05 Incidente Anormal na Montanha da Fortuna Sagrada!
A noite já havia caído por completo, e os pontos luminosos dos postes desenhavam a estrada à frente. Ímerson conduzia a bicicleta, levando Tomás Junqueira, e avançava lentamente em direção ao lar.
O templo já ficava muito distante atrás deles, e Ímerson, ao lembrar-se do ocorrido, ainda sentia um certo temor e um arrepio na nuca. Não sabia se o sacerdote que buscava a verdade realmente estava bem; esperava que ele conseguisse superar esse momento difícil.
Mas ao menos uma coisa estava clara para Ímerson.
Este mundo definitivamente não era um lugar puramente materialista!
Em apenas um dia, sua visão de mundo havia mudado radicalmente: ele testemunhara algo — não sabia se era humano ou espectro — flutuando pelos céus; recebia advertências de uma organização misteriosa; acabara de passar por um evento sobrenatural na Montanha Fortuna. Duas vezes fora atacado por sensações inexplicáveis, o que lhe mostrava que o mundo já não era como antes.
Tomás Junqueira, por outro lado, não percebera nada de estranho. Sob a luz dos postes, admirava a pulseira que Ímerson lhe colocara.
— Ímerson, o que é isso? — perguntou Tomás, cutucando-o.
— Ah, isso? É uma pulseira abençoada pelo Imperador Wen Chang! — Ímerson decidiu não revelar a verdade. — Com a bênção do Imperador, você será imbatível nas provas!
— Que nada! Aquele sacerdote só fala bobagem! — Tomás ficou irritado ao lembrar das palavras do religioso. — Não se deixe enganar por essas histórias!
— Não, eu só achei a pulseira bonita e quis te dar de presente.
Tomás pareceu contente, deixando de lado as preocupações sobre o ocorrido na montanha.
Ímerson suspirou aliviado, advertindo:
— Não tire jamais, use todos os dias.
— Está bem.
...
Após dois dias seguidos de encontros sobrenaturais, Ímerson sentia-se mais corajoso — ou talvez apenas exausto demais. Dormiu profundamente até o amanhecer.
A manhã era comum, a rotina também; embora Ímerson soubesse que o mundo já não era o mesmo, era preciso continuar vivendo.
Ao chegar à escola, viu novamente Heitor Xuan conversando com colegas sobre jogos.
— Ontem meu grupo finalmente chegou ao 40º andar da Torre de Domadores de Demônios. O guardião era um gigante, com dezenas de metros de altura! — Heitor, junto com outros alunos bolsistas, contava suas façanhas, saboreando olhares invejosos. — Dizem que é da tribo de Pan Gu, lá do extremo norte. Até hoje nenhum grupo conseguiu encontrá-los fora da torre, só ali aparecem!
— Que inveja! Você recrutou grandes jogadores, mas meu grupo não teve chance, paramos no 35º andar e não conseguimos avançar — lamentou um deles.
— Heitor, seu ranking na Pedra dos Limites subiu de novo, não? Poucos grupos da Cidade dos Oito Reinos chegam ao 40º andar!
— Claro! — Heitor exibia orgulho. — Ontem, ao final da rodada, já era o número 80!
— Então vai conseguir reunir os materiais antes que ninguém, que inveja!
— Não exagero, mas só pelo nosso distrito Yiyun, aposto que serei o primeiro a conquistar um IA. O pessoal do Colégio Rio das Ilhas deve estar no passeio dos cem nomes, só brincando! — Heitor se deliciava com esse pensamento.
O chamado IA, Ilusão Armamentada, era um tipo de equipamento nomeado em referência ao próprio jogo. A força e raridade desse item eram notórias. Como equipamento supremo, jogadores comuns poderiam levar até dois anos para reunir os materiais necessários; jogadores experientes, de meio a alto nível, precisavam de seis meses a um ano para obter um IA na Torre de Domadores ou nas masmorras. O jogo não tinha nem meio ano de existência, e quem conseguia um IA era, sem dúvida, um verdadeiro prodígio. Heitor estava prestes a conquistar um, motivo de inveja, ciúmes e admiração.
