Véspera
Depois de embalar o VRI, ele o colocou na mochila. Não pretendia contar a Tong Junwen sobre a compra do VRI; afinal, certas coisas não podiam ser explicadas agora. Diante de Tong Junwen, se ela soubesse que ele ia jogar só por uma desconfiança, provavelmente acabaria sendo repreendido. E, além disso, o aviso de ontem era sensato: não contar a ela também era uma questão de segurança; saber demais só traria perigo.
— E aí, como se sente? Já teve a sensação do membro fantasma? — Hou Xuan perguntou com um sorriso travesso.
— Até que é bom, parece que estou livre de alguma coisa — respondeu Imo, dando de ombros e sentindo uma estranha sensação de vazio. — Mas os jogadores desse jogo são todos uns monstros? Por que fazem uns testes tão esquisitos?
— Monstrengo mesmo é o pessoal da Companhia dos Escolhidos, inventando esses testes estranhos pra torturar a gente — reclamou Hou Xuan. — Fazem a gente empilhar blocos e rastejar por túneis como se fôssemos crianças.
Imo ficou paralisado por um instante e virou-se para perguntar:
— Empilhar blocos?
— Isso mesmo! Me deram um monte de blocos de montar e pediram pra eu criar um padrão, e ainda tive que passar por um daqueles castelos infláveis de criança. Sério, tratam os novos jogadores como se fossem bebês! — Hou Xuan fez uma careta de quem não queria nem lembrar.
Por que meus testes foram tão diferentes? Imo ficou incomodado ao perceber que o seu teste não era igual ao dos outros. Se o de Hou Xuan era de jardim de infância, o dele seria o quê? Teste de soldado de elite?
— Mas olha só, controlar os movimentos pelo sistema nervoso na primeira vez foi difícil, viu! Não dava pra segurar nada! Ou levantava o braço sem querer, ou então misturava o controle do VRI com o do corpo de verdade, é complicado demais pra quem está começando! — Hou Xuan gesticulava, desesperado ao relembrar. — Quem diria que eu, tão grandalhão, não conseguiria montar um brinquedo? Ainda fui criticado pela IA instrutora!
— E o seu teste, era igual ao meu? — Hou Xuan percebeu algo pelo jeito de Imo, não era bobo. — Na minha equipe tinha dois com testes diferentes: um teve que brincar nas barras paralelas, outro ganhou um estilingue pra acertar pássaros. Hoje, são os pilares do nosso grupo. E o seu, foi o quê? — Ele olhou para Imo, esperando uma surpresa.
— Ah... o meu foi escalada — Imo hesitou, preferiu não contar a verdade. — Bem perigoso, caí e morri várias vezes.
Mas isso já bastou para empolgar Hou Xuan:
— Sabia! Sabia que você ia ser diferente. Alterar o projeto do teste é raro, não quer dizer que você vai ser um craque, mas já começa na frente. Aposto que você tem potencial pra virar um mestre!
Claro que, para Imo, jogar bem ou mal não importava; importante era encontrar o que procurava. Fora isso, aquela sensação do membro fantasma... era realmente interessante! Lembrou-se de como, ao condensar sua forma, sentia-se quase onipotente. Se aquele corpo fosse real, talvez suas habilidades marciais logo atingissem outro patamar.
— Ei, a propósito — Imo ainda sentia calafrios ao lembrar da dor terrível; nem todos teriam coragem de manter a calma sob a pressão de um trem-bala esmagando o crânio. — Você me enganou, não era só um pouco de dor, achei que tinha morrido!
— Hahaha, também achei que tinha morrido! Sensação de agulhada na cabeça não é nada agradável, né? — Hou Xuan riu. — Parecia que tinham me acertado com uma pistola de pregos!
Pistola de pregos... Imo forçou um sorriso; talvez nisso também fosse diferente dos outros. E depois de condensar, será que era diferente também?
Tentando parecer casual, perguntou:
— E depois de condensar, como ficou?
— Virei um monstro de tentáculos! — Hou Xuan deu uma gargalhada orgulhosa, combinando com seu jeito irreverente. — Pena que não tinha nenhuma moça pra admirar minha glória! Achei que ia ficar enorme, mas comparando com meu corpo real, só dava pra ficar em cima do peito do pé. E olha que me esforcei pra criar uma aparência poderosa! — Ele realmente parecia decepcionado.
Pelo visto... realmente era diferente das pessoas comuns, pensou Imo. Hou Xuan só conseguiu condensar num pequeno animal molenga, enquanto ele próprio se transformou em um ser imponente, quase um Majin Boo, aparentando uma força descomunal. Não sabia se isso era bom ou ruim. Esperava não ter problemas ao entrar no jogo à noite.
