23 Reverência (1)

Armas do Mundo Fantástico Fogo Escarlate Ardente 2625 palavras 2026-02-08 16:57:57

Já tinham retornado ao território de Colônia, e a Companhia da Tulipa Negra não precisava mais marchar totalmente armada. Todos tiraram os capacetes e as manoplas incômodas, sentando-se despreocupadamente nas carroças para conversar e brincar.

Curien e seu grupo também estavam acomodados na primeira carruagem.

“Este é Fogo Ardente, e devemos a ele o grande sucesso desta vez!”, Curien fazia as apresentações dos dois lados. “Este é Bernard, nosso vice-chefe de assuntos internos, também conhecido como nosso grande mordomo.”

“Prazer em conhecê-lo!”, Bernard, rechonchudo, estendeu a mão para apertar a de Fogo Ardente. “Já ouvi falar de seus feitos. Graças a você, nosso grupo não correu perigo!”

Fogo Ardente respondeu com cortesia. Naquele momento, Bernard já não demonstrava a esperteza e astúcia de antes, talvez por reconhecer o valor da fortuna obtida após a derrota do exército do Abismo.

“Chefe, isso aqui foi Fogo Ardente quem trouxe de volta arriscando a vida!” Mint tirou o Cubo IA, lançando-o de uma mão para outra. “Não seja mesquinho!”

Curien e Eude trocaram olhares e riram, repreendendo: “Depois de tanto tempo no grupo, quem diria que você só pensa em tirar vantagem!”

“Não é bem assim!” Mint fez pose e escondeu o Cubo IA. “Fogo Ardente também faz parte da Companhia, não é tirar vantagem!”

“Sim, sim, eu estava errado.” Curien juntou as mãos, fingindo implorar. “Já preparei a recompensa do Fogo Ardente, vai gostar, com certeza!”

“Hmpf, assim está melhor.” Mint jogou o Cubo IA para ele e piscou para Fogo Ardente, que sorriu sem jeito.

Fogo Ardente não conseguia pedir recompensa diretamente, isso era típico da reserva oriental. Além disso, tendo começado a jogar há poucos dias, ainda não compreendia o valor das próprias ações. Mas era grato por Mint ajudá-lo, ainda que, às vezes, achasse a francesa um pouco calorosa demais.

Curien abriu o cubo, revelando duas lâminas de esgrima, uma longa e outra curta, dentro da carruagem. A alegria de recuperar o objeto perdido contagiou todos.

As “Espadas de Mendel” eram, pode-se dizer, o símbolo da fé da Companhia da Tulipa Negra.

Curien brandiu as lâminas por um instante, retornou-as ao cubo e guardou-o no bolso. Vendo o olhar curioso de Mint, preferiu não explicar de imediato e começou a contar sobre o que viria após a ressurreição.

Morrer nas mãos de uma Alma do Abismo significava, quase inevitavelmente, perder níveis; todos os jogadores presentes haviam perdido três, além de receberem uma semana de fraqueza nos campos abertos. Durante esse período, não poderiam participar de atividades fora das cidades, sendo obrigados a permanecer nos templos de ressurreição.

Entretanto, havia uma forma de reverter a situação: bastava retornar à Cidade do Destino e realizar uma missão especial na Torre dos Escolhidos.

“Missão Especial: O Limite do Escolhido”

“Descrição: alcance o centésimo andar da Torre dos Escolhidos em uma semana.”

“Atenção: somente jogadores sob o estado de ‘Punição por Morte’ podem aceitar esta missão, que pode ser repetida até que a punição desapareça. Não é afetada pela Medalha do Destino, e o resultado não conta para o marco dos Escolhidos.”

“Recompensa: elimina 100 pontos de penalidade.”

A Torre dos Escolhidos era o local onde a maioria dos jogadores vivenciava o início da jornada. Quase todos passavam ali um longo período como novatos; até mesmo os que não combatiam precisavam subir de nível por lá.

Os membros da Companhia da Tulipa Negra já haviam obtido a Medalha do Destino, símbolo da formatura, não podendo nem precisando retornar à torre. Só em casos especiais, como a recuperação de níveis após a morte, era permitido voltar.