Enquanto continuava a se vangloriar, viu Ímerson entrar na sala e acenou:
— Ímerson, Ímerson, venha cá, preciso te contar... — Sem esperar resposta, puxou Ímerson para narrar sua façanha no 40º andar.
Ímerson, prestes a adentrar um novo mundo, não tinha cabeça para jogos. Acompanhou Heitor com um sorriso forçado e recusou firmemente o convite. Heitor, resignado, voltou-se para os colegas, assistindo juntos ao vídeo da batalha contra o chefe gravado na noite anterior.
Ímerson retornou ao seu lugar, pensando no que acontecera ontem. Não havia dúvidas: o sacerdote que buscava a verdade pertencia ao mundo sobrenatural, e até seus pais, familiarizados com o Templo Primordial, deviam estar envolvidos. Se não fosse pela recente impossibilidade de contato, teria telefonado imediatamente para entender o que estava acontecendo.
Se o Templo Primordial não tivesse problemas nos próximos dias, iria procurar o sacerdote para tirar suas dúvidas! Ímerson pensava nisso enquanto se espreguiçava, observando Heitor e os colegas em torno do vídeo. Prestes a desviar o olhar, viu de repente uma figura passando pelo vídeo, fazendo seus olhos arregalarem.
Pulou para frente e agarrou o celular, ignorando as reclamações dos colegas, e fixou-se na tela. Num salão escuro, sob tochas trêmulas, vários personagens lutavam contra alguns zumbis, em combate intenso. Mas o alvo de Ímerson não era nenhum deles, e sim a figura que flutuava atrás dos zumbis, conjurando feitiços sem parar. Vestia um manto longo, decorado com padrões repulsivos e pequenos crânios pendurados como ornamentos. Ímerson jamais esqueceria aquela roupa — era idêntica ao manto que vira no espectro na noite anterior!
Por que uma criatura suspeita, parecida com um fantasma, aparecia igual ao monstro do jogo? Ímerson ficou atônito, sem saber como reagir.
— Ímerson, Ímerson! — Heitor o sacudiu, os colegas estranhando sua reação. — O que houve?
Ímerson, meio apático, olhou para Heitor e depois para o celular. Sim, era mesmo aquele manto. Por que um fantasma faria cosplay?
— Heitor, o que é isso? — Ímerson perguntou secamente.
— É o vídeo do meu grupo no 40º andar da Torre de Domadores, ontem! — explicou Heitor, intrigado.
— Quero saber quem é esse. — Ímerson apontou para o personagem de manto.
Heitor olhou e riu:
— Não é uma pessoa, é um monstro da torre, um NPC.
— Dá para conversar com ele?
— Não, — respondeu Heitor, divertido — os monstros da torre são projeções, não são a entidade real. Os monstros da Ilusão Armamentada são um tipo de NPC, únicos e com inteligência muito alta. Só com muita técnica de combate alguém consegue derrotar até um simples zumbi. Os jogadores normalmente ficam nas cidades, matando monstros na torre para ganhar dinheiro e atualizar equipamentos. Quem se arriscaria a vagar no campo aberto? Pode ser cercado por NPCs hostis e perder meses de esforço.
— Então, é possível conversar com a entidade real? — Ímerson rapidamente entendeu a mecânica do jogo, captando as entrelinhas de Heitor.
— Sim, se você conseguir chegar até ela e não for morto, pode conversar. — Heitor deu de ombros. — Mas é difícil: ela pertence ao Palácio do Submundo, território dos mortos, onde vivos não entram. E sua posição é altíssima: dizem que governa uma área equivalente a um distrito. Por que ela daria atenção a você?
— Só ela usa esse manto?
Ímerson analisou o NPC e percebeu que o manto parecia mais sofisticado que o que vira.
— Claro que não, os NPCs do Palácio do Submundo usam mantos assim, assustadores. Nunca quero ir lá.
