06 O Anjo da Morte (1)
O Anjo da Morte não era um demônio nativo do Abismo; na verdade, até mesmo chamá-lo de demônio era algo discutível. O surgimento do Anjo da Morte foi puro acaso.
Antes que os humanos existissem neste mundo, anjos das nuvens e demônios do abismo travaram uma guerra que durou cem mil e oitocentos anos. Naquela época, o céu e a terra ainda não tinham a forma atual; o universo era composto por camadas em degraus, sendo o início do mundo. No alto, reinavam anjos e a luz sagrada; embaixo, demônios e o abismo. A guerra devastadora entre o céu e o abismo resultou em mais de bilhões de seres sobrenaturais mortos. Inúmeros corpos de anjos foram lançados ao fundo do abismo, e incontáveis demônios foram purificados pela mais pura luz sagrada.
No meio desse conflito interminável, um dia, do fundo do abismo, surgiu uma criatura que possuía tanto a luz sagrada quanto o poder do abismo! Mesmo para os demônios, só poderiam chamá-la de monstro. Ela tinha asas de luz sagrada de anjo, já profanadas, e seu torso superior era a larva de um dos demônios mais cruéis do abismo, o Devorador da Morte, enquanto a parte inferior, incluindo os braços, ainda mantinha a forma angelical.
Assim nasceu o Anjo da Morte primordial — Ébola.
O surgimento do Anjo da Morte mostrou aos demônios como profanar os corpos dos anjos, e, assim, os demônios de alta patente ganharam mais um tipo de servo.
Esses monstros possuíam tanto o poder da luz sagrada quanto o do abismo; essa energia híbrida era muito mais devastadora para os seres vivos do que a influência comum do abismo. Lume sentia o terror silencioso que emanava deles, como se apenas olhar para essas criaturas já fosse suficiente para perder a sanidade. Isso lhe fazia lembrar do fantasma do mundo real.
Todavia, as experiências da última noite haviam fortalecido a mente de Lume. Sendo ele uma pessoa de vontade firme, não se deixou abalar.
No momento, o problema mais grave para Lume era — a luz sagrada não funcionava mais.
O massacre que ele promovera naquela noite só fora possível, além de sua habilidade natural em combate, pelo poder da luz sagrada, que desempenhava um papel fundamental. Sem o poder inquebrantável da luz, sua espada comum de corte tornava-se quase sucata.
O Anjo da Morte à sua frente assumiu postura de ataque e, num salto, apareceu quase instantaneamente diante de Lume.
"Zang!" A espada perfurante e a espada de corte se chocaram, produzindo um ruído agudo de fricção. Lume aproveitou a vantagem do tamanho de sua espada e afastou a lâmina do Anjo da Morte, conseguindo cravar a arma naquelas asas repulsivas.
"Crack!" Algo totalmente inesperado aconteceu: a luz sagrada sobre a lâmina não teve qualquer efeito, e, para piorar, foi a espada de corte de Lume que acabou lascada pelas asas do monstro!
"Droga!" Assustado, Lume recuou rapidamente sua espada, mas logo teve que se esquivar desesperadamente diante do ataque incessante das duas lâminas do Anjo da Morte, conseguindo apenas se defender, sem qualquer chance de revidar.
Sentindo o poder destrutivo do adversário no combate corpo a corpo, Lume aproveitou uma brecha para saltar para longe, abrindo distância do inimigo. O Anjo da Morte não perseguiu, apenas retornou à postura com as mãos cruzadas.
Por algum motivo, só um dos Anjos da Morte o atacara até então; o outro apenas observava. Esse comportamento estranho aumentava a inquietação de Lume.
Mas, ao olhar para sua espada de corte, agora marcada por entalhes como dentes de serra, preocupações maiores tomaram conta de seu espírito. Apesar de não ser uma arma lendária, a espada lhe era cara após tantas batalhas naquela noite. Ver seu estado lamentável doía-lhe o coração. Mais grave ainda era o fato de que sua luz sagrada não afetava o Anjo da Morte, a espada sequer conseguia romper sua defesa, e agora estava quase destruída. Com que armas ele lutaria? Seria melhor suicidar-se de uma vez?
Não havia tempo para refletir. O fato de o Anjo da Morte não tê-lo perseguido não significava inação. Ele abriu suas asas, e, surpreendentemente, a luz sagrada atendeu ao seu chamado. Flechas de pura luz sagrada começaram a formar-se sob suas asas!
Um servo do abismo invocando luz sagrada — isso fazia algum sentido? E quão sem escrúpulos podia ser a luz sagrada?
Enquanto resmungava, Lume corria e rolava para trás o mais rápido que podia. Tantas flechas de luz sagrada eram impossíveis de bloquear. Mal havia dado alguns passos, uma chuva densa de flechas foi disparada contra ele. Por sorte, a luz sagrada de sua espada ainda servia para alguma defesa. Lume esquivava-se entre as brechas na tempestade de flechas e, quando não conseguia, aparava algumas com sua espada.
Felizmente, as flechas de luz sagrada não eram infinitas. Logo cessaram, mas Lume não teve tempo nem de respirar aliviado, pois percebeu algo estranho: seu corpo não respondia mais!
"O quê...!" Antes que pudesse terminar a frase, um jorro de sangue explodiu de sua boca. Tremendo, baixou a cabeça e viu duas pontas de espada perfurando sua armadura leve, atravessando seu peito e pingando seu sangue!
Pelo canto do olho, Lume viu a silhueta do outro Anjo da Morte, antes distante, sumir lentamente, enquanto o verdadeiro corpo aparecia atrás dele, responsável pelo ataque traiçoeiro.
"Chegou ao fim..." Lume já não conseguia emitir som algum; só podia pensar. Sentia a vida esvaindo-se, e não precisava de mais ações do Anjo da Morte para saber que morreria sangrando.
"Lume!! Não!!" Um grito furioso ecoou atrás dele. Mint, a ex-socialite francesa, rugia como uma leoa enfurecida: "Criatura impura! Volte para o abismo!"
Seta Exterminadora de Demônios!
A flecha uivante atingiu a base da asa do Anjo da Morte, arrancando-lhe um grito de dor lancinante.
Mas os olhos de Lume se apagaram, e ele tombou no chão, seu destino incerto entre a vida e a morte.
O Bando da Tulipa Negra finalmente derrotara o exército do abismo! Mint e Curien chegaram em seu socorro à frente do grupo!