Esta missão podia ser repetida. No ritmo da Companhia da Tulipa Negra, bastariam dois ou três dias para concluí-la uma vez, e uma semana seria suficiente para recuperar os níveis perdidos.

Naturalmente, para manter esse ritmo, as “Espadas de Mendel” eram indispensáveis, já que sua habilidade especial era particularmente eficaz contra chefes. Por isso, Curien ficou tão animado ao saber que o Cubo IA fora recuperado por Fogo Ardente, a ponto de atravessar o deserto sem se importar com o desgaste, só para que os jogadores de elite do grupo recuperassem sua força o quanto antes.

A Companhia da Tulipa Negra também tinha rivais; a Companhia Cascavel, que atuava na mesma região de Colônia, era uma delas. A rivalidade entre as duas remontava à época em que disputavam na Torre dos Escolhidos, e com o tempo, a inimizade só se aprofundou, sem chance de reconciliação.

Ao saber que a Companhia da Tulipa Negra fora dizimada, a Companhia Cascavel ficou eufórica. Aproveitando-se dos laços com o Marquês Saye, desafiaram seus rivais para um “Duelo de Companhias”, querendo tirar proveito da perda do Cubo IA por Curien. Apostaram até o recém-conquistado “Mandato da Fantasia” e o “Coração Límpido”, ambos itens valiosos de armamento do Mundo Fantástico, mostrando o quanto desejavam vencer o duelo.

Se não fosse por Fogo Ardente, talvez o plano da Companhia Cascavel tivesse dado certo.

“Pois é, aqueles cobras planejaram tudo! Não perdemos o IA, e vamos recuperar os níveis de todos antes do duelo!” Curien falou cheio de confiança.

Mint não parava de rir. “Ah, mal posso esperar para ver aquela cobra gorda chorando quando a derrotarmos! Acho que o plano deles de conseguir o segundo IA vai por água abaixo de novo!”

“Eu me lembro bem da expressão idiota dele na última disputa pelo segundo ‘Mandato da Fantasia’!” Eude também estava animado.

“E eles nem sabem que temos Fogo Ardente como força extra, não é?” Zorro disse, sorrindo.

Todos concordaram entusiasmados.

Já Fogo Ardente forçou um sorriso e voltou o olhar melancólico pela janela.

Depois de algum tempo, os jogadores da companhia começaram a relembrar as experiências da viagem. Mint e Martin complementavam as histórias um do outro, e quem não tinha participado ficava admirado com os relatos.

“O que foi? Perdeu para um Morador e ficou chateado?” Curien trouxe duas canecas de cerveja, entregou uma a Fogo Ardente e sentou-se ao lado dele.

Fogo Ardente sorriu, tomou um gole longo e permaneceu calado.

“Na verdade, todos os jogadores passam por isso.” Curien não se incomodou, percebendo o desânimo do amigo, e continuou: “Depois de enfrentar os cem andares da Torre dos Escolhidos, todo jogador passa por um período de confiança exagerada, achando que os Moradores não são grande coisa. Só ao saírem da Cidade do Destino, explorando o mundo, percebem que os Moradores deste jogo não são como aqueles NPCs que só seguem programação nos jogos eletrônicos. Talvez nem devêssemos chamá-los de NPCs, e sim de Nativos, com o respeito devido.”

“Notei isso também, os Moradores deste jogo... parecem pessoas de verdade!” Fogo Ardente concordou.

“Exato. Eles têm suas vidas, sua sociedade, suas relações, suas alegrias e tristezas. E, acima de tudo, suas habilidades de combate vão muito além do que os jogadores imaginam. Com técnicas lapidadas por batalhas sem fim, podem derrotar facilmente um jogador do mesmo nível. Segundo eles, jogadores são apenas filhotes inexperientes: muita força, mas sem respeito pelas armas ou pelo combate, agindo de forma impulsiva.” Curien apoiou um braço no encosto, tomou um gole de cerveja e parecia recordar de sua própria trajetória.

“Mas... no fim das contas, não é só um jogo?” Fogo Ardente ainda não compreendia. Respeito pela força? O que seria isso? Lutar não era só questão de quem é o mais forte, vencer e colher os frutos, perder e pagar o preço?