésimo décimo quarto! — Minthe deu-lhe um tapinha no ombro.
Assim que a caravana entrou na base, as mercadorias foram imediatamente transportadas para o pátio interno, onde o acesso foi fechado. Apenas um grupo de comerciantes subordinados a Bernard estava autorizado a registrar o saque, enquanto alguns membros do alto escalão conversavam distraidamente à parte.
Chama Ardente permaneceu ali por um tempo, conferiu as horas e então disse a Julien:
— Chefe, está quase amanhecendo do meu lado. Que tal fazermos aquilo agora?
Julien assentiu:
— Boa ideia. Vamos procurar um lugar.
Os dois se afastaram, recusando a companhia dos demais, deixando os presentes no pátio interno trocando olhares intrigados.
Foram até um salão de treinamento fechado, onde alguns bonecos de madeira e estantes de armas estavam espalhados. O chão, de tanto uso, exibia várias lajes danificadas.
Posicionaram-se no centro e cada um escolheu sua arma.
— Já que você percebeu por conta própria, não tenho motivo para esconder — começou Julien. — A confusão que você enfrenta agora é comum entre os jogadores de elite logo que entram no jogo. A verdade é que, comparada ao poder deste mundo, a força do mundo real é insignificante. Técnicas do mundo real podem ser extremamente úteis no início, permitindo que se conquiste recursos à frente dos demais, mas logo percebe-se que o limite dessas técnicas é baixo. É como tentar controlar o motor de um carro esportivo usando o sistema de uma motocicleta — disse ele.
— Sua situação é especial. Nunca vi outro jogador tão forte no nível zero. No seu caso, talvez você já possuísse um corpo e habilidades excepcionais no mundo real — como um carro de corrida. Mas aqui, você recebeu o motor de um avião. Assim, nas retas, você ultrapassa a maioria dos carros; mas se entrar numa estrada sinuosa, basta que o inimigo espere e veja você despencar do penhasco.
— Por isso, mesmo sendo mais forte que Eroquen, você só pôde ser manipulado por ele — Julien sacou duas espadas, uma longa e uma curta, e adotou uma postura inicial. — Agora vou lhe mostrar a técnica mais avançada que um jogador pode exibir neste estágio! Verá como um jogador do mundo real se tornou um guerreiro de nível dezesseis! E como, usando técnicas próprias das curvas, é possível superar até um carro de corrida com motor de avião!
Chama Ardente ergueu sua espada larga:
— Estou pronto para aprender!
E a luta começou de repente!
...
Meia hora depois, Julien retornou sozinho ao pátio interno, enquanto Chama Ardente já havia se desconectado em uma zona segura.
Apenas os dois sabiam o resultado do duelo.
...
Na manhã seguinte, o despertador tocava incessantemente ao lado da cama.
Ymer dormia profundamente, deitado, com o VRI ainda sobre a cabeça, emitindo suaves luzes azuladas.
“Obrigado por usar nossos produtos, até a próxima!”
“O novo mundo é você quem cria!”
Com um estalo, a tela se apagou, a viseira se abriu completamente, revelando os olhos de Ymer.
— Ufa! — suspirou ele, retirando o VRI e sentando-se na cama.
Ficou algum tempo absorto, depois balançou a cabeça com um sorriso de incredulidade.
— Eu realmente perdi...
Era uma sensação inédita para Ymer. Sua arte marcial baseava-se em extrair o máximo do potencial físico, sem descuidar da técnica, e jamais imaginara ser derrotado por um simples mortal do mundo real, apenas por pura técnica.
Já estava psicologicamente preparado para essa possibilidade antes do duelo, mas uma coisa é pensar, outra é viver. Agora, um sentimento estranho o invadia.
Cobriu o rosto com as mãos, massageou os olhos por um bom tempo.
— Mas eu já enxerguei meu caminho — disse Ymer, abrindo os olhos, repletos de determinação. — Um mundo inacreditável...
Deu um tapa no despertador barulhento e levantou-se.
Mais um dia comum começava.
...
Ymer pedalava sua bicicleta, enquanto Tong Junwen o abraçava silenciosamente pela cintura.
— Ymer, você está com cheiro de mulher — comentou ela, de repente.
— O quê?! Cof, cof! — Ymer se engasgou com a própria saliva. — Que bobagem! Quando foi que eu teria contato com outra mulher?
Apesar da negativa, Ymer lembrou da francesa Minthe. Não era possível... como Tong Junwen poderia perceber?
Ela franziu o pequeno nariz:
— Não é pelo cheiro, mas é uma sensação irritante!
Gotas de suor brotaram na testa de Ymer; ele já havia experimentado a estranha intuição de Tong Junwen antes.
— Não tem como! Cheguei em casa e fui direto dormir, não vi mulher alguma!
— Hum! —, resmungou ela, virando o rosto, emburrada, pois nem lógica nem realidade justificavam sua desconfiança.
Tong Junwen não estava feliz naquele dia.
...
Como de costume, Hou Xuan chegou cedo. Ao ver Ymer, puxou-o para o grupo dos bolsistas e logo começou a vangloriar-se das façanhas da noite anterior.
O grupo “Virtude e Força” avançara de maneira constante e animada, conseguindo superar o quadragésimo primeiro nível e alcançar o quadragésimo segundo. Isso deixou Hou Xuan radiante. Havia, contudo, más notícias: o grupo “Rio da Ilha” estava prestes a concluir o quadragésimo nível, o que o preocupava.
Ymer, atento, perguntou:
— A Torre da Subjugação de Demônios da Cidade dos Oito Horizontes e a Torre dos Escolhidos da Europa são a mesma coisa?
Essas informações, até então, não lhe interessavam. Mas, ao assumir de vez sua identidade de jogador, passou a se importar.
— Todas as cidades dos jogadores têm uma Torre dos Escolhidos. Aqui a chamamos de Torre da Subjugação de Demônios, mas há muitos nomes: masmorra, labirinto, Torre de Babel. No fundo, é a mesma coisa. O nome não importa; o que importa é o marco dos escolhidos, que serve para o ranking. Quanto mais alto no ranking, mais chances de vencer o Torneio dos Campeões e ganhar recompensas melhores. Quem consegue superar o centésimo nível e se formar na Torre dos Escolhidos recebe a Medalha do Destino — aí as vantagens são ainda maiores — explicou Hou Xuan, com um ar invejoso.
— Muita gente se forma? — Ymer continuou.
— Muita! É claro que sim! — Hou Xuan respondeu, embora um pouco frustrado. — Entrei cedo no jogo, mas sempre joguei sem compromisso, não fundei um grupo antes, e minha mesada não cobria os custos de uma equipe. Só depois dos dois últimos Torneios dos Campeões e da Prova do Destino, quando meu velho viu o tamanho do impacto, deixou de reclamar sobre eu investir no jogo. Até fiz uma missão de raça para recomeçar como homem-tigre.
— Dá para mudar de raça? — Ymer se surpreendeu.
— Claro! Mas só depois do nível dez e tem que fazer uma missão específica. É trabalhoso, e não é tão versátil quanto ser humano. Se não fosse pelo grupo, eu não faria isso — Hou Xuan respondeu, meio aborrecido.