Ímerson pensava: um era do jogo, outro... supostamente um espectro. Que ligação poderia haver entre eles? Devolveu o celular a Heitor, com o cenho franzido.
— Ficou interessado? — Heitor perguntou, segurando o aparelho. — Se quiser, entra no jogo. Quando for forte, mate uns NPCs e pegue um manto desses para você.
Ele imaginou vestir roupa de morto e sentiu repulsa.
— Aff, nem pensar!
Mas as palavras de Heitor o instigaram: para descobrir a ligação, o melhor seria investigar pessoalmente!
— Heitor, hoje à tarde me leva para comprar um VRI.
— Sério? Ficou mesmo interessado no manto? — Heitor estava surpreso.
— Aff! Você que gosta de roupa de morto! Vai me levar ou não?
— Claro! Vou te levar! — Heitor ficou animado, ansioso por integrá-lo ao grupo. — Combinado: você entra no meu grupo, logo sai da fase de novato!
Heitor era um dos poucos que conhecia o passado de Ímerson e sabia de seu talento. No jogo, havia dois tipos de jogadores: os comuns, que evoluíam equipamentos e treinavam, tornando-se cada vez mais aptos para desafios; e os prodígios, que na vida real eram mestres das artes marciais ou campeões de combate, dotados de habilidades extraordinárias. Com algum treino, realizavam feitos impensáveis para jogadores normais. Heitor sabia que Ímerson era desse tipo, razão pela qual nunca desistira de recrutá-lo.
...
Após a aula, Tomás Junqueira, como de costume, foi para a biblioteca. Depois de combinar o horário para buscá-lo, Ímerson saiu com Heitor da escola.
Os dois pedalavam até a loja de experiências Chosen One mais próxima. Desde o lançamento do VRI, essas lojas proliferaram pelas cidades, permitindo que as pessoas testassem antes de comprar.
— Ilusão Armamentada não é como os jogos antigos; por causa do VRI, é melhor comprar na loja, para receber orientação dos funcionários ao inicializar o aparelho — explicou Heitor, guiando Ímerson.
— Inicializar é complicado? Não posso fazer em casa? — Ímerson perguntou.
— Não é difícil. O que se inicializa não é o aparelho, mas você mesmo.
— Inicializar a mim? Como assim? Parece assustador... — Ímerson arregalou os olhos.
— Você sabe o que significa o “I” do VRI, não?
— Não é “Ilusão”?
— Sim, mas também significa “Prótese de Ilusão”, ou “membro ilusório”. — Heitor fez um gesto para a cabeça. — Pelo que entendi, é como se perfurassem sua mente para criar uma interface para o aparelho.
— Isso... parece perigoso — Ímerson sentiu um arrepio ao imaginar um buraco na cabeça. — Não é arriscado?
— Claro que não. Só quem tem uma constituição muito especial não consegue criar o membro ilusório; para todos, é garantia de sucesso, sem riscos. Mas pode doer um pouco na hora de criar o membro, só por um instante.
— Que coisa incrível... Então você já tem esse membro ilusório no cérebro, é isso? — Ímerson olhava fixamente para a cabeça de Heitor, tentando identificar onde estava o “buraco”.
— Claro que tenho... Pare de olhar, não dá para ver! — Heitor percebeu que Ímerson fitava sua nuca e ficou constrangido.
— Não é atrás, como nos filmes de ficção científica com cabos na nuca? — Ao perceber que não era bem assim, Ímerson sorriu sem graça.
— Isso é filme de 1999! Tecnologia antiga não se compara à atual. Aqueles cabos são ultrapassados! — Heitor protestou.
— Haha, desculpa, desculpa — Ímerson desculpou-se. — Se não é um cabo, para que perfurar a cabeça?
— Era só uma metáfora. O VRI não faz buracos nem coloca cabos, seria nojento. É como se perfurasse, mas você vai sentir na hora, aí saberá. — Heitor já se cansava de explicar, e nem dominava muito bem o assunto; quanto mais explicava, mais confuso ficava.
Conversando e pedalando, logo chegaram à porta da loja de experiências.