— E você, virou o quê? — Hou Xuan perguntou, curioso.
— Eu? — Imo coçou a cabeça. — Fui um slime, mais ou menos do tamanho de uma cabeça.
— Bah, que sem graça.
— Pena que não usei mais a imaginação — Imo abriu as mãos, fingindo lamento.
...
Na esquina, despediu-se de Hou Xuan, que, entre mil recomendações, viu Imo partir de bicicleta.
— Não esquece de ir pra Cidade dos Oito Extremos, hein! Se for pra outra cidade, vai demorar dias pra chegar! — gritou Hou Xuan ao longe.
Imo acenou enquanto pedalava, indicando que tinha entendido.
Já passava das seis, esperava que Tong Junwen não estivesse com fome. Lembrou-se de uma vez em que, por estar atrasado, foi buscá-la e a encontrou com o queixo apoiado no livro, mãos apertando a barriga roncando, olhos marejados e grandes, cheios de lágrimas, olhando para ele com uma expressão de pura mágoa. Imo sorriu com a lembrança e acelerou o passo.
Mas não teve sorte: ao chegar à escola, Tong Junwen já estava parada ao pé da escadaria da biblioteca, abraçada à mochila, segurando uma barra de chocolate pela metade, mastigando com barulho. Ao ver Imo chegando apressado do lado de fora, mastigou ainda mais rápido.
— Chiado dos freios! — Ele parou bruscamente diante dela, juntou as mãos como em prece. — Foi mal! Eu errei!
Tong Junwen o olhou dos pés à cabeça, semicerrando os olhos, e enfiou o resto do chocolate na boca. O barulho dos dentes mastigando parecia, para Imo, o de ossos sendo triturados.
...
A mãe de Xi preparou sopa de frango e caranguejo naquela noite, por isso, não importava a hora, era preciso voltar para casa. Imo, ignorando a dor na cintura, pedalou depressa levando, no banco de trás, uma Tong Junwen emburrada.
A noite caía, as luzes da cidade se acendiam, e Imo avistou o Monte Baofu. O monte parecia igual, mas o Templo Baoyuan, sempre repleto de fiéis acendendo velas e incensos, agora estava às escuras.
Hoje continuava fechado. Imo pensou, preocupado com o monge que só vira uma vez. O que teria acontecido? Seria obra de fantasmas ou outra coisa? Será que ele ficaria bem? Imo não tinha com quem conversar sobre tudo aquilo; até na internet tinha medo de se abrir, para não atrair desgraça para os próximos. O monge do Templo Baoyuan parecia o único com quem poderia dividir seus segredos. Queria contar o que tinha visto, perguntar se o mundo era mesmo assim como ele via desde a infância.
Força, monge! Imo desejou-lhe silenciosamente.
Ao chegar à casa de Tong Junwen, a mãe de Xi assistia TV, e pratos cobertos aguardavam na mesa. O cheiro da sopa de frango deixava qualquer um com água na boca. Ao ver os dois chegarem, ela os chamou para comer, sempre amável, cuidando dos dois com carinho e nunca perdendo a paciência.
Os três jantaram juntos, Xi Zina servindo comida aos jovens o tempo todo, com medo de que comessem pouco.
Depois de um tempo, a mãe comentou:
— Hoje o doutor Yin Jiahao ligou de fora do país, viu, Wenwen?
Tong Junwen parou por um instante, um olhar de leve culpa nos olhos.
— Ele disse alguma coisa?
— Quis saber como você anda, seus estudos... — respondeu Xi Zina, sorrindo. — Mas contou também que o laboratório está quase pronto. Disse que, no último congresso científico nos Estados Unidos, conseguiu trazer alguns cientistas de peso para o projeto. Quando terminar o que tem de fazer lá, volta para começar aqui.
Tong Junwen tomou a sopa, cabeça baixa.
— Hum.
— Não seja teimosa, Wenwen. E não coloque tanta pressão no Momo.
— Está bem, mamãe — respondeu Tong Junwen, lançando um olhar de lado para Imo, dizendo baixinho.
Imo não disse nada, apenas apertou a mão dela sob a mesa. Tong Junwen retribuiu o gesto.
As pessoas têm seus momentos de teimosia, mas existem coisas que não se pode evitar.
Depois do jantar, estudaram até tarde, como de costume, e depois Tong Junwen acompanhou Imo até a porta.